terça-feira, 27 de setembro de 2011

PITADAS DO EVANGELHO: Mas tu...






Eu estava lendo sobre uma passagem que sempre me foi cara, e a parafraseio como eu a processo no meu íntimo:


"... mas tu, suma - pra que ninguém te ache; e, escondido e só, seja você mesmo. E em secreto busque o que apenas em secreto pode ser alcançado".

Leia Mateus 6.

É dito: “... mas tu” - o que nos sugere um antecedente antitético importante para compreensão dessa idéia. 

E sobre o quê Jesus falava? Jesus falava sobre o coração hipócrita, isto é, que atua. E exemplifica isso de maneira chocante num cenário provocativo: religiosos, fazendo o “bem”, em sinagogas... Ele diz: oram às vistas para serem considerados piedosos.

Contudo, a despeito dos signos religiosos, Jesus falava sobre uma tendência humana geral. A hipocrisia é um vício social. É a tentação do público. É o poder de estar sob olhares. O homem que se sabe observado, não é mais o mesmo.

O diabo, quanto tentava Jesus, lhe disse: pule daqui de cima e deixa o espetáculo acontecer. Isto assim soava: se anuncie, se publique.

Jacques Ellul diz que a besta do Apocalipse, diante da qual todos se curvarão, é a propaganda, a mídia.

O homem é feio, o homem é fraco, o homem é vulnerável, o homem é carente, o homem é temeroso. E, por isso mesmo: o homem se esconde. O homem se falsifica. O homem atua. O homem mente.

O homem é um paradoxo: fragilidades inerentes e vontade de poder.

O produto é um ser que precisa aparentar ser melhor do que é, mais feliz do que é, mais fervoroso do que é, mais independente do que é, mais inocente do que é, mais manso do que é, mas desinteressado do que é. Mais gente boa e legal do que é.

Jesus, porém, tinha uma matemática da vida que se exprimia assim: é melhor entrar sem um olho do que se perder por inteiro. Em outras palavras, o ser é o que vale.

E todos esses “pecados contra o ser” – eram, para Jesus, os piores. Contra eles é que Ele foi mais enérgico. E eram pecados encontrados mais nas sinagogas que nos prostíbulos. Porque é nos ambientes mais moralizadores em que o ser, e os frutos do ser, são mais comportamentalizados. Ou seja: eles são o palco perfeito para um ator. E para auto enganar-se.

As prostitutas precedem a muitos no Reino, porque prostitutas não se iludem sobre quem realmente são.

Esse era o papo todo. Jesus vem falando sobre como valorizar o ser. Como fugir dessa sedução da publicidade, dessa falta de verdade para consigo mesmo, desse marketing de comportamento ou marketing de auto-imagem.

Nesse ponto é que Ele vem e aponta para essa forma de existência abscôndita. Ele diz: quando jejuar, lave o rosto. Quando der, que sua mão direita não saiba da esquerda.

E chega aonde iniciamos: chamando a pessoa inteira, a pessoal real, a pessoa como ela é, para o “quarto de porta fechada”. Assim diz:

"... mas tu, suma - pra que ninguém te ache; e, escondido e só, seja você mesmo. E em secreto busque o que apenas em secreto pode ser alcançado".

Como vimos, essa passagem não tem haver apenas com religiosos que fazem publicidade de si mesmos. Essa passagem tem haver com homens. Com todos e com qualquer um. 

Parte da igreja evangélica está a cantar a vitória do homem do pôster. Eles dizem que o que tem “sabor de mel” é “estar no palco”. E este “mel” é mais doce ainda porque quem não ajudou vai estar “no banco te olhando de baixo”.

Deus mesmo nos livre dessa existência de Palco! E de ter o Palco como um valor!

Mas Jesus, discernindo o coração humano, nos chama para estar a sós Diante do Deus que a todos sonda. Sem distrações. Sem máscara. Sem o outro: o que quer dizer também sem comparações.

Está ali, presente, no lugar das ausências, o que realmente vale: pois é em secreto que se deve buscar o que apenas em secreto pode ser alcançado.

Você está só. A porta está fechada. É você e Deus. É dEle o Reconhecimento que deves buscar. Isso é sair detrás da figueira. É estar nu – nu até para si mesmo. E é assim, afinal, que se auto-conhece. 
Se Ele te aceita, quem o reprova? Se Ele é por você, quem seria contra? Não que não venha a ser - a pergunta é: que importa se haja alguém contra?

O Pai vê em secreto: por que anunciar-se?
O Pai vê, por que esconder-se?
Ele te conhece, por que ter que vender uma imagem?
Ele te vê quando você está em secreto, por que querer ser notado?

Isso é o Evangelho como vida, como caminho humano, como proposta de vida, como um modo de ser e existir.

O “sabor de mel” desse Evangelho só o é, como àquele mel silvestre do qual se alimentava o batista – maior do nascido de mulher, que viveu sem o que todos diziam ser necessário, e com abundância do que todos achavam secundário. Perdeu a cabeça: mas ganhou o coração.

E o mesmo que disse isso, disse acerca dos seus ensinos:

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mateus 7.24)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

CIGARRAS IV



A cigarra e a formiga: por Monteiro Lobato


A FORMIGA BOA

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina* de abastecer as tulhas*.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu-tique, tique, tique.
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina*.
-Que quer?- perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
-Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
-E que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu, depois de um acesso de tosse:
-Eu cantava, bem sabe...
-Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
-Isso mesmo, era eu...
-Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: "que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora!" Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

*faina - acúmulo de serviços
*tulhas - celeiros
*paina - fibra sedosa



A FORMIGA MÁ

Já houve, entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta.
Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com seu cruel manto de gelo.
A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se nem folinha que comesse.
Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse.
Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora, vagabunda! - e fechou-lhe a porta no nariz.
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra, morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CIGARRAS III

 

 

Cigarras

Quem nunca leu a fábula da cigarra que fazia da vida uma canção sem fim, a despeito da formiga que fazia do trabalho algo maior que a vida

Veja a história AQUI.

As cigarras desde então me cativaram!

Sim, sei que o objetivo da história era dar uma lição de moral na direção inversa: honrar a formiga e corrigir a cigarra.

Sempre achei essa história muito estranha. Honrar a formiga me parecia uma apologia do empresário que deixava-se sugar pelos negócios. Afinal, para aquela formiga o que valia era o trincar da caixa registradora: mais moeda no caixa! Essa era a sua "música". A sua sobrevivência era a própria vivência.

A cigarra, para mim, é que é a esperta da história. Sem que me desse conta: era com ela que eu me identificava. 

Na cigarra havia uma certa leveza, uma descontração, uma sintonia, uma paz! Eu acrescentaria: uma paz familiar.  

A vivacidade da cigarra ecoava um louvor da criação. Um "muito obrigado" ao Criador.

Pessoas muito sérias, sisudas, se incomodavam com Jesus. Especificamente: com a alegria com que Ele celebrava a existência. Diziam caricaturadamente: "só quer saber de comer e beber...". Mas o fato é que não estavam incomodados com o suposto exagero. Se incomodavam era com a leveza dAquele que se pretendia tão íntimo de Deus. Como resposta, Jesus lhes dizia: "Não estamos sintonizados. Deve-se dançar, quando há música! E vocês não conseguem ouvir a música do Reino que agora do Céu está se fazendo ouvir" (Veja isso em Lucas 7:31...).

Há sintonias e concertos musicais permeando a existência. E, para mim, a cigarra  dessa fábula conseguiu captar isso melhor que a formiga. E não é que a formiga - em seu labor, fosse de toda reprovada.

Mas, ainda assim, as cigarras não deixam de ser muito estranhas! Interessantíssimas, mas estranhas. Mas sabe o que eu acho interessante e paradigmático nesses animais barulhentos? Elas não fazem do canto, algo mais importante do que a vida! Não morrem de tanto cantar, nem cantam para morrer. Mas apenas vêem no cantar a verdadeira vida de cigarra. Para uma cigarra,  morte é o não cantar mais.

Todos nós temos um quê de cigarra - um canto sempre nos lábios. Um ritmo interior que existe para tornar a vida mais alegre, mais divertida, mais dançante.

Realmente, existe uma cigarra em cada um de nós.

“Existe uma cigarra
Em cada um de nós
Cantando, enquanto o outro trabalha.”

Já viu como há um mundo de formigas num só formigueiro?

Já pensou se desse à louca nelas e elas resolvessem cantar?

Feliz de imaginar, quase consigo refazer o Provérbio de Salomão: "vai ter com a cigarra, ó formiga...!"

CIGARRAS II


RELEITURA da DISNEY



CIGARRAS I



A Cigarra e a Formiga

A Cigarra e a Formiga é uma das fábulas atribuídas a Esopo e recontada por Jean de La Fontaine:

    Tendo a cigarra cantado durante o verão,
    Apavorou-se com o frio da próxima estação.
    Sem mosca ou verme para se alimentar,
    Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
    pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
    Até vir uma época mais quentinha!

    - "Eu lhe pagarei", disse ela,
    - "Antes do verão, palavra de animal,
    Os juros e também o capital."

    A formiga não gosta de emprestar,
    É esse um de seus defeitos.

    "O que você fazia no calor de outrora?"
    Perguntou-lhe ela com certa esperteza.

    - "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
    Sem querer dar-lhe desgosto."

    - "Você cantava? Que beleza!
    Pois, então, dance agora!" 


Tradução de Bocage

    Tendo a cigarra em cantigas
    Passado todo o verão
    Achou-se em penúria extrema
    Na tormentosa estação.

    Não lhe restando migalha
    Que trincasse, a tagarela
    Foi valer-se da formiga,
    Que morava perto dela.

    Rogou-lhe que lhe emprestasse,
    Pois tinha riqueza e brilho,
    Algum grão com que manter-se
    Até voltar o aceso estio.

    - "Amiga", diz a cigarra,
    - "Prometo, à fé d'animal,
    Pagar-vos antes d'agosto
    Os juros e o principal."

    A formiga nunca empresta,
    Nunca dá, por isso junta.
    - "No verão em que lidavas?"
    À pedinte ela pergunta.

    Responde a outra: - "Eu cantava
    Noite e dia, a toda a hora."
    - "Oh! bravo!", torna a formiga.
    - "Cantavas? Pois dança agora!"

Fonte: Wikipédia

PITADAS DO EVANGELHO




Pitadas do Evangelho


Texto EFÉSIOS 6.15

NVI: “e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz.”

NTLH: “e calcem, como sapatos, a prontidão para anunciar a boa notícia de paz.”

King James: “calçando os vossos pés com a proteção do Evangelho da paz”


O Texto é inserido no tema Batalha Espiritual, e, aqui, Paulo descreve a Armadura de Deus. A linguagem é obviamente simbólica: armadura, espada, escudo, capacete, etc. A idéia do texto é como podemos nos fortalecer em Deus, para não cedermos ao mal. E como, na prática da vida cristã (fé, salvação, oração etc), ganhamos proteção contra os ataques do mal.

Não há imunidades, mas há meios para se resistir. Descrevendo os meios, é que, no versículo 15, lemos “e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz.” 

Vamos tentar explorar brevemente os símbolos: pés, calçados, prontidão, evangelho da paz...

O que é ter os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz? E por que pés e calçados?

Pés - não muito raramente é: caminho, caminhar e, assim, mobilidade

Abraão, como o pai da fé, é aquele que foi chamado para “deixar sua terra e ir para o lugar que Deus estaria lhe mostrando”. Assim, dele – e desse chamado, é que o povo Hebreu herdou seu modo nômade de ser. Era um povo “sem terra ou longe de sua terra”, e, por isso, sempre em mobilidade. Era o povo das Tendas: das malas prontas. 

Calçado é, certamente, o adjetivo caracterizador da palavra ‘pés’. Pés calçados são pés protegidos, ou ainda capacitados para caminhar. A King James diz: “calçando os vossos pés com a proteção do Evangelho da paz”.

Assim, pode-se concluir que o Evangelho da paz é:

      1 - Proteção para os nossos caminhos.

E aqui: calçado é uma proteção que envolve e encobre os pés: é ter nossos caminhos inseridos no Evangelho, envolvidos por ele.
  
      2 -  Aptidão para caminhar.

É ser como o Hebreu: de mala pronta. É a pré-disposição para deixar nosso lugar, para não se acomodar. É mobilidade. É prontidão. É ter pés aligeirados, apressados em levar e promover as boas notícias do Reino de Deus.

Mas também é ter em Deus a capacitação necessária para a caminhada. Aqui, o “calçado” é ter luz para o caminho escuro, é ter calor para o caminho frio, é ter provisão para o caminho árido.

Concluindo, em Efésios 6.15, o Evangelho é aquilo que encobre nossos caminhos. Nossos pés estão calçados com prontidão, mas também estão protegidos contra a aspereza do caminho. Ele protege-nos e capacita-nos.

Ademais, Aquele que não veio ser servido, mas servir - é o mesmo que nos diz: que se não tivermos os pés lavados por Ele, com Ele não podemos ter parte. O Evangelho da Paz é aquele que calça nossos pés porque é o Evangelho dAquele que tira a sujeira dos nossos caminhos.

Eric Brito

sábado, 10 de setembro de 2011

Se este não é o lugar: Kem Medema





Se este não é o lugar onde as lágrimas são entendidas
Aonde devo ir, então, para chorar?

Se este não é o lugar onde o meu espírito pode alçar vôo
Aonde devo ir,então, para voar?

Não preciso de outro lugar
Apenas para te impressionar
Dizendo-te como sou bom e virtuoso
Não, não, não.
Não preciso de outro lugar
Só para estar sempre por cima.
Todos sabem que isso é fingimento,
Só fingimento.

Não preciso de outro lugar
Só para afivelar sorrisos,
Até mesmo quando não quero sorrir.

Não preciso de outro lugar
Só para matraquear as velhas bobagens de sempre.
Todo mundo já sabe que é tudo irreal.
Portanto, se este não é um lugar onde minhas perguntas
podem ser formuladas, A quem devo então, procurar?

E se este não é o lugar onde meu coração chora
E seu lamento pode ser ouvido,
Aonde devo ir
, diga-me!? A quem devo falar?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CORAÇÃO


Por: Cláudio Manhães




"Quando se sabe
Que o que se tem não é seu
Quando se tem pra si
Que o que se sabe vem do Céu

Dispõe-se então de toda vida
Põe-se então a repartir com os seus
Brota agora o coração de Deus

Quando se entende
Que é para amar que nasceu
Quando se sente o
Quanto a dor do outro lhe doeu

Dispõe-se então de toda vida
Põe-se então a repartir com os seus
Brota agora o coração de Deus

Coração que adora ama
Coração que ama serve
Mutualidade
Reciprocidade
Diferente é o coração
A diferença é o coração."

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Trechos: Cristianismo Puro e Simples



Desde que servi na infantaria, durante a Primeira Guerra Mundial, me desagradam as pessoas que, cercadas de segurança e conforto, fazem exortações aos homens na frente de batalha. Do mesmo modo, re­luto em falar a respeito de tentações às quais não estou exposto. (...) A compulsão pelo jogo, por exemplo, foi deixada de fora da minha constituição; e, sem dúvida, o preço que pago por isso é faltar-me al­gum bom impulso do qual essa compulsão é o excesso ou a perversão. Logo, não me sinto qualificado para fa­lar sobre o permitido e o proibido nessa questão: não me atrevo nem mesmo a dizer se nela existe o permitido. (...) Não caberia a mim emitir opiniões sobre as dores, os perigos e o pre­ço daquilo de que estou protegido.
 C. S. LEWIS

Shalom: vida em abundância




Autor: René Padilla

Tradução livre [e amadora]: Eric Brito


“El ladrón no viene más que a robar, y matar y destruir; yo he venido para que tengan vida, y la tengan en abundancia” (Juan 10:10).

    A vida “em abundância” é a referência pela qual Jesus define sua missão, é a vida que, no Velho Testamento, é definida em termos de shalom, palavra hebraica cujo significado é tão rico que na antiga tradução grega do Antigo Testamento (chamada de Septuaginta ou versão dos setenta) usa-se mais de 25 palavras gregas para traduzi-lo. Shalom é prosperidade, saúde integral, bem-estar material e espiritual, harmonia com Deus, com o próximo e com a criação. Shalom é a plenitude da vida.
    Deste ponto de vista, não justifica a concepção de vida plena em termos exclusivamente espirituais. A teologia segundo a qual a vida que Cristo oferece é uma vida ultramundana, além da história, está atrelada ao pensamento grego, com sua ênfase na dicotomia entre a eternidade e o tempo, a alma e o corpo, o espiritual e o material. Isso precisa ser corrigido pela visão bíblica, para qual a esperança escatológica inclui uma nova criação - "um novo céu e nova terra" (Is 65:17) e a ressurreição do corpo.
    A vida "em abundância" ou "eterna" é a vida do Reino de Deus que foi irrompida na história na pessoa e obra de Jesus Cristo, e que culminará na segunda vinda de Cristo, a Parusia. É a vida em que, aqui e agora, todas as coisas são feitas novas pelo poder de Deus (cf. 2 Cor 5,17), é a vida que deriva sua qualidade do relacionamento com Deus e se manifesta em todas as esferas da sociedade, no trabalho, na família, e na igreja.
    Os que, em conformidade com a missão de Jesus Cristo, promovem a plenitude de vida não podem deixar de levar a sério as difíceis questões decorrentes do atual sistema econômico, um sistema que define a vida em termos do ter em vez de termos do ser. A vida "em abundância" não é a vida em que abundam os bens materiais. A vida "em abundância" é a vida em que se cumpre cabalmente o propósito para o qual Deus a criou e a sustenta; é a concretização do amor e da justiça do Reino de Deus. É fomentada à medida em que se vive de acordo com o propósito de Deus, se anuncia a mensagem da vida em Cristo, e se atua no serviço da vida em todas as suas dimensões.