quarta-feira, 5 de abril de 2017

ABISMO

Depravação depravada




"Perguntamos às vezes: “Você é salvo?”, “Sim”, “De Quê?”, “Do pecado”. Não, não meu amigo. O pecado não estava antes de ti. Quando um homem é salvo, ele é salvo de Deus, da Justiça de Deus que estava para vir sobre ti. Deus te salvou dEle mesmo, Ele se interpôs contra a Sua própria Justiça, que pairava sobre ti."
Paul Washer

Eu achei essa fala um ótimo link para demarcamos a diferença de C. S. Lewis da teologia que essa frase representa.

C. S. Lewis é um autor cristão para todos os públicos. Isto é, para todos os cristãos. Sem nenhuma espécie de barreira. Um dos motivos, além do enorme talento e criatividade, é que ele se propôs, em grande parte, a focar o "mero cristianismo" ou o Cristianismo SEM as questões de ordem secundária: sem as mil esquinas que o divide.

O ensino que o Washer reflete nessa frase é exatamente o que o Van Till diz estar ausente na teologia de C. S. Lewis. Ele diz:

"Em Lewis não vejo nenhuma percepção da minha necessidade de aceitar a expiação substitutiva". E mais: "segundo ele, não devemos nos preocupar sobre qual é a teoria correta sobre a morte de Cristo, nem como ela se deu... é interessante que em Crônicas de Nárnia vemos que realmente Lewis não se importava com o sentido bíblico da expiação, pois na história o resgate é pago ao diabo, e não a Deus".

O Van Till está correto quanto a esse dado? É discutível. Uma questão diferente: ele analisa corretamente esses dados? Aqui, creio que a resposta deva ser "não". Porque nem toda a fé cristã, genuinamente cristã, expressou sua fé nos benefícios da morte de Cristo nos termos desse calvinismo. As teorias concorreram, e conviveram. O problema é que essa expressão é a hegemônica e é monolitista (só ela quer estar certa, não aceita outras).

Nesse campo de debate, que é amplo, sublinho especialmente a ênfase do próprio Washer: no sentido PROPICIATÓRIO da morte de Cristo. Isto é, que ela apazígua a ira de Deus, cobra a conta do mal.

Embora isso possa parecer verdade, o ensino das Escrituras é "mais verdade", uma verdade maior - segundo as Escrituras, a morte de Cristo é o preço que o próprio amor de Deus quis investir. A morte de Cristo foi motivada pelo o amor de Deus. "Em Cristo", na vida, e também na morte, Deus mesmo estava amando. Em Cristo Deus nao se mostrou irado (se as Escrituras também se expressam assim, devemos buscar seu sentido). 

A MESMA história pode ser contada de uma forma mais completa, e com uma abordagem mais positiva: que penso ser o foco das Escrituras. Se há alguma tensão (Amor X Ira), independente dela, o preço da salvação é Deus quem paga, e o faz por Sua graça e amor. Deus estava assim provando Seu amor para com os pecadores.

Dito isso, até pela ênfase negativa, acredito que o Washer e toda a teologia que ele representa, está equivocada.

***
O cristianimo sustenta-se na afirmação de um paradoxo absoluto: Deus se fez homem, e sem deixar de ser Deus, continuará sendo homem. 

Antropologicamente também mantém tensões: o homem é a tragédia de sucesso da boa criação de Deus. O homem é uma mistura de pó e glória. Qualquer desmedida, o desumaniza. E se o humanismo o exalta despropocionalmente, a tentação do cristianismo é desprezá-lo. 

O homem nao pode esquecer de que é pecador, mas não pode fixar-se nesse aspecto da verdade sobre ele. 

Jonathan Edwards é famoso pelo seu sermão Pecadores  nas  mãos  de  um  Deus  irado. Conta-se que seu sermão deixou o gosto de inferno na boca dos ouvintes - pessoas em agonia agarravam-se onde podiam. Sentiam se, conduzidos pelo sermão, empendurados sobre a boca do inferno. 

Até o Packer tenta defender a finalidade evangelística desse sermão. 

Mas ali o inferno era tão ruim quanto as pessoas - era um espelho. O inferno era o que o homem é, e merece.

Aqui penso estar diante de uma desproporção. E ela é tao comum quanto o sermão de Edwards é elogiado e defendido. 

O homem-para-o-inferno é anti mensagem evangélica. 

Aqui, nesse sentido, o anti-cristo é o anti-homem. 


***
"Sem dúvida o cristianismo afirmou que todo homem é concebido e gerado em pecado, e no insuportável cristianismo superlativo de Calderón essa idéia foi mais uma vez atada e entrançada, de modo que ele ousou o mais estapafúrdio paradoxo nestes versos conhecidos: 

a maior culpa do homem 
é a de ter nascido",  

escreve Nietzsche. 

E para quem acha que esse diagnóstico é exagerado ou localizado, Agostinho é quem contesta:

"Assim, são dignos de JUSTA condenação  os que por ela  (a graça) não são libertadas ... quando pela idade não poderia ouvir (as crianças). Isso porque levam consigo o pecadom o qual contraíram pela origem", Agostinho.

Para Agostinho, mandar uma criança pagã para o céu, é desprezar o evangelho. O evangelho até mesmo para Agostinho, acolhe crianças que merecem o inferno. Calvino repetiu isso. 

Para sustentar todo o edifício do evangelho, a graça imerecida, a justiicação pela fé, os méritos da obra de Cristo - defendiam, a criança precisa merecer o inferno. 

Tudo isso, faz de Nietzsche, gostemos ou não, um profeta:

"O cristianismo esmagou e despedaçou o homem por completo, e o mergulhou como num lodaçal profundo: então, nesse sentimento de total abjeção, de repente fez brilhar o esplendor de uma misericórdia divina, de modo que o homem surpreendido, aturdido pela graça, soltou um grito de êxtase e por um momento acreditou carregar o céu dentro de si. Sobre este excesso doentio do sentimento, sobre a profunda corrupção de mente e coração que lhe é necessária, 56 agem todas as invenções  psicológicas do cristianismo: ele quer negar, despedaçar, aturdir, embriagar...". 

***
As pessoas não podiam suportar o peso das palavras do cristianismo de Edwards. Penso eu se a experiência foi tão traumática que moldou, pelo temor que impede a alegria e a paz, a vida daquelas pessoas para sempre. 

Li um texto do Nelson Rodrigues, e nao pude deixar de fazer a relação. Eis o que ele diz:

"Eu teria o que? Uns 17, 18 anos. Naquela época, conheci Osvaldinho. ... Coisa curiosa. Nao se conhecia um defeito ou virtude em Osvaldinho que o distinguisse dos demais. Nunca vi ninguém mais parecido com todo mundo. ... Osvaldinho era um homem comum até no diminutivo... um dia vou dobrando uma esquina e esbarro no Osvaldinho. 

Agarra-me e cochicha: - Seja bom, Nelson, seja bom". Instala-se em mim um sentimento de culpa. Pergunto: - "Mas como? Por que bom?" Olha para os lados e fala mais baixo: - "Só a bondade resolve." ... fiz, ali mesmo, em cima da calçada, um rápido exame de consciência. E conclui, para mim mesmo: - "Posso não ser dos melhores, mas também nao sou dos piores." E eu: - Mas escuta, Osvaldinho, o que é que houve? O que é que há?" Fez mistério, fez suspense: - "Não se esqueça, Nelson. A bondade é tudo". E partiu. 

Pela primeira vez Osvaldinho deixava de ser como todo mundo. ... A coisa foi numa progressão alarmante... O clínico da família, consultado, mandou levá-lo ao psiquiatra. Este o recebeu e começou: - "O que é que você está sentindo?" ... Osvaldinho responde: - "Doutor, eu não sou bom, o senhor não é bom, ninguém é bom."

... Durante toda a consulta, Osvaldinho repetiu: - "O senhor não é bom, doutor, o senhor não é bom". E, realmente, aquele psiquiatra famoso cometera uma açao que ainda o envergonhava e havia de envergonha-lo aé o fim de seus dias. Eis o episódio: - examinava uma louca, quando esta lhe cospe na cara. E o psiquiatra, furioso, agride a doente, a sapatadas. Ora, tal fato acontecera, por coincidência, na véspera. E o Osvaldinho com o estribilho crudelíssimo: - "O senhor nao é bom, doutor, nao é bom!" O psiquiatra já queria chorar". 

Penso até onde a culpa é uma marca que se pode curar, até onde a consciência cristã encontra paz, paz real, até onde o nosso mal não é uma fixação insalubre. 

***
Tais palavras foram escritas não para negar a ambiguidade humana. Mas para manter o homem tal qual ele é visto pelo evangelho. 

O Pascal já havia dito - “o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar”. 

Só se conhece o homem, quando ele visto a partir do evangelho. 

É nesse sentido que o Karl Barth vai dizer que "existe, por assim dizer, um conhecimento infrutífero do pecado, do mal, da morte e do demônio, que consegue tornar difícil para um ho­mem ter uma fé feliz e confidente no Pai Todo-Poderoso e Criador...".

E as palavras dele nos coloca diante da única perspectiva correta para olharmos para esse problema:

"Para olhar atentamente para dentro desse abismo, tão longe quanto for possível para nós o fazer por nós mesmos, amedrontador é este abismo! Quão amedrontador ele é que nenhum homem nunca pode compreende-lo com o profundidade de si mesmo.

Esta miséria é "precondiçào negativa desta reconciliação que tornou acessível precisa, enfática e seriamente quanto possível o abismo entre Deus e o homem que foi trans­posto por intermédio de Jesus Cristo com o reconciliador.

Jesus Cristo é o último plano a partir do qual a miséria e o desespero do homem recebem as suas luzes e não vice-versa."

A miséria e o desespero do homem... dá a luz através da qual está para ser reconhecida o que a graça é e Quem Jesus Cristo é".



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Santo gênio



Leonardo Boff é um gênio, um gênio e um santo. O que não é um pecado contradizê-lo por ser gênio, é pecado porque é santo. É um santo para quem os pobres ainda hão de rezar - e nao há uma explicação justa porque já não o fazem!

Todo homem tem uma uma obsessão, e todo santo tem, para além de outras, uma obsessão santa. Fui atrás das obsessões do santo Boff e encontrei também uma anti obsessão. Uma anti obsessão seria um desapego exagerado.

Fui ver o que o Boff estava a dizer recentemente, o que estava preenchendo sua santa mente e qual a luz divina que sua genialidade tinha a compartilhar. Me saltou essa:

"Marina Silva não aprendeu nada da história" - começa.

De pronto: a aula é de história. É sempre uma aula quando ele fala. Não uma aula qualquer, uma aula de uma mente genial. Que expectativa!

"Quer o impeachment colocando-se de novo ao lado errado. Assim não se limpa o país" - diz em seguida.

Frustração perdoável. Mas ainda ele finaliza: "Não basta rezar".

Repito - "rezar"!, eis aí uma anti obsessão. 

A análise é política, do momento atual de impeachment, mas envolve Marina Silva, uma religiosa. Daí a sacada, que só uma grande mente, obsessiva, relacionaria - "rezar". 

O Boff quando pensa na posição política de Marina, pensa na reza. Coisa de Gênio. 

Mas Boff, gênio, engana: se o leitor se prende na construção lógica, ele vai dizer que Boff não está dizendo que não se deve rezar, apenas que não "basta" rezar. E quem creditaria má fé a um santo?

Mas é a mente dele que traz a imagem, como um menosprezo - ela só reza! 

Não era o assunto, mas ele queria desqualificá-la: e para tanto, o faz falando de sua religiosidade.

O que poderia diminuir mais uma pessoa do que a sua imagem, rezando?

Marina, religiosa praticante. Que ofensa! - imagina o Boff. 

Pois religião é coisa que se quer pode ser dita em público. 

E por mais que em público, não se diga ou pratique a religião, se a pessoa é religiosa, é suspeita. O erro não é "misturar" as esferas. O erro é ser religioso, e praticante! A mente genial e indecifrável do Boff, se mostra.

Vou atrás das recentes manifestações de Marina. Vejo opiniões políticas, agendas, posicionamentos. Mas não encontro nada da grandeza da "reza" que o Boff vê. Não sou gênio, óbvio.

E mais fundamentalmente: quem acompanha a sua agenda, jamais a descreveria com uma imagem estática, passiva... para Boff - "inútil".

Sua imagem política não tem nada da imagem da reza, mas o Boff insiste. 

O grande pecado de Marina não era "apenas" rezar. Não! Era rezar... "Ela reza", e isso ofende o Boff.

Grandeza é sutileza. 

Mas o Boff está obsessivo. E toda obsessão é, por definição, repetitiva. Vou no Google, no rastreio dessa obsessão, e digito: Santo Leonardo Boff + Marina Silva.

Achei toda uma entrevista dele sobre Marina Silva. Empolgado, suspiro: mais história!

"O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa" - diz o Boff. "O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus".

Minhas anotações crescem: "papa", "autoridade"... - é preciso grifar!

A entrevista diz que os pobres perderam uma aliada. Por que? Palavras dele: "quase não fala mais nos pobres...". "Fala" - anoto. O problema é a fala. Não pode deixar de falar. 

Mas algo me chama mais atenção: "...ela, fundamentalisticamente obedece". "Fundamentalisticamente"... Veja, a primeira vista, não é tão apropriado o termo. Não é comum aí, onde ele se encontra. E, tenho minhas dúvidas, na própria exposição das ideias, não me parece tão natural. Poderia ter dito - "ela, sem questionar, obedece...". Ou ainda: "ela, apressadamente...". Mas foi "fundamentalisticamente". 

Mas o que é fundamentalismo? Boff, que já escreveu um livro sobre isso, responde. É exterminar raças, é achar que é o único certo, etc. Mas Marina não chega a tanto, alivia. E ficamos querendo saber em que parte das descrições Marina se encontra. Ele deixa em aberto, de propósito. O importante é que ela é, ponto. 

Alguém lança a questão - "Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas".

Boff não se demora: "O que Marina pratica é o fundamentalismo".

É isso aí, a consulta a Bíblia!

"Reza", e, agora, "a consulta a Bíblia", isto é, a própria prática da religião é o que incomoda Boff.

E, em outro lugar, deixa mais claro onde quer chegar - e diz algo que resume toda a entrevista: "Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado  para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente". 

A equação da sua tática não poderia ser mais clara. A intenção do desmerecimento, e para isso o uso da palavra FUNDAMENTALISTA, é político. Mesmo que Marina não seja o que ele descreve como fundamentalista, ela precisa ter essa diminuição política. 

Uma vez que chegamos aqui, preciso trazer um diagnóstico. Não cito o autor para que inicialmente, o leitor se atenha as ideias unicamente:


"O uso que ela faz dos termos para descrever situações e personagens não corresponde nunca à realidade objetiva, mas a um enfoque pré-calculado para produzir determinadas reações públicas.

Processo análogo sofre o termo "fundamentalista". Essa palavra designava os adeptos de uma interpretação literalista e legalista da Bíblia. Pouco a pouco, a classe jornalística passou a empregá-lo para rotular qualquer pessoa que seja fiel a uma religião tradicional. Isto significa que a quota de fidelidade religiosa admitida na sociedade “decente” vai se estreitando cada vez mais. É um estrangulamento progressivo, lento e calculado.

Tudo isso é manipulação cínica, voluntária e consciente. Quem molda a linguagem popular domina a alma do povo.

Um dos mais notáveis mentores intelectuais da esquerda mundial, o filósofo americano Richard Rorty, teve até o cinismo de enunciar a regra que orienta essa gente: não devemos,dizia ele,tentar convencer as pessoas expondo nossa convicção com franqueza, mas ao contrário, “inculcar nelas gradualmente os nossos modos de falar”. É o maquiavelismo lingüístico em estado puro.

João Paulo II e Bento XVI nunca estiveram efetivamente entre os conservadores. Foram transformados nisso por essa obra de engenharia verbal que, deslocando o eixo da linguagem cada vez mais para a esquerda, deforma as proporções da realidade para ludibriar a opinião pública".*

O Ratzinger também foi certeiro:

"...os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas".

Boff, gênio e santo, cabe na exata definição que Nelson Rodrigues faz de D. Helder: "só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva". Se ele ajunta as mãos - é porque alguém faz aniversário.

* O autor é Olavo de Carvalho.


Texto: Eric Brito Cunha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Calvinismo e o sentido da oferta universal





O Calvinismo e o sentido da oferta universal


O teólogo luterano Wolfhart Pannenberg, em sua Teologia Sistemática, diz o seguinte:

“Em uma compreensão “absoluta” do ato da predestinação, para a qual a eleição OU NÃO-ELEIÇÃO divina não é condicionada por nenhum fato previamente observado da parte dos envolvidos, a ABERTURA da vocação emitida na história por meio do evangelho tenha de se torna problemática: Será que então a promessa da salvação para os fiéis, EM VISTA DE TODOS A QUE SE DIRIGE a proclamação do evangelho, ainda pode ter uma intenção igualmente séria?”.

Vamos ver qual a resposta que Calvino deu, e, por ela, tirar algum posicionamento sobre o Calvinismo.


Ensino de Calvino [i]


A questão, antiga, tem formulação própria nas seguintes palavras de Calvino: “Deus seria contrário a si mesmo se a todos, universalmente, convide a si, porém admita a poucos”.

Em sua resposta, Calvino cria a distinção entre vocação exterior e interior (ou geral/universal e particular):

“...mediante a pregação exterior, são todos chamados ao arrependimento e à fé, entretanto, nem a todos é dado o espírito de arrependimento e fé”. E: “Deus destina as promessas de salvação especificamente aos eleitos”.

O que dizer quando Deus chama para si àqueles a quem sabe que não haverão de vir?” – pergunta-se Calvino. E responde citando Agostinho: Oh, profundidade!’.

Em outro momento, tem uma reação semelhante – onde também cita Agostinho:

“Deus poderia”, diz Agostinho, “converter para o bem a vontade dos maus, porque ele é onipotente. Obviamente que poderia. Então, por que não o faz? Porque não quis. Porque não quis, está nele.

Mais adiante ensaia sua própria resposta:

“...há a vocação universal, pela qual, mediante a pregação externa da Palavra, Deus convida a si a todos igualmente, ainda aqueles aos quais a propõe como aroma de morte e matéria da mais grave condenação. A outra é a vocação especial, da qual digna ordinária e somente aos fiéis, enquanto pela iluminação interior de seu Espírito faz com que a Palavra pregada se lhes assente no coração”.

Então, para Calvino, Deus estende o convite àqueles predestinados (ou, como ele se refere, “aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte”) à não aceita-lo não porque fosse falso o convite, mas para que, sendo recusado, aumentasse os motivos de sua condenação.

A lógica é tal que Calvino não deixa dúvidas de que Deus mesmo providencia de que neguem o convite e rejeitem a mensagem:

“aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte, a fim de que venham a ser instrumentos de sua ira e exemplos de sua severidade, para que atinjam a seu fim, ora os priva da faculdade de ouvir sua palavra, ora mais os cega e os endurece por meio de sua pregação”.

E, finalmente: “Certamente não se pode pôr em dúvida que o Senhor envia sua Palavra a muitos cuja cegueira quer que aumente”.

Calvino ainda diz que Crisóstomo tergiversa ao situar a distinção entre salvos e condenados no arbítrio dos homens e não unicamente no juízo de Deus.

Calvino cita passagens como Ezequiel 33-11 - “Deus o quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva” - onde admite: “Deus parece negar que, por sua ordenação, aconteça que os iníquos pereçam, a o ser até onde, contra seu querer, eles pessoalmente engendram deliberadamente para si a morte”.

O que Calvino diz é que embora pareça o contrário, os iníquos perecem por ordenação de Deus!

Ele argumenta: “Se agrada a Deus estender isto a todo o gênero humano, por que o induz ao arrependimento os muitos cujo espírito é mais flexivel à obediência que o espírito daqueles que, ante seus convites diários, mais e mais se endurecem?”.

Por tudo o que diz, a conclusão óbvia, é que não é verdade que “Deus o quer a morte do pecador”. Deus só não quer a morte daqueles pecadores que ele predestinou à vida. Fora isso: Deus quer, sim, a morte dos pecadores. Algumas traduções trazem a palavra: prazer. Para Calvino, Deus tem prazer na morte do pecador.

Qual então, o sentido desse dizer de aparência enganosa? “Não se deve dizer que por isso ele age enganosamente” – escreve. “porquanto, visto que pela voz externa tornas sem desculpas os que a ouvem”.

Uma vez que o sentido real do texto é tão diferente do que parece, a ponto de ser o contrário do que sugere, fica a questão da confiabilidade das promessas:

“Ora, pois, dirás, se é assim, mui pouca certeza oferecem as promessas do evangelho, as quais, em testificando da vontade de Deus, asseveram que ele quer aquilo que contrapõe a seu inviolável decreto”.

Mais uma vez Calvino explica que “ovo não é ovo”:
“Embora, até onde vai nossa percepção, a vontade de Deus seja múltipla, contudo, em si ele não quer isto e aquilo; ao contrário”. E diz que talvez possa nos ser concedido compreender que “Deus, de uma forma admirável, quer o que agora parece ser contrário à sua vontade”.



Fórmula de Concórdia [ii]

O Pannenberg nos faz lembrar que “A Fórmula de Concórdia condenou aqueles que afirmam que Deus não deseja seriamente a salvação de todos aqueles aos quais ressoa a proclamação do evangelho por meio da igreja”.

Nas próprias palavras da Fórmula:

“Esse Cristo chama a si todos os pecadores e lhes promete refrigério. Seriamente quer que todos os homens venham a ele e permitam se lhes ajude. A eles se oferece na Palavra e quer que a ouçam e não fechem os ouvidos ou a desprezem”.

Ela ensina que a doutrina da graciosa eleição de Deus para a vida eterna é ensinada de modo tal que é tratada “em harmonia com a razão e o impulso do abominável Satã”.

E, assim, rejeita expressamente, dentre outros, os seguintes erros decorrentes das distorções da doutrina da eleição para Vida:

1. Quando se ensina que Deus não quer que todos os homens se arrependam e creiam no evangelho.

2. Também, que Deus, quando nos chama a si, não quer, seriamente, que todos os homens venham a ele.

Pontos abertamente contrapondo-se aos ensinos de Calvino.

A Fórmula conclui chamando-os de “blasfemas e terríveis doutrinas errôneas, com as quais se tira aos cristãos todo o conforto que têm no santo evangelho”.


Advertência

“Deveríamos levar em conta as advertências de Barth”, escreve Pannenberg, “diante de ressalvas teológicas QUE FAZEM COM QUE A VONTADE DA GRAÇA DIVINA PAREÇA DUVIDOSA. A ira de Deus sobre os ímpios e a concepção do JUÍZO FINAL não devem ser imaginadas ASSIM QUE DELAS RESULTE UM MALOGRO DA VONTADE SALVADORA UNIVERSAL DE DEUS em Cristo”.





[i] Em sua abordagem da ELEIÇÃO nas Institutas, ler especialmente os textos sob os seguintes títulos:


8. duas espécies distintas de vocação: geral ou particular ou especial

10. A universalidade do convite divino à salvação o impugna o particularismo da eleição

12. Deus priva da graça salvífica os réprobos e os deixa entregues à cegueira moral e espiritual

13. Instrumentos da ira justa de deus, os réprobos se fazem ainda mais endurecidos com a pregação da palavra

15. A doutrina da reprovação o contradiz, como alegam os opositores, a ezequiel 33.11

17. Considerações em refutação de outras objeções suscitadas contra a doutrina da reprovação e conclusão final da matéria


[ii] Ler XI - DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A Lei, Jesus e Vontade de Deus - Hans Kung







Muita gente santa reduziu o fazer a vontade de Deus a uma fórmula piedosa, identificada com a Lei. Mas trata-se de palavra muito radical, o que só se percebe, quando se vê que a vontade de Deus não se identifica, sem mais sem menos, com a Lei estrita e, muito menos, com a tradição interpretativa da Lei. A Lei pode manifestar a vontade de Deus, mas pode, muito bem, ser o meio para erguer uma barricada e atrás dela entrincheirar-se contra essa vontade. A Lei facilmente conduz ao legalismo, atitude muito espalhada, a despeito de afirmações rabínicas sobre a Lei, como expressão da graça e vontade de Deus.

A Lei confere segurança, porque se fica sabendo exatamente até onde ir; isto é, nem fazer de menos, nem fazer demais. Devo cumprir só o que está prescrito. E o que não é proibido, é permitido. Quanta coisa se pode fazer ou omitir, em concreto, antes de entrar em conflito com a Lei!

Não existe Lei capaz de prever todas as possibilidades, de calcular todos os casos, de fechar todas as fendas. Sem dúvida, são contínuas as tentativas de adaptar antigas prescrições legais (em moral e doutrina), outrora razoáveis, às novas situações da vida, respectivamente, de deduzir delas algo de aproveitável para uma situação que não é mais a mesma de antes. Esse parece o único caminho, caso se queira identificar a letra da Lei com a vontade de Deus: acumulação de Leis, através de interpretação e explicação das mesmas. Na Lei do Antigo Testamento contam-se 613 prescrições (o Codez Iures Canonici romano tem 2414 cânones). Quanto mais fina a rede, tanto maior o número de buracos. Quanto mais ordens e proibições, tanto mais se encobre o que é essencial. Principalmente é possível que se respeite a Lei em geral, porque, afinal, ordem é ordem e, eventualmente, pelo receio de consequencias negativas. Não fora prescrito, não seria cumprido. E vice-versa, talvez se omita muita coisa que devia ser feita, só porque não foi mandada e ninguém pode obrigar a fazê-la. É o caso do sacerdote e levita da parábola: viu e passou. Destarte, autoridade e obediência formalizam-se: faz-se porque a Lei manda. Nesse sentido qualquer prescrição ou proibição são de importância igual. Não é necessário diferenciar entre o que é relevante e o que não é.

Quanta coisa que não é prescrita deveria ser feita. E quanta coisa que não é proibida deveria ser omitida. É preferível contas com determinações claras. Sempre ficar margem para a discussão em caso particular: houve realmente transgressão da lei? Foi, de fato, adultério? ... E, mesmo sendo proibido por lei o adultério, não o é tudo a que ele conduz.

Essa atitude legalista recebe o golpe de misericórdia por parte de Jesus. Ele assesta o golpe não contra a Lei, mas contra o legalismo do qual a lei deve conservar-se imune. Contra o compromisso característico desse tipo de piedade legal. Rompe o muro protetor do homem, em que um lado, é a Lei de Deus e o outro as obras legais do homem. Não permite que o homem se fortifique no legalismo atrás da Lei, derruba-lhe das mãos os méritos. Mede a letra da Lei na vontade de Deus e assim coloca o homem diretamente frente a Deus, liberto e feliz. O homem não está para Deus em uma relação jurídica codificada, podendo deixar de fora o seu próprio "eu". O homem há de por-se às ordens, não da Lei, mas do próprio Deus: daquilo que Deus deseja dele de maneira muito pessoal.

Por isso, Jesus recusa-se a falar eruditamente de Deus, a proclamar princípios morais, gerais a abrangerem tudo, a ensinar ao homem novo sistema. Não fornece indicações para todas as situações e áreas da vida. Jesus não é, nem pretende ser legislador. Não repudia a antiga ordem legal, nem ofere nova Lei a abranger todas as esferas da vida. Não compõe uma teologia moral, nem um código de comportamento. Não promulga prescrições éticas nem rituais, a respeito do modo de rezar, de jejuar, de respeitar os dias e lugares santificados. Até o Pai nosso não foi conservado com o mesmo texto único: a Jesus não interessa a repetição literal de preces. E o mandamento do amor não quer ser uma nova Lei.

Antes: atacando bem concretamente, longe de qualquer casuística ou legalismo, inconvencional e seguro Jesus concita cada um à obediência a Deus que deve abarcar a vida toda. Apelos simples, transparentes, libertadores, a abrirem mão de argumentos de autoridade e tradição, e oferecerem exemplos, sinais, sintomas para a vida modificada.

Indicações eficazes e grandes, por vezes exageradas, sem qualquer "se" nem "mas". Cada um que faça a aplicação à própria vida.

O sermão da montanha certamente não quer ser uma ética legalista rigorista. Erradamente deu-se-lhe muitas vezes o nome de "Lei de Cristo". Nele exprime-se precisamente o que não pode ser matéria de regulamentação legal. A "justiça melhor" e "perfeição" não significam um aumento quantitativo de exigências. ... Segui-lo não quer dizer cumprir um quantum de prescrições. Não sem motivo o sermão da montanha abre com a promessa de felicidade aos infelizes. A dádiva, o dom, a graça antecedem à norma, à exigência. À prescrição: cada um é chamado, a cada um oferece-se a salvação, sem qualquer esforço prévio. As mesmas prescrições são consequência de sua mensagem sobre o Reino de Deus.

Assume posição apenas exemplarmente, simbolicamente.

[A vontade de Deus] não aceita o compromisso casuístico... Os exemplos provocadores do sermão da montanha não tencionam traçar uma linha divisória legal: só a face esquerda, duas milhas, o manto - ai acaba o comodismo. A exigência de Deus apela à humana generosidade e tende a um mais.

Aliás, avança ao incondicional, ao ilimitado, ao total.

Deus quer não só bons frutos, mas uma boa árvore.


Esse é o sentido das estranhas antíteses do sermão da montanha onde a vontade de Deus se contrapõe à Lei: não primeiro adultério, perjúrio, morte, mas também aquilo que escapa à Lei: já a intenção adultera, o pensamento e a palavra inverdadeiros, a atitude hostil, são contra a vontade de Deus. 

Hans Kung, Vida Eterna