quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Herói




O Millôr Fernandes disse uma coisa instigante: "São admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem".
De pronto, me diverti fazendo na mente como que "anagramas interpretativos" com o sentido da frase:

            Só as admiramos porque não as conhecemos.
            Só admiramos o que não conhecemos.
            Quando conhecemos, já não mais admiramos.
            Admiração existe num lugar entre a ignorância e a ilusão.
Mas entre isso que eu chamei de "anagrama de significados", um parece ter captado melhor o sentido completo da frase: de perto, as pessoas são decepcionáveis. 
Pois...

... de perto, ninguém é tão bonito assim, tão corajoso assim, tão seguro assim, tão destro assim, tão interessante assim...
... de perto, os "ídolos" são normais... têm defeitos e fraquezas. Têm medos e caprichos.

... de perto, não há heróis!
... de perto, ninguém deixa de ser humano!

Nesse ponto, relembrei um senso presente nos super-heróis dos quadrinhos: não há herói sem fantasia. Você lembra-se de algum?
Diz-se: para que não revelem sua verdadeira identidade. Mas note: a identidade (se é que aqui se pode falar de identidade) de herói não é a verdadeira - o herói é uma face casual, não são quem são de verdade. A identidade, isto é, aquilo que os define, é a pessoa por trás do personagem. Embora alguns enredos apontem para o contrário - o herói é uma máscara. 
Não é de todo sem sentido que o herói cuja marca essencial seja uma máscara (e a leva no nome para não deixar dúvidas - O Máscara) tenha o poder de se transformar em qualquer herói. 
É possível que o motivo subjacente ao ocultamento da verdadeira identidade do herói não é o de preservá-lo em sua vida normal - com certa paz e sem assédio, mas o contrário - de preservá-lo como herói.
Afinal, que herói continuaria herói se ele é também o Peter Parker?
Não, não é o herói que finge ser normal. É um normal que fantasia ser herói. 
Pois na normalidade, que encanto há?
Parafraseando o Millôr - "São heróis as pessoas que não conhecemos muito bem".
Mas onde quero chegar com todo esse papo? Para falar sobre algo que eu vou chamar de síndrome do super-herói.
Ela existe em dois níveis: de quem olha através da "máscara"*, e dos que olham para a máscara. Isto é, o lado de cá - do que atua como herói - e do lado de lá, da platéia.
*Espero que até aqui, tenha se entendido que a "máscara" é uma obra social.
Mas como é essa síndrome?
Ser exposto é, para qualquer de nós, perder o heroísmo, derrubar um ídolo, quebrar uma imagem.
É por isso que somos tão bons quanto conseguimos nos esconder. 
Nosso melhor é o que preparamos para apresentar, é uma versão roteiro de nós mesmos. É quando estamos debaixo de uma máscara. É quando encarnamos uma persona - que é herói, mas não é quem somos de verdade.
Como vemos, o herói da nossa síndrome é muito próximo do ator contra quem Jesus proferia palavra duras (o significado do termo grego para hipócrita - era ator, que usa máscara e encarna um personagem). 
Como se disse, essa síndrome tem dois lados, um da pessoa para pessoa, mas também da pessoa para os demais (e vice-versa) - o outro lado da platéia - o herói-convergências-de-projeções-coletivas
No processo dessa síndrome, a própria pessoa, quem nós somos – o, digamos -Stanley Ipkiss, passa a servir à imagem. A máscara ganha auto-nomia - poder de se auto reger, e exerce domínio sobre a pessoa. A esse sintoma, chamarei de O máscara. É quando nosso herói é nossa realização, é uma fantasia do super-ego. É quem gostaríamos de ser. Por isso que O Máscara é todos os heróis, e é nenhum.
A pessoa sob este julgo, para preservar a sua versão herói, tem que se esconder. E se esconder cada vez mais. De modo que quem somos de verdade se antagonize cada vez mais ao herói. A ponto de que quem somos de verdade se torne uma ameaça ao personagem. Esse é o ponto de tensão - do herói ter que, à todo custo, esconder sua verdadeira identidade: ele quer que sua verdadeira identidade seja a de herói, a da fantasia.
Essa imagem, esse personagem - Herói - é o que nós não somos. O Herói é o não-eu. Não somos o que nos tornamos quando entramos numa cabine*, somos como somos antes de entrar lá.
* Lugar onde o Clark Quente se transformava em Superman
O herói existe enquanto ele não é exposto. Revelar-se é a morte do herói. O herói é, pois, uma fachada.
Em contraposição, nas Escrituras Sagradas você encontra o tipo do anti-herói. O Messias é o anti-messias. O Todo-Poderoso esvazia-se de Si mesmo. Deus não usurpa ser como Deus. O varão perfeito em fé sofre em temor.
O louvor do Novo Testamento, como bem captou Nietzsche, é em direção ao fraco, desarmado, impotente e nu.
O louvor segue a direção do manso - do que não reage, do contrito - que se assume e se expõe, e do "pobre de espírito".
Nas Escrituras, você encontra uma riqueza de expressão em palavras como "nudez" e "vestir-se". Nelas, há um olhar positivo para a "criptonita" de todo herói - o dar-se a conhecer, o despir-se, o desnudar-se, o revelar-se.
Na linguagem bíblica, a nudez é exposição máxima, e é algo sempre associado à vergonha e a desonra. 
Veja a conotação, por exemplo, nessas passagens:
"Passa, ó moradora de Safir, em vergonhosa nudez... (Miq 1:11)"
"Portanto, aconselho que comprem de mim ouro puro para que sejam, de fato, ricos. E comprem roupas brancas para se vestir e cobrir a sua nudez vergonhosa".  (Ap 3.18 - Nova Tradução na Linguagem de Hoje) 
Imagem é, na Bíblia, algo radicalmente combatido. Também a imagem como construção social: aquilo que não é verdadeiro, que se esconde, que dissimula, que escurece (ver as conotações da palavra trevas).
Deus é Luz!
Aos olhos de Deus, diz-se, tudo está nu e patente. E, ainda assim, o conselho geral é para despir-nos a nós mesmos. Despir-se para Quem tudo está nu, é ganhar uma autoconsciência. É ver-se como Deus o vê. 
Estar nu e exposto na transparência total e absoluta... (que é na Luz que Deus é), é ser quem realmente somos.
Nudez é, pois, isso - ser quem se é.
Desnudar-se é ser-sem-medo diante Do que habita o nosso profundo, e que pode nos mudar.
Ou seja, o temor do herói é, na Bíblia, a receita do homem de Deus. 
O anti-herói da Bíblia sabe que é conhecido, e que esse seu eu verdadeiro foi aceito e amado. Liberta-se, pois, do medo mais essencial do ser humano: que é de não ser aceito.
O homem de Deus sabe: foi amado sendo ainda pecador...
Ou seja, isso abre o único caminho possível para que se ande em sinceridade (sem cera), com integridade (inteireza) e sem camuflações.
Em paralelo a ordem de despir-se, há a de vestir-se de Cristo, isto é, vestir-se de tudo o que ele - Cristo - significa de acolhimento.
Sim, pois que o amor encobre multidões de pecados.
Vestir-se de Cristo é vestir-se do amor que encobre multidões de pecados – é ter nossa vergonha coberta.
A ordem completa é que, nus, nos cubramos de Cristo. Isto é, na nossa vergonha, nos cubramos com a fé em Cristo, nos cubramos do amor e da aceitação da parte de Deus pelos méritos dEle.
Vestir-se de Cristo é não ficar na vergonha da nudez, mas tê-la coberta.
Assim, a fé em Cristo é associada ao vergonhoso em nós. Como que sendo algo que encobre o vergonhoso.
Paulo repete isso:
Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos revestimos de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso. Contudo, Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha...
Dessa forma, por um lado, o remédio bíblico cura o herói de si mesmo, de seu próprio heroísmo. Mas há ainda o outro lado da síndrome. Há o muitas vezes ignorado - lado de lá – o da platéia - que é quem "recompensa" e vicia o ator.
O meio religioso é, sem sombra de dúvidas, o principal palco dos messias. Mas os "messias" como estamos entendendo, é também um produto social, criado pela coletividade.
É no ambiente religioso mais do que qualquer outro que existe o que vou chamar de "Existência vicária".
É quando a comunidade "diz" a alguém: seja por mim.
Por exemplo: é quando uma comunidade evangélica "diz" aos seus pastores:
Leia a Bíblia por mim.
Entenda a Bíblia por mim.
Pense por mim.
Discirna por mim.
Resolva para mim.
Seja de Deus por mim.

Nesse ambiente, não sem razão, é que se emergem os messias - alguém que capitalize os anseios da coletividade.
Quando eu disse que Jesus é o Messias anti-messias, é que o Messias, isto é, o Herói e o Salvador de Deus se apresenta como o anti-herói das expectativas coletivas.
Leia, por exemplo, o formato do herói bíblico em Hebreus 11. E tente ler a vida nos nomes que ali são listados. Em geral, homens ambíguos, cheios de paixões, vacilos e atrapalhadas. Homens normais. Homens-homens, homens humanos. Ao mesmo tempo, homens que, conforme a descrição, o mundo não era digno.
Há uma antropologia bíblica, isto é, uma visão bíblica do homem. Que foi muito bem entendida pelos reformadores. Aliás, por isso, o herói reformado é um vaso. O é em sua instrumentalidade. Em si mesmos, não são heróis. 
Um reformado diria: não desconfie que o homem é corruptível - não desconfie do que a Bíblia assegura.
Em palavras mais diretas: a antropologia bíblica é o fim do palco para os heróis-messias!
Os pastores não precisam ser os melhores entre nós, os mais santos entre nós, os mais inteligentes entre nós, em fim. Na carta a Timóteo, o que Paulo diz é que têm que ser moderados, conhecedores da Palavra, que saiba lidar  com gente (e goste de gente – seja hospitaleiro), etc. Ou seja, não é um caminho de supremacia, de heroísmo ou de vicariato...
Sobre isso, diz o Robinson Cavalcanti:
 Os heróis da fé do protestantismo brasileiro não são constituídos a partir de uma perspectiva bíblica ou reformada — vasos de barro disponíveis nas mãos do Senhor —, mas de uma perspectiva católica romana da nossa cultura popular, de “santos”, perfeitos, supercristãos, em estado de graça. Projeta-se e espera-se perfeição. A qualquer comportamento aquém da pretendida perfeição destrói-se impiedosamente o ídolo, em um processo que já foi denominado por uma de suas vítimas de “inquisição sem fogueiras”.
Minha oração, para você que leu esses meus rabiscos, são três. 
Primeiro, para que desfrute da Paz proposta, da pacificação do seu ser, e da reconciliação com Deus. Deus o amou quando você era ainda pecador. Não há risco de deixar de ser amado por Ele. Você não precisa ser escravo de performances. Você pode saber que o você que Deus ama é esse mesmo do espelho.
Segundo, que você ganhe o amor que encobre multidão de pecados - e que se manifesta na capacidade de perdoar, de investir no outro. Não seja um inseticida moral na vida dos outros. Mas que, como diz Paulo, cubra as suas fragilidades. Cubra o que é vergonhoso nele.
Terceiro, admire pessoas reais. Ame pessoas reais. Ganhe os critérios de admiração da Bíblia. O amor não é cego, antes, o amor é o que nos faz ver. Só se ama o que se conhece.

Em Cristo,
Eric Brito Cunha
Itabuna-Ba, 13 de maio de 2011

5 comentários:

  1. Vale MUITO a pena ler esse texto de Erik Cunha. Será libertador pra quem ainda acredita que é super-herói e para quem acredita em super-crentes!

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  2. Olá amigo, pesquisei sobre "O máscara" no google e vim parar aqui, seu texto é excelente e me espantou quando começou a falar da bíblia, não esperava que fizesse uma abordagem cristão do tema, sou cristão e da Bahia tbm, de salvador, fica na paz.

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  3. Vinícius, muito obrigado. Seja bem vindo. Abs, Paz.

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  4. Sou católico! Muito massa seu texto!!
    Porém, a vida dos santos que a igreja católica apresenta é fora de qualquer heroísmo pelos próprios santos.
    Não luto e guerrio a favor ou contra opnião de alguem. A proósito, venho parabenizá-lo pelo lindo olhar peculiar que vc nos trouxe através das máscaras.

    Os santos são apenas seres que seguiram o caminho de de Jesus: o calvário, a cruz a favor do evangelho.
    Convido estudar um pouco as igrejas, suas extensões e expansões por todos os séculos, por meio de dados históricos documentados em universidades, e verás que a vida dos santos é nada mais e nada menos que uma renúncia de si mesmo para a busca do amor de Deus.

    Obrigado mais uma vez pelo lado peculiar das máscaras, intra e extra individual.

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