sábado, 24 de novembro de 2012

PEREGRINAÇÃO CRISTÃ









Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra.
Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria.
E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar.
Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade.

HEBREUS 11.13, 16  

  
I

Há quem diga que a obra de John Bunyan, O Peregrino, é a maior obra de ficção na história do cristianismo. É uma narrativa da viagem do Cristão, um peregrino que viaja rumo à Cidade Celestial. A viagem é, toda ela, uma alegoria da vida cristã. A meu ver, dificilmente haveria uma imagem mais apropriada que a de uma viagem, pois o cristão é mesmo um peregrino. Ele está de passagem.  

Contudo, há um elemento de cautela a ser acrescentado. Uma consonante das palavras do Autor: “não era assim no Princípio”.  

A história da igreja, não muito raro, é a história da deserção. Do ascetismo moral. E aqui não posso deixar de concordar com Nietzsche: tal moral produz seres desinteressados da vida, alheios à existência e o que acontece nela. E até contrários à ela – verdadeiros obstáculos! – quem nega?

Quando platônicos de mais, dualizamos a vida como a conhecemos, nos tornamos negligentes com o corpo, quando não negativos. 

Se já não bastasse, algumas posições escatológicas nos tornam irremediavelmente pessimistas: essa Terra é o barco que só afundará, por que, então nos importarmos? Esperemos Aquele que há de nos livrar deste lugar. 

A salvação é fuga: da vida no corpo, da vida no mundo, etc.

O brado ômega da criação é o de um Criador vencido. O pecado superabundou sob Graça. A criação de Deus foi estragada. Ele foi surpreendido e terá de desfazê-la. O Deus que cria do nada é Aquele que se desfaz e o que deixa estragar. Para essa concepção, a queda introduz o “isso já não mais é bom” (contrário ao suspiro divino de aprovação no Gênese). E mais: “isso está irremediavelmente perdido”.  

A teologia evangélica é essencialmente redentiva. E isso soou inapropriadamente como um NÃO para a criação, quando era justamente o seu SIM. Temos uma teologia da criação precária. Não pesamos com justiça a continuidade da obra criativa de Deus. E mais: a continuidade sugerida para o ‘além mundo’ através dos termos “novos céus e nova terra”. Aliás, no texto do Apocalipse, esse “além” é algo que se estabelece aqui. A nova Jerusalém desce. E o que ali é descrito é mesmo uma expressão maximizada de cultura humana redimida. 

A verdadeira mensagem da Esperança cristã engaja - não acomoda. Integra - não divide. Afirma - não nega. Aprova, melhora e eleva. Lewis escreve:

 A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pen­sa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coi­sas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a con­versão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que abo­liram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixa­ram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ga­nhará a Terra "de lambuja"; se aspirar à Terra, perderá ambos.

Que tipo de peregrino é o cristão? Ou até onde o cristão é um peregrino? 

Em vertentes da teologia cristã evangélica, o amar peregrino é o amar como se não houvesse amanhã, e que, por isso, desqualifica o amor. Por isso, se entendi bem, a questão escatológica posta é: o cristão apático e desinteressado na vida, negligente, indiferente e descuidado com a Terra é o que não ama porque aqui, não há o amanhã. E, se direciono bem: é porque haverá o amanhã que se deve amar. Assim: é preciso amar o que haverá amanhã? Ou é o contrário: ama melhor o que sabe que vai perder? É preciso amar como se não houvesse amanhã?  

É preciso amar como se não houvesse amanhã? Sim e não.

É preciso amar como se não houvesse amanhã? Sim, porque não se diz: é preciso amar porque não haverá amanhã. Antes, “como se não houvesse amanhã”, é um faz de contas. É como dizer que o amor não é patrocinado por recompensas futuras, não é subornado. Só há o hoje, e, por isso, não há falsas motivações. O amor é porque é.  

É preciso amar como se não houvesse amanhã? Não, porque o amor é que patrocina o tempo. O amor fica (I co 13). Só o que provém do amor, fica. Por isso, é preciso amar para que haja o amanhã. 

Essa é a qualidade da peregrinação cristã. Ele, o cristão, não é o que foge, é o que se engaja. Não é o que descarta, é o que cuida.  

O coração do estrangeiro não é, necessariamente, um coração desapegado pra tudo mais que não a pátria. Antes, um que se apega ordenadamente. O cristão, por amar a Pátria, não precisa negligenciar o lugar de sua estada. Aliás, o amor pela Pátria é mesmo a razão da dilatação de seu coração, de seus amores. Não amo a Terra, a despeito de ser cristão. Amo a Terra porque sou cristão. 

O cristão – esse estrangeiro é o amante da vida. É o participante das dores da criação e de sua esperança de redenção. É o militante do Reino, de sua justiça, paz e alegria – que é o motim da verdadeira Vida. É o despenseiro da Reconciliação.  

Esse peregrino – o mundo cujo príncipe é o diabo não é digno dele. Mas ele é digno do Deus do mundo e do mundo de Deus. 


Eric Brito Cunha
Itabuna-Ba, 22/09/2011

domingo, 4 de novembro de 2012

A menina e o pássaro encantado



 A menina e o pássaro encantado

Rubem Alves

 


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… 

As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. É preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

sábado, 3 de novembro de 2012

Flores: e o olhar do Reino






“Quanto à igreja ... lamento os restauracionistas que inventam uma igreja ideal para reinstituí-las” (Folheto da IBE)


O passado tem o poder de encantar. “Ao vivo” nada parece tão bom. Por exemplo: a infância nos parece melhor depois que a vivemos, na recordação. Mas a verdade é outra: nosso olhar está destreinado para desfrutar o encanto presente.

Uma leitura comum da igreja primitiva lhe dá um tom róseo. E não é para menos: a comunidade nascente estava efervescente no poder das forças primeiras do Dynamus. E muitos são os elementos surpreendentes: sinais e maravilhas, conversões em massa e inesperadas. De fato, era um Novo Tempo na História. A Inauguração de um aion, uma Era.

Mas, ainda assim, o realismo bíblico não encobriu a humanidade daquele momento. A igreja foi inaugurada entre gente, com problemas de gente. Houve insegurança, incerteza, esfriamento, tristeza, confusões, imoralidades... 

O quadro geral não é o quadro de um paraíso. E devemos lembrar que o livro de Atos é uma coletânea, uma seleção. Uma leitura ampla daquela primeira igreja acrescentaria o retrato que é pintado em I Coríntios, por exemplo.  

A conclusão é: guardadas as especificidades, no que é mais importante e central: a igreja de sempre é a mesma igreja do Espírito Santo. E o que pretendo não é desmaravilhar o Novo Testamento: é fazê-lo notado como realidade presente e um poder atuante.

“Entendo que o tempo ‘bíblico’ não foi, certamente, um tempo paradisíaco que tivemos que deixar para trás, para sempre” (Juan Luis Segundo)

Estamos cercados pela mesma Bondade, em sua liberalidade de sempre: nós é que não vemos. O Milagre é Hoje: Se Hoje é que ouvimos a Sua voz. 

Se há um emaravilhamento na Fé, é vê-la crida hoje. Posto que foi isso que Jesus disse: que a bem aventurança estaria na Fé que “não viu”. O Milagre maior é manter-se aquecido em tempos de frieza. Milagre é o Filho do Homem encontrar Fé no tempo de sua Vinda. Milagre é, nos tempos de hoje, existirem homens que não são egoístas, nem avarentos ou arrogantes. Homens obedientes aos pais, gratos e reverentes.  Milagre é um homem com domínio de si, e amigo do bem. Fiel e amigo de Deus.  O Milagre é Hoje. O olhar da Fé – e não o olhar do falso encanto, o enxerga. O maravilhoso habita o simples. A Fé não se encanta com o Templo de Salomão, antes, diz surpresa: que lírios! Será por isso que hoje não nos parece tão boa, tão poderosa e tão operante?