sexta-feira, 29 de julho de 2011

HORIZONTES




O que é um horizonte?
É o fim?
É um limite?
É a ponta de um abismo?

Por certo é uma indeterminação!
É onde termina os olhos.
É uma fronteira.
É onde começa a imaginação.

Do lado de lá, a terra é mágica.
O canto de lá, à toda terra encanta.

Quantos cantos inspira?
Linha de inspiração!

O horizonte é onde mora o mistério.
O mistério é luz sobre a revelação,
E é sal sobre o conhecimento.
O mistério salva o mundo!

O horizonte só existe lá.
Ele inspira pela distância...
Há coisas que só são boas quando distantes,
Quando longe das mãos do desejo: o desejo morre na sua satisfação.
O destino do horizonte é provocar...

O horizonte é onde, através do olhar, projetamos nossos desejos.
Os desejos ultrapassam o horizonte!
Eles vão até lá,
E nos trazem histórias!
Nada expande mais o homem que um horizonte!
Horizonte é a direção dos sonhos.

O horizonte não é uma linha,
É uma parede, e inibe!
Nada limita mais o homem que um horizonte!

O horizonte é um paradoxo para a alma humana!

É o combustível do aventureiro.
É o desafio do navegante!
É um jogo!

Mas é também o basta.

É o inalcançável, mas que vemos.

Não, o Horizonte não significa o fim do mundo.
Nem tudo cabe no olho!
Nem somando os olhares!
O Horizonte é o início de um mundo maior.

O alcance não é igual pra todos,
Muito embora o horizonte seja o mesmo.
Aquela linha sustenta mundos!

Deus foi quem traçou os horizontes.
Diz-se que Ele pôs os limites da Terra.
E como não seria?
Ter fé é como navegar.
Há medos, tempestades, superações, bonança.

Navegar é andar sobre Desconhecido,
Em uma direção desconhecia!
O Horizonte é o encontro do céu e do mar,
É para onde ruma minha alma navegante!

Eric Brito, Itabuna-Ba

terça-feira, 26 de julho de 2011

Porque o caminho PODE SER Estreito



   "Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela)" 
(MT 7.13)


Esse caminho estreito cabe todo mundo. Mas nós, com toda essa nossa gordura - de maldade, de juízos impróprios, de desumanidade, revanchismo, partidarismo, triunfalismo - e tudo mais que é pecado, nos tornamos grandes demais para passar nele.

Esse é o paradoxo do caminho: cabe todo mundo, mas não cabe um único cheio de si.


É que a estreiteza dessa porta é de uma natureza diferente. Mede, por dentro.


Nós que somos, digamos, "os da religião", sofremos da tentação do fariseu. E na verdade, estamos mais próximos de andar pelo caminho do fariseu do que um ímpio. Mas por que cito o caminho do fariseu? Porque, se leio bem os evangelhos, os fariseus eram os únicos "sãos" - que não precisavam do Médico. Um caminho, digamos, auto-suficiente, de justiça própria.


O Evangelho não, é para os doentes - como eu.


O coração que cabe no caminho estreito é só um: o contrito, o quebrantado. O Manso ou o ensinável.


Como eu ouvi ontem de um homem de um santo de Deus: eu valho muito pouco mesmo, me desculpe alguma coisa.

Esse é o caminho que me propus a seguir, o da Graça de Deus. Uma Graça muito cara, que custou Jesus.


E essa é a minha nudez, eu vou ao Julgamento, e não levo ninguém comigo. Vou para o meu Julgamento. Assim, não sou melhor ou pior, sou o que sou. O réu sou eu. O outro não é a minha medida.


E a minha paz, mesmo culpado, é o Evangelho - em sua essência. Que é Cristo como propiciação, que é o vicariato de sua vida e obra. Que é Cristo como Justiça de Deus, levando na Cruz o que era para mim.


Sem o evangelho, culpado como eu sou, eu não teria essa paz. Mas como sou beneficiário da justiça de Cristo, estou nu para todo o mundo. Eu, sendo quem eu sou, estou nu - e vestido de Cristo - e quem vence essa minha consciência? Quem me acusa, se em Cristo, sou dito justo?


O evangelho é dieta, o evangelho é cruz. Mais especificamente: o evangelho é a minha cruz. A minha, não a do outro.


Assim, depois de alguns anos trilhando com pés vacilantes mas com o coração firme esse caminho, toda minha confissão de fé pode ser resumida na fala de um bem aventurado descrito no evangelho:

Nós, recebemos, com justiça, o castigo pelos nossos erros. Ele, Cristo, nenhum mal fez. Lembra-te Senhor, de mim...


O que passar disso, é tangente do caminho do fariseu.


O caminho de Cristo é estreito: e agente só passa em pedaços, em contrição. 


Eu desci - e estou em baixo. E é para lá que a Graça vai.

E o que acaba diferenciando os homens - é a sua resposta à Cruz.

Diga-me o que amas, diria Agostinho, e eu te direi quem és.

Pense nisso!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo: na visão de um sábio



“Perguntei a um sábio,
o que ele pensava sobre a amizade,
ele me disse essa verdade…"


Shakespeare, parafraseado



***

"Um olhar amigo alegra o coração" (Provérbios 15.30)

"O amigo ama sempre e na desgraça ele se torna um irmão" (Provérbios 17.17) 

"É mais difícil ganhar de novo a amizade de um amigo ofendido do que conquistar uma fortaleza; as discussões estragam as amizades" (Provérbios 18.19)

"O homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão" (Provérbios 18.24)

"O amigo quer o nosso bem, mesmo quando nos fere; mas, quando um inimigo abraçar você, tome cuidado!" (Provérbios 27.6)

Como o óleo e o perfume alegram o coração, assim, o amigo encontra doçura no conselho cordial. (Provérbios 17.9)

"Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo". (Provérbios 27.17)

Amizade



***
Amigos ... são perpétuos, o que, em se tratando de verdadeiros amigos, é mera redundância. Amigos não se explicam, pois se sabem. Amigos nunca interpretam silêncio como nada quando nada está acontecendo. Amigos sabem que o tempo muda tudo, menos a essência de quem um dia a gente conheceu a alma. Amigos entendem até aquilo com o que discordam no outro, e não se sentem distantes por nenhuma diferença. Amigos são aqueles que podem abrir a alma, pois jamais serão desprezados, ou reinterpretados para baixo. Amigos celebram as vitórias uns dos outros como acontecimentos pessoais. Amigos choram as perdas uns dos outros como sendo suas próprias perdas. Amigos não se divorciam uns dos outros, nem pelo divórcio. Amigos sempre se redescobrem após qualquer névoa de dúvida. Amigos nunca olham com maldade. Amigos enxergam com bondade. Amigos são aqueles que crêem na Graça, pois só vendo a vida com os olhos da Graça é que se consegue ver um outro ser humano sempre assim.

Caio Fábio


***
Um Mestre de Cerimônias invisível tem estado em atividade. O Cristo que disse aos discípulos “Vocês não escolheram a Mim! Eu é que escolhi vocês!” pode dizer a todo grupo de amigos cristãos: “Vocês não se escolheram uns aos outros, mas Eu os escolhi uns para os outros”. A Amizade não é uma recompensa de nosso bom gosto e discriminação, mas o instrumento através do qual Deus revela a cada um as qualidades de todos os demais.

C. S. Lewis

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Eros (enquanto dura) fica necessariamente apenas entre duas pessoas. Mas dois, longe de ser o número necessário para a Amizade, não é nem sequer o melhor. E a razão para isto é importante. Lamb diz em algum lugar que se dentre três amigos (A, B e C), A morresse, então B perde não só A mas também a “parte de A em C”, enquanto C perde não A mas “a parte de A em B”. Em cada um de meus amigos existe algo que somente um outro amigo pode trazer plenamente à tona. Por mim mesmo não sou grande o bastante para fazer com que o homem total entre em atividade. Quero outras luzes além da minha para mostrar todas as suas facetas. Agora que Carlos morreu, jamais verei de novo a reação de Ronaldo a uma brincadeira especial de Carolina. Longe de ter mais de Ronaldo, de tê-lo “para mim mesmo” agora que Carlos se ausentou, tenho menos de Ronaldo.

C. S. Lewis
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A expressão típica de um começo de Amizade seria algo como: “O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único.”

C. S. Lewis

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Verdade, Deus e eu



Eu tenho um quê do neoplatonismo agostiniano que vê - por conta do que não vê. Enxerga porque a Luz possibilita. E essa luz, esse insight, essa inspiração, não sou eu que a controlo. A Verdade, tem, em algum sentido, autonomia.

Nem Pan, e suas outras versões do Todo Impessoal, nem as versões metafísicas do Deus grego, nem as fileiras do Olimpo, nem as bestas espiritualistas, conseguem me dizer porque eu estou eu, e porque um "eu" surgiu.

A Verdade, autônoma, também ela é pessoal.


E, por fim, a Verdade, como em Kierkegaard, é subjetividade. Ela é quando é minha. Quando é própria. Quando envolve o ser todo. Envolve riscos, e é um romance.

Deus é, Ele criou e sustenta. Tudo que existe, nele existe. Eu existo nele. E para ele fui feito.

A Verdade, autônoma: Deus se Revela.

A Verdade é pessoal: Deus é pessoal.


A Verdade é subjetividade: existe um eu, que foi feito para Deus, capaz de percebê-lo, quando Ele tira o véu.


A Verdade como pessoa explica o eu. E justifica a ética. E dá propósito: explicando porque ele não é o ideal de esvaziamento e dissolução na impessoalidade - esse niilismo budista.

A Verdade como Pessoa explica a Fé Cristã: escândalo para o judeu, loucura para o grego.

A Verdade como Pessoa explica a Lei, e possibilita a ciência.

A Verdade como Pessoa sustenta a ética.

O Credo se mostra uma Filosofia Sólida - como raras há, se há.

A Criação, Queda e Redenção - pano de fundo e aplicação do Evangelho - explica a criação, endereça o Bem e não esconde o mal.


Se algum antropólogo descobrir, em algum tempo, a ateuolândia, eu posso alterar minha tese de que não há ateísmo que não seja emocional: no final, uma rebeldia... E no nosso Ocidente, essa rebeldia é um contrato social.

O Pós-moderno vêm dizendo: eu deixo que você creia.

Mas o que crê, que nunca perdeu sua pretensão, responde: eu cri quando você não deixava.

A minha pretensão é esta: eu não tenho a Verdade, mas ela me tem. Dela, no máximo, eu posso ser testemunha. Eu posso apontá-la. Esse é o pequeno fio que que liga a Verdade em mim, à arena pública. E é muito que se tenha um fio! É um fio por meio do qual se tenta passar o Camelo da Verdade pela agulha do seu interior.

A pretensão do que crê é essa: a Verdade é autônoma, tem vontade, e Revela-se a quem quiser. Ou de outra forma: eu não sou você. Isto é, eu sinto o que sinto, vejo o que vejo, sei do que sei. E meus olhos o Viram....

AINDA OS FILÓSOFOS





Olavo de Carvalho

Diário do Comércio

Expressar a experiência real em palavras é um desafio temível até para grandes escritores. Tão séria é essa dificuldade que para vencê-la foi preciso inventar toda uma gama de gêneros literários, dos quais cada um suprime partes da experiência para realçar as partes restantes. Se, por exemplo, você é Balzac ou Dostoiévski, você encadeia os fatos em ordem narrativa, mas, para que a narrativa seja legível, tem de abdicar dos recursos poéticos que permitiriam expressar toda a riqueza e confusão dos sentimentos envolvidos. Se, em contrapartida, você é Arthur Rimbaud ou Giuseppe Ungaretti, pode comprimir essa riqueza nuns poucos versos, mas eles não terão a inteligibilidade imediata da narrativa.

Essas observações bastam para mostrar que as idéias e crenças surgidas nas discussões públicas e privadas raramente se formam da experiência, pelo menos da experiência pessoal direta. Elas vêm de esquemas verbais prontos, recebidos do ambiente cultural, e formam, em cima da experiência pessoal, um condensado de frases feitas bastante desligado da vida. Se vocês lerem com atenção os diálogos socráticos, verão que a principal ocupação do fundador da tradição filosófica ocidental era dissolver esses compactados verbais, forçando seus interlocutores a raciocinar desde a experiência real, isto é, a falar daquilo que conheciam em vez de repetir o que tinham ouvido dizer. O problema é que, se você repete uma ou duas vezes aquilo que ouviu dizer, não apenas você passa a considerá-lo seu, mas se identifica e se apega àquele fetiche verbal como se fosse um tesouro, uma tábua de salvação ou o símbolo sacrossanto de uma verdade divina.

Para piorar as coisas, as frases feitas vêm muito bem feitas, em linguagem culta e prestigiosa, ao passo que a experiência pessoal, pelas dificuldades acima apontadas, mal consegue se expressar num tatibitate grosseiro e pueril. Há nisso um motivo dos mais sérios para que as pessoas prefiram antes falar elegantemente do que ignoram do que expor-se ao vexame de dizer com palavras ingênuas aquilo que sabem. Um dos resultados dessa hipocrisia quase obrigatória é que, de tanto alimentar-se de símbolos verbais sem substância de vida, a inteligência acaba por descrer de si mesma em segredo ou mesmo por proclamar abertamente a impossibilidade de conhecer a verdade. Como essa impossibilidade, por sua vez, é também um símbolo prestigioso nos dias que correm, ela serve de último e invencível pretexto para a fuga à única atividade mental frutífera, que é a busca da verdade na experiência real.

A própria palavra “experiência” já costuma vir carregada de uma nuance enganosa, pois se refere em geral a “fatos científicos” recortados a partir de métodos convencionais, que encobrem e acabam por substituir a experiência pessoal direta. Nessas condições, a discussão pública ou privada torna-se uma troca de estereótipos nos quais, no fundo, nenhum dos participantes acredita. É esse o sentido da expressão popular “conversa fiada”: o falante compra fiado a atenção dos outros – ou a sua própria – e não paga com palavras substantivas o tempo despendido. (Sempre achei uma injustiça que as leis punissem os delitos pecuniários, mas não o roubo de tempo. O dinheiro perdido pode-se ganhar de novo – o tempo, jamais.)

De Sócrates até hoje, a filosofia desenvolveu uma infinidade de técnicas para furar o balão da conversa estereotipada e trazer os dialogantes de volta à realidade. Zu den Sachen selbst – “ir às coisas mesmas” –, a divisa do grande Edmund Husserl, permanece a mensagem mais urgente da filosofia depois de vinte e quatro séculos. Ninguém mais que o próprio Husserl esteve consciente dos obstáculos lingüísticos e psicológicos que se opunham à realização do seu apelo. Todo o vocabulário técnico da filosofia – e o de Husserl é dos mais pesados – não se destina senão a abrir um caminho de volta desde as ilusões da classe letrada até à experiência efetiva. A conquista desse vocabulário pode ser ela própria uma dificuldade temível, mas decerto não tão temível quanto os riscos de ficar discutindo palavras vazias enquanto o mundo desaba à nossa volta. Ao incorporar-se à cultura ambiente como atividade academicamente respeitável, a própria filosofia tende a perder sua força originária de atividade esclarecedora e a tornar-se mais uma pedra no muro de artificialismos que se ergue entre pensamento e realidade.

Em nossa herança lusitana, tendemos mais ainda ao exibicionismo pueril, e ao barroquismo inócuo de palavras que, pelo fato de apenas aprendermos a juntá-las, pensarmos que aprendemos a pensar.

E POR FALAR EM FLORES...





Sinto-me parte de uma tradição teológica agostiniana, que diz que Deus dá a graça que convida, impulsiona, direciona, inspira, revitaliza, mas também que confirma e garante. Há uma graça que nos faz permanecer e perseverar.

A vida cristã tem o tempero do desconhecido, mas também as garantias da Fé e a inspiração da Esperança.

Já está consumado! E somos mais que vencedores.

Mas ela é mais que um jogo que se joga apenas para cumprir tabela, como quando um time é campeão antes do fim do campeonato.

A despeito das garantias, a vida cristã não deixa de ser uma aventura.

É assim, porque desconhecemos o amanhã e sabemos muito pouco sobre o hoje. Nosso conhecimento é, em todas as dimensões, "em parte". E é assim porque, fora da Fé, tudo nos é incerto.

Além disso, não temos controle sequer sobre nosso próprio corpo, ou alma. Nós mesmos, às vezes, somos levados por forças desconhecidas.

O mundo é assim para nós: inseguro, desconhecido, incontrolável...

Isto é, ele é um perfeito cenário de uma aventura!

Além do mais, há, como em toda aventura, as intempéries, os vilões, as dificuldades...

Parece tudo muito hostil, e, como que por seleção natural, temos que lutar para sobreviver, para nos adaptar. Se não, essa maré nos arrasta e arrasa.

Permanecer é luta!

Não é a toa que a busca mais universal entre os humanos é essa: de segurança.

Vivemos sob fogo! Por isso somos todos, adultos e crianças, temerosos. Ansiamos por colo, por segurança, por proteção. Temos muito medo de não sermos aceitos, amados e queridos.

Que aventura!

E como essa aventura é "apimentada" com o tempero da fé! Às vezes a fé não acalma, mas trás suas próprias tempestades e agitações.

Ah, que mundo!
É frio lá fora!
Mas um novo caminho se abre em nós, a partir de dentro, quando andamos com Aquele que observava o cuidado do Pai nos lírios.

Com ele, passamos a atentar melhor para o mundo, discernindo-lhe as flores.

E o mundo não foi melhor para Jesus: o mundo que ele viveu, expulsou-lhe.

Só na mente de alguém como Jesus para haver essa associação de fé e flores. De flores e segurança. De flores e Paz.

Se há jardins, há também o Castelo Forte, o Esconderijo, o Escudo!

Se há jardins, há o Pai!

Se há algo como as flores, há também um Jardineiro da nossa vida.

Se há o Jardineiro, há de haver flores, espalhadas pelo caminho.

Para vê-las, não é preciso vê-las "pela fé". Não! A fé só nos faz enxergar, os lírios estão lá. Pela fé, vemos nelas, o Pai.

A alma do que crê é, pois, florida.

E a alma que foi uma vez florida é aquela que se ajunta ao Jardineiro num empreendimento de fazer com que as "rosas vençam os canhões".

"Observai os lírios; eles não fiam, nem tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles" (Lucas 12.27). 

Enxergar o Pai, nas rosas, dá um segurança que os canhões não podem dar.

Salomão, cercado de uma glória real, tinha cavalos de mais para que neles não confiassem (Salmos 20.7). Era sábio demais, para que desconfiasse de si mesmo. Por isso não podia estar entre àqueles simples e pequeninos, a quem Deus se aprouve de  Revelar-se numa rosa (Lucas  10.21).

Você tem observado as rosas do cuidado de Deus para com sua vida? Você tem observado que tais "rosas" são, na sua vida, mais bem vistas nas coisas simples e singelas - como os lírios, que nas pomposidades salomônicas?

Observai, pois, os lírios!

Eric
Itabuna-Ba
22/01/2010

Karl Rahner: uma oração



“Eu gostaria de falar-Te agora sobre minha oração, ó Senhor.
E embora tão frequentemente pareça que Tu dás pouca atenção ao que tento dizer-Te em minhas orações, por favor, escuta-me agora cuidadosamente.
Oh, Senhor Deus, não me admiro que minhas orações ficam quão aquém de Ti – pois até mesmo por muitas vezes deixo de prestar a mínima atenção ao que estou orando. Por muitas vezes, considero minha oração apenas como uma tarefa que eu tenho de fazer, um dever a ser realizado. Eu ‘saio a caminho’ e então relaxo, alegre porque aquele momento passou. Quando eu oro, estou ocupado em meu dever, ao invés de estar ocupado contigo.
Sim, essa é a minha oração. Admito-a. E, no entanto, acho difícil sentir-me triste por orar tão inadequadamente. Como pode um homem esperar falar contigo? Tu és tão distante e tão misterioso. Quando oro, é como se minhas palavras desaparecessem em algum poço profundo e escuro, de onde não soa qualquer eco que me garanta que eles atingiram o fundo do teu coração
Será a minha vida, realmente, não mais do que uma simples e breve aspiração, e todas as minhas orações apenas formulações diferentes disso, em palavras humanas? Será a eterna possessão de Tua pessoa a Tua resposta eterna a isso? O Teu silêncio, quando oro, realmente será um discurso pleno de promessas infinitas, muitíssimo mais significativas do que qualquer palavra audível que poderia falar à compreensão limitada de meu coração estreito – uma palavra que, por si mesma, tornar-se-ia tão pequena e tão pobre como eu mesmo? Suponho que assim acontece, ó Senhor... Se supusermos que minha vida é apenas uma única oração, e que minha oração é parte dessa vida, carregada até à Tua presença, então devo ter o poder de apresentar-te a minha vida, o meu próprio ‘eu’ a Ti.”

Karl Rahner

Citado por James houston

sábado, 9 de julho de 2011

A Grande Paz



Pé de Serra e a Grande Paz do Verão


Lendo e relendo Rachel de Queiroz, deparei-me com a expressão “A grande paz do verão” em uma de suas maravilhosas crônicas: Um Alpendre, uma rede, um açude e comecei a refletir sobre esse aparente paradoxo: a paz e o verão na caatinga. Ora, o verão na caatinga vem junto com a estiagem avassaladora. De súbito eu diria que a paz no sertão deveria vir com o inverno, com as chuvas e o verde das plantações e a fartura de alimento... Mas, não. A paz de fato vem juntamente com o verão, “com a perspectiva de não fazer nada o dia inteiro”, como ela mesma disse. Uma paz que é companheira das poucas expectativas. Um certo conformismo... Melhor dizendo, uma satisfação com o pouco que se tem, sem murmurações aos céus, apenas um balanço de rede, ou um servicinho aqui e acolá: uma cerca para se reparar, uma rês que se perdeu no gerais, uma ou outra coisa a se fazer, pois, diante do verão a força dos braços humanos é pouco eficaz. O que resta é esperar que o gadinho não morra e o tanque não seque. Uma calmaria, um silêncio gostoso paira sobre a caatinga durante essa época.
            No inverno é só trabalho: gado para mudar de pasto, cultivo do solo, carpir a terra plantada, colher na época certa, vender o excedente, cuidar das ninhadas de cocás e galinhas... Uma trabalheira só. Mas, mesmo quando o ano não é bom de chuva e tem como conseqüência a perda do roçado, não se houve lamentos. Meu pai sempre dizia: “É assim mesmo. Ano que vem eu planto de novo”. É impressionante! Mas, voltando ao verão, ah, o verão! Eu costumo falar com minha mãe que a seca é a época que o sertão mais me encanta. Parece-me que nesse período todas as peculiaridades da caatinga se mostram, pois durante o inverno o sertão fica verde e se parece com qualquer outro lugar do mundo. Mas, na seca o espírito do homem da roça está pacificado com Deus e com a Terra. O sertanejo sempre tem saudades quando deixa sua Terra, por maiores que sejam as privações pelas quais tenha passado, ele sempre se lembra de seu pé de serra, seu recanto onde tudo se parece com ele... A caatinga é um universo à parte. Tanto é assim que a riqueza cultura emanada dali é tão intensa que nem o próprio Câmara Cascudo deu conta de retratar todas as suas nuances.
            Da varanda dos casebres contempla-se a vastidão da caatinga. A brisa rara vem trazendo de longe os cheiros de lugares ermos; poucos peixes no tanque, cácados, carcarás, gaviões e muitos urubus... É o que se vê. O gadinho miúdo se refugia na sombra de alguma árvore e as nuvens ralas passam lentamente pelo céu azulado. Um cigarro de palha aceso após o almoço enquanto os pensamentos trôpegos vão dançando junto com a fumaça cansada. Nada de projetos, de desenhos, de orçamentos... O sertanejo faz planos materiais de acordo com os acontecimentos no mundo espiritual. A desconfiança presente cede lugar à fé quando se empreende algo. Coisas simples, singelas, mas sempre devagar, sem ousadia, sem ansiedade. Tudo acontece no tempo certo. E essa certeza conforta os corações mesmo diante da morte e das perdas financeiras.
            O balanço na rede, ou mesmo o olhar perdido, debruçado na janela da cozinha após o meio dia, sempre faz os maus presságios irem embora. Para quem tem poucas esperanças, poucas são as decepções.
Lagartixas sacodem a cabeça nas paredes de adobe e os teiús se esconde do sol abrasador. Poucos tatus, raros jacus, uma ou outra codorna, juriti e nhambu. Marrecas e frangos d’água só onde ainda restam aguadas. Qualquer coisa complementa a refeição. A farinha sempre presente à mesa. Como diz meu irmão: “Ela esfria o que está quente, engrossa o que está ralo e aumenta o que está pouco”. Nada mais propício para a mesa do caatingueiro pobre.
A indumentária a dona de casa de encarrega de coser. Nenhum luxo, apenas a simplicidade e o conforto. Bolsos fundos para não perder dinheiro, camisa com “gibeira” para os documentos e o pente pequeno, embornal bordado com ponto de cruz. Essa é a roupa de ir para a feira ou para algum casamento. No campo não precisa disso. Roupas remendadas, botinas costuradas ou sandálias gastas. Não há desperdício. Tudo é aproveitado.
À noite, a janta, geralmente as sobras do almoço. E posso afirmar com propriedade que nunca provei comida melhor que os “mexidos” que meu pai fazia lá em casa. Mistura-se tudo numa panela e por cima alguns ovos fritos com um caldo de cebola e açafrão. Tomate, pimenta e farinha. Depois um cafezinho torrado na torradeira de casa mesmo. Não pode haver melhor refeição, principalmente quando os ovos são fritos com torresmo.     
Depois, uma visita à casa de algum parente ou amigo. Um gole de cachaça e de volta para casa pensando apenas no colchão forrado de palha de bananeira... Mais nada. Um sono leve e tranqüilo. Antes do sol nascer a vida recomeça.

Um texto de meu amigo Rovilson Ribeiro
Vitória da Conquista, 07 de julho de 2001.


***
Uma interação

          Eu cresci no litoral, beirando sempre Iguaí: fonte de beber água.
No litoral, a água é sempre um pouco mais salobra do que a que desce da torneira. Água com gosto e cor. E, principalmente, água salgada.
O mar foi cenário de muitas das minhas fantasias infantis. Ainda sofro por imaginar grandes peixes me perseguindo.
Ele era misterioso, infinito, indomável. Era o todo, e eu a parte. Nunca fui navegador, mas desde que criança sempre tomava banho no mais fundo que podia. E o bom mesmo era pegar jacaré nas ondas. Eu não velejava, eu vivia na fronteira entre sua "superfície" e seu profundo: o mar era um limite, mas eu estava nele, ele aprendia a lidar com ele, eu brincava com ele, e, aos poucos, avançava, me inserindo cada vez mais. Era como se inserir no todo. Era como conhecer um pouco mais dos mistérios.
A maior parte das minhas fantasias, eu brigava com o mar, dava soco nas ondas. Mas em fim, a luta terminava com marcas de bênçãos. Eu era um Jacó naquelas águas.
Essencialmente: o mar me cansava, o mar me dava sede.
O mar é uma ironia para quem está com sede.
O litoral, fundamentalmente, me marcou com insaciedades.

          Em Iguaí, eu me saciava.
Iguaí é terra das cachoeiras, dos pequenos paraísos de água doce.
Lembro de experiências com as piabas me bicando: elas não lembravam os grandes peixes de minhas perseguições. Eu até me divertia com elas.
O rios eram tranquilos.
Gostei muito do seu texto: principalmente porque ele me deixou com sede.
A sede é, possivelmente, um fio que consegue unir sertão e mar.
Mas bom mesmo são os gostos da nossa formação. Tudo é possivelmente como o sertão se tem gosto de lar.
Um fazendeiro tem roça no sangue. A cidade seria uma morte dele. Varreria os chãos de sua casa, mas querendo mesmo capinar.
O concreto não tem o cheiro das roças. Mas para o citadino, as roças não têm o cheiro de plástico dos shoppings.
O que é crescer senão buscar em outro lugar aquilo do qual estamos nos afastando?
O pré-desenho da alma humana estabeleceu que seríamos movidos pela saudade.
E isso não é romantismo. Aliás, nada há tão anti-romântico. Porque a verdade subjacente é que o homem foi destinado a ser expulso do paraíso, a crescer.
É por isso que o Reino é das crianças, ou dos que conseguirem nascer de novo.
Eu, que busco o mar nas coisas, outra coisa não faço que buscar nascer de novo.
Forte abraço, belíssimo texto!
Seu amigo,
Eric

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SANTO AGOSTINHO




PITADAS

“Senhor, Deus da verdade, acaso, para Te agradar, basta ter conhecimento? Infeliz do homem que, tendo conhecimento de todas as coisas, Te ignora; mas feliz de quem Te conhece, mesmo que ignore todas as demais coisas. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece, não é mais feliz por causa de sua ciência, mas só é feliz por Ti, se, conhecendo-Te, Te glorificar como Deus, e Te der graças, e não se desvanecer em seus pensamentos.”


“Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, Tarde vos amei !
Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora procurando-vos !
Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes.
Estáveis comigo, e eu não estava convosco!
Retinha-me longe de Vós aquilo que não existia se não existisse em Vós.
Porém, chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilantes, e logo afugentastes a minha cegueira!
Exalastes perfume: Respirei-o suspirando por Vós.
Tocastes-me e ardi no desejo de Vossa paz!
Só na grandeza de Vossa misericórdia coloco toda a minha esperança.
Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes.”


“Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti.”


“Quem me fará descansar em ti? Quem farás que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim? Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares, e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já não fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que és tu para mim? “Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.” Dize de forma que te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os e “dize a minha à minha alma: eu sou a tua salvação.” Correrei atrás dessas palavras e o segurarei. Não escondas de mim a tua face: que eu morra para contempla-lá e para não morrer. ”


“Deus tem filhos que a igreja não conhece.”


LIVROS QUE LI

Confissões
Cidade de Deus, Vol I e II
O Livre Arbítrio
O Sermão do Senhor na Montanha