segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Reviva a criança: para os que são adulto-triste-criança-quer-ser-e-não-pode


RIOZINHO

 


         Lá de longe vinha uma tripinha d’água da serra, bem devagarzinho e se sujava todo no esgoto da cidadinhavila. Ele entrava numas taboas e, quando era de tardezinha os passarinhos-de-arroz vinham bestamente cair nos alçapões que os moleques-maus armavam para pegá-los. Eu ficava muito triste quando via aquilo. Mas, Pai-Ruim também prendia os bichinhos em gaiolas para eles cantarem de tristeza. Eu pedi: “solta os bichinhos, Pai-Ruim, eles cantam p’rocê lá fora”. Pai-Ruim não soltava e ria de mim-pequeno.

         O riozinho-riacho-de-nada secou. Secou e morreu. A serra sem árvores, o céu sem chuva. As pessoas ruins mataram-no. Não tem mais passarinho-de-arroz, nem corregozinho alegre. Tem esgoto ainda. Mas ninguém se importa. Os moleques maus cresceram e hoje têm filhos. Mas os filhos não sabem o que são passarinhos-de-arroz. Não sabem o que são sabiás, coquis, bem-te-vis-de-manhã-cedo... Os filhos passam perto do esgoto e tapam o nariz de nojo. Não brincam de andar no mato, porque não tem mato mais. Nem querem fazer pipas com cola de fruta de quiabento... Uai, isso ainda é o mundo?

         Um dia avô de alguém disse que o mundo ta ruim. Mas, ele derrubou árvores e matou saruê-que-roubava-toucinho-na-despensa também. Nem tem raposa-ladrã-de-galinha-de-pintos. Nem tem onça-coitada-sussuarana-mãe-de-gatinhos-famintos. As pessoas antigas ensinaram coisas ruins às novas e o mundo ainda ta ruim. 

         Quando moleque feliz corria com cata-vento-feito-por-tio-menino pelas ruas de cidadezinhavila tudo era tão bom... Vou pedir a Tio-Criança-não-mais para fazer um milhão-muitos de cata-ventos para as pessoas ficarem felizes de novo?

         Pão-de-doce-quentinho-de-João-do-Pão era sonho bom de se sonhar à tarde-pobre-sem-dinheiro. Mas, tinha goiaba verde, tinha amêndoa-derrbada-de-pedra, que fazia esquecer vontade.
 
         Escola era ruim-má. Menino-magro-cabeção com bermuda verde remendada e botinha-furada-saindo-dedão todo mundo ria de pobreza dele. Não tinha caderno-de-arame-capa-dura, mas brincava de desenhar navio-pirata-ele-capitão e todo mundo queria entrar no navio também, porque ficava bonito quando ele contava estória na sala-de-aula quando a professora pedia. Lápis-toquinho ele escrevia estória. Os outros, lápis-grandão-novo-bonito, não sabiam brincar de inventar estórias em caderninho-pobre-dado-pela-prefeitura. Bicletinha-de-menina-reformada-para-ser-de-menino ele ganhou de Pai-Bom-Pobre. Em cima dela tudo era perto. Ele ia com irmãozinho até roça ali pertinho só para ficar feliz. Ah, uma bicletinha-de-menina-reformada-para-ser-de-menino eu queria ter agora só para ficar assim feliz também.

         Depois que as pracinhas-bonitas-de-árvores viraram praçonas-só-de-cimento e prédios-bonitos-feios nascerem em cima das casas-velhas-saudade cidadezinhavila virou cidade. E o que era Bonito ficou feio. Não tem mais menino-menino. Só tem menino-homem. Não tem menina-menina. Só tem menina-mulher. Não tem pipas-no-céu-para-fim-de-tarde-ficar-bonito, nem cata-vento-feito-por-tio-criança, nem sonho-de-menino-com-pão-de-doce-quentinho-de-João-do-Pão, nem passarinho-de-arroz, nem riozinho-riacho, nem árvores, nem alegria, nem nada. Mas, ninguém fica com saudade porque nem se lembra mais. Só o menino-cabeção que, mesmo adulto-triste-criança-quer-ser-e-não-pode, continua a escrever suas estórias cheias de saudade.

Texto de meu amigo Rovilson Ribeiro, Lençóis, 26 de setembro de 2011

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