domingo, 30 de outubro de 2011

DEUS ODEIA O PECADO, MAS AMA AO PECADOR




O Calvinista Solano Portela fez um texto intitulado – “Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?”[1], em que, mesmo fazendo uma ressalva – que “existe um sentido genérico do amor de Deus” às pessoas indistintamente-, defende que o pecado é inseparável do pecador e que, sim, Deus odeia/aborrece pecadores e não apenas seus pecados. Essas são as palavras com as quais ele conclui o artigo:

“Não resta dúvida, portanto, que pelo menos nessas instâncias específicas Deus odeia pecadores. Consequentemente, isso deve nos fazer cautelosos de dar uma declaração genérica e abrangente de que ele não odeia pecadores, pois esse ensinamento não pode ser atribuído, dessa maneira, à Bíblia e carece de inúmeras qualificações”.
Respondo-lhe que o texto dele é, de certa forma, inútil. É inútil à medida que a frase “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador” é usada para expressar o “sentido genérico do amor de Deus” – como ele mesmo concede. Mas defendemos que até no “sentido salvífico” Deus odeia o pecado amando o pecador: o eleito, enquanto pecador, é amado por Deus.

Se Deus não amasse pecadores, pecadores como todos são – sem exceção –, todos seriam odiados por Deus.

De início, o autor concorda que, em certo sentido, a frase está correta. Ele diz: “existe um sentido genérico do amor de Deus”. E, ao longo do texto que em “instâncias específicas” a frase estaria incorreta. A questão, portanto, é: i) como essa frase tem sido popularmente utilizada: expressando um sentido genérico do amor de Deus ou um sentido salvífico? ii) com qual dos seus sentidos o autor se incomoda? e se iii) esse incômodo é realmente justificável?

O autor, claro, expressa uma preocupação caracteristicamente calvinista: sua preocupação é que a frase ora discutida esteja sendo utilizada no sentido salvífico. A questão que resta é a iii): seria essa preocupação, à luz da nossa primeira pergunta –, uma preocupação justificável?

Concordo com ele que a frase é uma “forma simplista de expressar uma situação complexa”. Contudo, só há sentido em se preocupar com ela se a sua utilização comum se pretende no mesmo sentido que o autor discorda, isto é, o salvífico. Quando se diz popularmente que Deus ama o pecador – se diz que ama no sentido salvífico? Não parece ser assim.

O uso comum da frase “Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador” quer significar, de um lado, a rejeição de Deus pelo pecado, e, por outro, a aceitação de Deus para com as pessoas. Ela sintetiza bem uma tensão. É o que expressa e não há equívocos quanto a isso.

Embora a frase não expresse toda a doutrina cristã sobre o assunto, suponho que é de comum aceitação que não é essa a pretensão de quem usa a frase. Convenhamos: há um rigor excessivo por parte do autor. Entendida e usada corretamente a frase parece não ofender a doutrina bíblica.

Aliás, a simplificação de uma situação complexa, também é o ponto fraco do texto do autor.

Sabemos, porém, que tal abrangência, tanto quanto em relação à frase quanto em relação ao texto, seria exigir demais. Mas, entre os leitores (e o próprio autor do texto), há – como já dito – rigor demais quanto ao exigir poder de condensação doutrinária da frase, e, por outro lado, conivência demais com a frouxidão conceitual dos termos no texto.

Também é “pecado” do autor, o forçar o sentido da frase naquele sentido que ele, como calvinista, discorda.

Sobre a relação pecado/pecador, de alguma forma, concordamos, há conexões inseparáveis entre o pecador e o pecado. Mas se tal conexão for rígida demais, ou o eleito não peca mais, ou também ele é odiado (que sabemos não ser), pois peca. E aí?

No caso dos eleitos, poder-se-ia dizer, e ninguém poderia contestar: Deus os ama, e por isso não lhes imputa os seus pecados, que certamente Ele odeia, e que eles invariavelmente cometem. E dita assim, a frase “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador” estaria correta.

Quanto ao ódio de Deus ao pecado: não há discordâncias fundamentais. Contudo, a prática do pecado é um chão comum dos seres humanos. Se Deus não ama pecadores, Ele não amaria nenhum ser humano. E a conclusão que isto nos leva é: “também não resta dúvida que, pelo menos nessas instâncias específicas, Deus ama pecadores”.

Tomás de Aquino, refletindo sobre a questão SE DEUS AMA TODOS OS SERES, parece ter sido decisivo. Se Deus “aborrece a todos os que obram a iniqüidade” (Sl 5, 6), pergunta-se ele se, alguma coisa poderia “ser ao mesmo tempo odiado e amado”.  Conclui:

“Nada impede que, a uma luz, amemos, e, a outra, odiemos a uma mesma coisa. Assim, Deus ama os pecadores enquanto têm uma certa natureza; pois, como tais, existem e provêm de Deus. Mas enquanto pecadores não existem, mas, têm o ser falho; e, como isso não lhes vem de Deus, são, como tais odiados dele”. 


Aquino, ainda que nessa brevidade, sintetiza bem e expressa com mais justeza  a “situação complexa” do Amor de Deus às pessoas e, ao mesmo tempo, Sua Reprovação ao pecado.

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