sábado, 28 de julho de 2012

Tanta graça! e ainda assim há desgraça!






"Afirmamos haver-se fundado em sua graciosa misericórdia, sem qualquer consideração da dignidade humana" (Calvino, sobre o Amor Eletivo de Deus)


Quando vai falar dos "não-escolhidos", Calvino os considera como não objeto DESSA misericórdia, antes, diz que suas "dignidades" foram levadas em conta.

O viés parece ser esse: quando Deus leva em conta o homem, Deus não o ama [eletivamente].

Minha primeira observação é sobre um ponto óbvio e consensual: Calvino quer dizer uma coisa certa. Isto é, quer, a todo custo e ao custo de tudo, dar a glória a Deus, em sua Graça. E essa é uma doutrina consolidada da tradição protestante. 

Contudo, a meu ver, Calvino o faz linearmente, com todas as implicações de se deixar de fora volumosas e importantes variáveis outras. Ao dizer uma verdade, ele, em sua omissão, diz - se assim posso dizer, algumas mentiras. 

Essa é minha segunda observação: a MISERICÓRDIA, ou AMOR, não é, absolutamente, UNILATERAL. E dizer: DEUS É AMOR é dizer justamente que DEUS AMA alguma coisa ou alguém "FORA" DELE MESMO. É mais bem dito: QUE NÃO SEJA ELE MESMO.

Se Deus me ama "SEM ME CONSIDERAR", sem me levar em conta - em todas minhas contradições - então, afinal, o que Deus ama?

E é justamente PORQUE Ele me ama que Ele "me considera", e eu existo.

Certo: Calvino QUIS dizer apenas que não somos dignos do amor de Deus, e de sua salvação. Que Deus quando salva, o faz porque é Bom, e não porque merecemos. E é isso que eu entendi.

O problema é que dizendo isso, ele diz mais coisas: ao deixar de dizer muitas outras. Seu ponto: não é a complexidade da RELAÇÃO de Deus com o homem, antes, ele parte de sua absoluta perspectiva moral do homem.

A questão é que, se houve um antes, onde só havia Deus, e hoje, há tudo o que há, é porque Deus criou o que há. Logo: Deus só ama, quem Ele já amou. Tudo o que foi criado, criado foi sob o selo do amor de Deus. 

Há complexidades no drama: rebelião, queda, etc. Mas, a grosso modo: Deus criou e conservou dignidades. 

Como estou do lado de cá do drama, prefiro ter um olhar menos moral, e mais ainda: menos preso as enganosas bifurcações: certo OU errado, salvo OU condenado. Antes, como Chesterton, prefiro ver tudo como a aventura que é. Em outras palavras: há BÚSSOLAS, não há MAPAS.

A RELAÇÃO que Deus tem com cada uma de Suas obras de Amor e Propósito - tudo isso, em muitos aspectos, é insondável. 

Então, antes de dizer: "Afirmamos haver-se [Deus] fundado em sua graciosa misericórdia, para alguns", ou "Afirmamos haver-se [Deus] fundado em sua ira e justiça, para outros", é mais bem dito: "Deus, o Mistério, em tudo o que Ele É, ama misteriosamente, e misteriosamente ‘não ama’". Ou como disse C. S. Lewis: "Tanta graça! E ainda assim: nem todos são salvos."

O problema é que a mente e linguagem humana é normalmente linear. Ele enxerga em duas dimensões, em fotografias. E para falar de um objeto poligonal - um pouco mais complexo, de três dimensões, o faz analogicamente: o que já é uma redução.

Falar de Deus (Revelado - e não tanto) em Sua relação (Revelado - e não tanto) com a Sua criação, através de conceitos incompletos e insuficientes, e num esquema de lógica bifurcal, é, "considerar-se digno demais" - o pecado que Calvino mais fugia.

Calvino foi linear, eu também sou. 

Assim, apenas fazendo essa ressalva, faço também a concessão a Calvino: de acertar errando. E errar acertando. E concedo a mim mesmo, dizer:

"Afirmamos haver-se [Deus] em sua graciosa misericórdia, considerando O QUE ELE CRIOU" (Eu, parafraseando Calvino, sobre o Amor Eletivo de Deus)

Assim, penso eu, Deus é glorificado em tudo: mas não a custo de tudo. E principalmente, não a custo da desgraça humana.

sábado, 14 de julho de 2012

A tirania do Dinheiro e o caminho do que ama a Deus






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Deixo essas pinceladas do que apreendi de uma porção dos evangelhos, sobre um tema relevante para o discípulo: o coração do que ama a Deus. E este sob a perspectiva da relação desse coração com o dinheiro.
As palavras de Jesus nos põe nessa condicional: se você ama a Deus, deve pensar sua relação com o dinheiro. 
Conforme eu entendo, na Bíblia, o dinheiro não é um problema apenas de ricos. Antes, é um problema para o coração humano. 

***

É estranho: mas amar a Deus é aborrecer o dinheiro. O que ama a Deus, inequivocamente, aborrece ao dinheiro. Ou, de outra forma  - e mais exatamente: a consequência de se amar a Deus é odiar o dinheiro, e a consequência de se amar ao dinheiro é odiar a Deus. Numa aplicação mais próxima: a dedicação ao dinheiro é o desprezo por Deus - e vice-versa.

"Ninguém pode servir a dois senhores [dois donos]; porque ou há de aborrecer-se [odiar; rejeitar] de um e amar ao outro, ou se devotará [dedicará - será leal] a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas [Mamon, Dinheiro]". MATEUS 6.24

Mas o que é o dinheiro? O dinheiro, como o entendemos hoje, é uma abstração comercial - e isso nos diz muito pouco.

Dinheiro/Riqueza/Mamon é a personificação de uma força: que exerce poder sobre os homens. Exerce domínio. Domínio tal que Jesus sugere uma disputa: uma relação excludente entre se dedicar a Deus e se dedicar ao dinheiro.

Entenda: a Bíblia nada sugere de dualismo - de uma força igual e oposta a Deus. Deus é o absoluto, soberano. O diabo, dizia Lutero, é o diabo de Deus. Contudo, o coração humano insere o palco de uma disputa. E o extraordinário é que do lado de lá da disputa, Jesus coloca o dinheiro e não o diabo. Sim, é uma força personificada por Jesus: Mamon. O diabo, portanto? Eu diria: também. Algo como um "dinheiro endiabrado". Mas quando Jesus se referia ao diabo-diabo, o fazia sem essa ambiguidade - e isto me sugere o seguinte: Jesus tomava uma qualificação própria de um diabo e aplicava ao dinheiro. De fato, a relação diabo/dinheiro é estreitada por Jesus, misturando-as - sem, contudo, igualá-las. O dinheiro, eu diria, é a nova maçã da antiga serpente do Éden...

Dinheiro/Riqueza/Mamon - como víamos, é a força que exerce domínio sobre os corações dos homens. Domínio tal que o amor ao dinheiro, diz, é a raiz de todos os males. Por tais palavras, poderíamos também propor: o desprezo a Deus é a raiz de todos os males. Sim, porque amar o dinheiro é desprezar a Deus.

Mas o que seria, em termos práticos e cotidianos, uma dedicação ao dinheiro?
Ou o que seria esse desprezo/ódio ao dinheiro? Como é a vida do que se dedica ao dinheiro? 

O Piper formula:

Com se serve ao dinheiro? Não se ajuda o dinheiro. Não se enriquece o dinheiro. Não se faz o bem ao dinheiro. Então, como se serve ao dinheiro?
Continuando, responde ele:

O dinheiro exerce certo controle sobre nós porque parece trazer tantas promessas de felicidade. Ele sussurra com muita convicção: "Pense e aja para estar em condições de receber meus benefícios". Isso pode incluir roubar, emprestar ou trabalhar. O dinheiro promete felicidade, e nós o servimos crendo na promessa e andando por essa fé. Assim, não servimos o dinheiro colocando nosso poder à sua disposição para o seu bem; nós o servimos fazendo o que é necessário para que o poder do dinheiro esteja à nossa disposição para o nosso bem.

Folheando o capítulo 6 de Mateus, tive alguns insights próprios.

Para entender melhor as palavras de Jesus “servir ao dinheiro”, prestemos um pouco mais de atenção no seu contexto imediato no capítulo. Após falar sobre abscondicidade da piedade cristã (jejum), Jesus inicia, no vs 19, a fala sobre tesouros que são ajuntados. Não há uma mudança de assunto, porque quando falava de jejum - e também antes sobre a oração, ele falou em recompensas para elas, provindas do Pai. Agora ele fala em ajuntar tesouros e termina com o vs 21: Onde estiver o teu coração, aí estará o teu tesouro. Ora, nos dois versículos antecedentes ele falara sobre as duas possibilidades de investimentoO saldo, diz, dirá a direção em que esteve o seu coração. Em quê a vida fora empreendida? “Onde está meu tesouro, ali está a minha confiança, minha segurança, meu consolo, meu deus (BONHOEFFER)”. Não nos esqueçamos disso: ele vem falando sobre onde pode está o coração humano o tempo todo.

Nos versículos 22 e 23 aparenta haver uma quebra no raciocínio, um desvio do assunto, e, no vs 24, uma retomada. Contudo, sugiro que ainda esses versículos 22 e 23 é parte do mesmo raciocínio. Stott sugere o seguinte:

Com bastante freqüência, o "olho" nas Escrituras é equiva­lente ao "coração". Isto é, "colocar o coração" e "fixar os olhos" em alguma coisa são sinônimos.

Logo,

A argumentação parece ser esta: exatamente como nossos olhos afetam todo o nosso corpo, a nossa ambição (onde fixamos nossos olhos e nosso coração) afeta toda a nossa vida.

O Bonhoeffer diz: “A luz do corpo são os olhos, a luz do seguidor é o coração”. “Para onde está orientado o coração do discípulo?”

Imediatamente após o versículo em questão - o 24, Jesus parece responder uma de minhas perguntas: como é a vida do que se dedica ao dinheiro?
Isso é sugerido pelo "portanto" com que inicia o versículo 25. E o que ele passa a falar? De uma ansiedade existencial, pecaminosa, incrédula. De fato: sintomas de um ser em desconfiança

Parece-me que essa conexão tem sido negligenciada: mas a vida dedicada ao dinheiro não é apenas a vida avarenta, egoísta. Mas também a vida ansiosa, desconfiada, e, para usar o termo de Agostinho, desordenamente preocupada com a sobrevivência. E, pelo menos nessa sequência, me parece que Jesus dedica mais palavras a este modo de servir ao dinheiro. 

Aqui, quase que se pode ouvi-Lo: o que ama a Deus não pode viver demasiadamente preocupado com sua sobrevivência. Tal preocupação presta um serviço ao dinheiro. Mostra que nossa segurança está nele – e isso é contra o amar a Deus. O convite para o que ama a Deus é o da entrega total, o andar por fé, por confiança. O justo – na sugestão de tradução do Barth, vive da fidelidade de Deus.
  
Como dissemos o dinheiro não é só um problema para os que o tem, para os ricos. Ele exerce influência mesmo à distância, mesmo em sua falta. Seduz o coração de longe. Muito frequentemente vejo pessoas pobres economicamente que tem o seu coração voltado para suas faltas: para o dinheiro. 

O serviço ao dinheiro tem muitas faces...

E Jesus, no seu sermão mais conhecido - o sermão do monte, dedica um espaço enorme para falar de algumas outras faces do serviço ao dinheiro.

Feito essa importante observação, fazemos coro: servir ao dinheiro também é conforme a conotação mais convencional: é o capital do pecado estrutural, sistêmico.

Os evangelhos, em seu quadro geral, lhe dão maior importância. Em Lucas, por exemplo, João Batista detalha – o que nenhum outro evangelho fez - em termos práticos o que significa “produzir frutos digno de arrependimento” (Lucas 3.8) e o faz em termos de relações econômicas (Lucas 3.10-14).

Também em Lucas, em 16.20s na história do mendigo Lázaro, o dinheiro havia cegado aquele homem para o outro em suas necessidades - que poderia facilmente suprir. A insensibilidade e indiferença era tal que Lázaro se tornara invisível para o rico. Quem ignora esse efeito cegador da religião sobre seus fiéis? Sim, a cegueira se esconde – e é muito bem justificada - debaixo de uma fachada religiosa, de uma áurea “piedosa”. Jesus provoca quando faz do levita e do sacerdote, na parábola do Bom Samaritano, os indiferentes por “priorizar” o serviço a Deus. Em Marcos 7.11, é dito:

Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor,

Ora, os efeitos da cláusula Corbã é explicada no restante dos versículos: era usada como justificativa religiosa para não se fazer o bem devido.

Muitas outras são as imagens. Todas elas com retratos bem nítidos do que serve ao dinheiro e, por isso, não ama a Deus verdadeiramente.

Há em Lucas uma proposta alternativa para os riscos: de reconciliação com a mensagem de Jesus e o seu modo de vida. E Zaqueu parece ser o paradigma de tal proposta. Todos devem cantar conforme uma canção popular: “[quero ser] como Zaqueu, quero subir...”. Mas a música parece não fazer justiça ao testemunho de Zaqueu: parece omitir dele o que há de mais concreto de sua transformação e valoriza o que é pra nós sintomas de uma espiritualidade contemplativa-apaixonada, deficiente - sem a verdade do amor verdadeiro. Oxalá quiséssemos mesmo ser como Zaqueu!
  
Continuarei acrescentando à meditação, mas por hora é isso.

Pense! Medite! Ore!

Recomendo a leitura do Livro de Tiago, o texto de Isaías 58.6, as passagens do livro de Lucas pertinentes ao dinheiro e um texto de Calvino intitulado: COMO SE DEVE FAZER USO DA PRESENTE VIDA E DE SEUS RECURSOS.


Eric Brito Cunha

sábado, 7 de julho de 2012

UBUNTU

A TRIBO UBUNTU 



A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz de 2006, em Florianópolis, nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava-lhe muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo em um cesto bem bonito, com laço de fita e colocou debaixo de uma árvore. Chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha de partida que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam:

    “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”

Ubuntu significa: Sou quem sou, por quem somos todos nós.

FONTE: Internet


UBUNTU: sobre a palavra

Ubuntu é uma filosofia africana. A palavra é comum em vários países africanos, possui um significado amplo e é difícil de ser traduzida para outras línguas. É geralmente traduzida com insuficiência como humanidade, significando "humanidade para com os outros", ou a ideologia "sou o que sou pelo que nós somos". 

O prêmio Nobel da Paz, o bispo sul-africano Desmond Tutu, em seu livro “No Future Without Forgiveness”, explicou: “ubuntu é a essência do ser humano. Você não pode viver isoladamente, você não pode ser humano se é só”. E: “Ubuntu é uma palavra muito difícil de se traduzir em uma língua ocidental... É o mesmo que dizer: Minha humanidade está presa, está inextricavelmente ligada, ao que a sua é.”

Disse ainda: “Uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível a outras, afirmando outras, não se sente ameaçada pelo fato de outras serem capazes e boas, pois ele ou ela tem uma auto-confiança apropriada que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a uma plenitude maior e é diminuída quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando outros são torturados ou oprimidos.” 

Louw (1998) sugere que o conceito do Ubuntu define um indivíduo em termos de seus relacionamentos com os outros, e enfatiza a importância assentando na máxima Zulu umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas). No contexto africano, isso sugere que o indivíduo se caracteriza pela humanidade com seus semelhantes. 

FONTE: G1 e Wikipedia