domingo, 18 de dezembro de 2011

OLHOS DA NOITE







As histórias morreram com a cidade. Seria por conta das suas muitas luzes? Na cidade tudo está às claras, falta o assombro da noite. A luz reprime. A noite encoraja.

A cidade tem postes para o homem esquecer seus medos. Mas as histórias nascem ao redor do medo. O herói é aquele que faz o que o medo impede os demais fazerem. O herói não existiria sem o medo.

Na cidade clara, o medo não tem lugar. A luz protege: a luz é uma sentinela. A luz denuncia. A luz vê.

Sem medos, o homem da cidade é mais triste. No claro das luzes, o homem escureceu sua alma.

Na roça ainda há noites!

Noite é a palavra, é o vento, é a luz de cor, é o crepitar, são os besouros e as sombras multiformes.

Na noite há histórias para o homem espantar seus medos!

Uma boa história se conta é no escuro. Não um escuro invencível. Uma penumbra, com luz de fifó.

A pouca luz é mais mágica! Ela modela o cenário das histórias, projetando sombras quase vivas.

São quase histórias autônomas, cujos personagens são inspirados no quadro que as sombras vão pintando.

Na roça sem poste, a noite cumpre sua missão. O homem tem espanto, medo, ele não domina tudo, e desconhece muito.

Muita luz emburrica. Ver demais é uma forma de cegueira. A pouca luz é que estimula... o roceiro simplório vira poeta... usa o pouco português com a fluidez de um filho da noite.

No escuro, não se vê os olhos dos outros. Na cidade, as pessoas se vestem conforme os olhares.

O homem da cidade é virgem da noite.

A noite sendo escura, promove encontros. Traz todos ao redor da história, antes que se separem de vez em seus impartilháveis sonos.

O sono é a individualidade máxima. Pede, portanto, encontros como que despedidas.

A cidade é uma falsa luz de desencontros.

O homem da cidade é um invampiro: que foge do escuro. No escuro agente se vê mais, justamente porque o escuro lembra agente que o nosso vê é pouco. O homem não foi feito para ver demais. O homem cabe na penumbra.

Na luz o homem se esconde. Na luz o homem anda vestido. No escuro ele pode ser nu.

História de dia, não tem graça. A história acontece quando a noite penetra. Quando o escuro toma conta. Quando o que agente sabe é escondido. Quando a natureza espanta.

Quando cai a noite, a floresta que se conhece, perde a familiaridade, é coberta de magia.

A jaqueira onde de dia se pega um balanço, à noite ganha feições terríveis. A noite impõe respeito.

O homem da cidade é privado da noite. Ele dorme de luz acesa.

Por: Eric Brito Cunha
Itabuna-BA, 17 de Dezembro de 2011

Um comentário:

  1. Escrever contos é coisa difícil, complicada mermo. A gente se acha sensível por gostar de literatura, música... mas sensível mesmo é quem consegue "contar", e nisso eu sempre erro.

    "Muita luz emburrece. Ver demais é uma forma de cegueira". Aliás, Saramago sugeriu que a cegueira fosse branca, ou seja, somente luz. E sua cegueira era a antítese da lucidez, no caso.

    Gostei do texto, gostei do invampiro!

    O medo do escuro, inclusive é muito saudável. É inspiração pra um milhão de contos...

    Abraço.

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