domingo, 21 de julho de 2013

O G12






O G12 não é apenas uma FORMA de governo da igreja. O G12 é um corpo de doutrinas que foram sendo incorporadas até formar o pacote. Algumas delas: Quebra de Maldição, Maldição Hereditária, Cura Interior (com métodos psicológicos), Batalha Espiritual, Mapeamento Espiritual, Atos proféticos, Movimento Apostólico, etc. Ademais, é indissociável do movimento carismático, indo um pouco mais além e se assemelhando ao pentecostalismo de terceira onda, vulgo neopentecostalismo. Em minha descrição, vou focar mais o aspecto da eclesiologia sob o aspecto da liderança.

O G12 chega com a pretensão de ser A visão de Deus e com muitas outras pretensões. É, em outras palavras, estar na crista da onda do mover do Espírito. É ter vencido todos os paradigmas – como um pastor do movimento me disse.

É um movimento restauracionista: restaura conceitos e linguagens velho-testamentárias. Restaura, por exemplo, o sacerdotalismo do velho testamento. Com a ajuda do Velho Testamento, o pastor, muito provavelmente Bispo ou Apóstolo, concentra poderes inquestionáveis e absolutos. A igreja perde participação e modelos de governo comunitário (democrático). A lei é o líder.

Ensina-se, por exemplo, que não se deve questionar o líder: você tem é que obedecer, se ele estiver errado, ele acerta com Deus. Outra forma é que o líder só pode ser tratado por um igual ou superior: que seria a sua cobertura. Por você, ou pela igreja, ele é inexortável. Há pedestal e castas.

Se você pensa, tem opiniões diferentes, tem interpretações da Bíblia diferentes, o errado é você. Você será rotulado de insubmisso e rebelde e todos serão vacinados contra você. Você não pertence mais ao meio, e o meio deixará isso claro para você.

Não há espaço para o diferente, para a comunidade (reunião de indivíduos: o que subentende diferenças), é lugar de uma só palavra, uma só mente. Há massificação e uniformização: o que é desumano. Um pastor me disse: minha oração é para que os que não concordam comigo, saiam daqui.

O líder é a verdade e a autoridade. Não é a Bíblia que está em questão. Se a Bíblia é a autoridade, se você tem uma interpretação melhor, então deve ser ouvido pois é interesse de todos que a Bíblia seja vivida. Ora, se a Bíblia for a autoridade, a comunidade terá critérios para questionar o líder, o que não é desejável.

O líder é o carisma da igreja, como tipicamente é nas igrejas neopentecostais. Ele é a vida da igreja, o seu coração. Ele é ovacionado. Ele precisa ser honrado, o que pode significar você ter que dá seu lugar para ele na fila do mercado. Uma canção do MIR ensina: “a unção que eu honrar, nela vou prosperar”. Sua ovação lhe trará bênçãos.

Nesse restauracionismo da ordem levítica, mulher de pastor é pastora, filho de pastor é pastor. Há ofertas específicas para o sacerdote. E ele é o mediador da benção: Rene Terra Nova conta que um de seus discípulos queria ter um certo carro e foi até ele e disse: Apóstolo, tenha tal carro. Rompa. Se você romper, todos vão romper. As honrarias do líder se propagam para os demais.

Não obstante tudo isso, o G12 adotou o apostolismo mentoriado pelo Peter Wagner e Cindy Jacobs e propagado aqui no Brasil pelo Profeta Rony Chaves. O Apóstolo é um novo “nível de unção”. O coroamento é feito com ofertas aos pés.


A História

O G12, nem quanto ao enrijecimento de sua hierarquia, não tem nada de novo. A criação do pedestal, homem do poder e castas é um mix de inspiração Greco Romana, e a gênese do Catolicismo Romano. Dos gregos, a idéia do poder relacionado à oratório. E dos romanos, o modelo hierárquico de sua política. O historiador Will Durant fala da herança “dos modelos da organização e o gênio de Roma”.

Na igreja, já no século I, dentre os responsáveis por tal incorporação destaca-se Inácio de Antioquia e Clemente de Roma. Após, destaca-se Cipriano de Cartago.


Inácio de Antioquia

Em suas cartas, Inácio parecia ter apenas um assunto em mente: exaltação exagerada à autoridade e à importância da posição do Bispo.

Escreve o Frank Viola: “Segundo Inácio, o Bispo teria a última palavra e deveria ser prontamente obedecido. Considere os seguintes extratos de suas cartas: “Todos vocês sigam o Bispo como Jesus Cristo segue o Pai… Ninguém fará qualquer negócio da igreja sem o Bispo... Onde o Bispo estiver ali deve estar o povo... Vocês nunca devem atuar independentemente do Bispo e do clero. Olhem seu Bispo como um tipo de Pai... Tudo o que ele aprova, agrada a Deus...”.

E ainda: 

“Os cristãos devem fazer tudo sob “a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus”.


“Vede, se a oração de um e dois possui tal força, quanto mais então a do bispo...”



“Cuidemo-nos de não nos opormos ao bispo, para estarmos submissos a Deus”.



“Torna-se, pois, evidente que se deve olhar para o bispo, como para o próprio Senhor”.



“Àqueles que falam do bispo, mas fazem todas as coisas sem ele, declarará Aquele que é o verdadeiro e primeiro Bispo e único Sumo Sacerdote por natureza: "Por que me chamais de 'Meu Senhor' se não fazeis o que vos digo?"”.



“Exorto-vos a estudarem todas as coisas com divina harmonia, tendo vosso bispo presidindo no lugar de Deus e vossos presbíteros no lugar da assembléia dos apóstolos”.



“Assim como o Senhor nada faz sem o Pai, pois Ele diz: "Por Mim mesmo nada posso fazer", também assim deveis proceder; nem o presbítero, nem o diácono, nem o leigo deve fazer algo sem o bispo. Nem mesmo deveis fazer algo recomendável sem a sua aprovação. Pois tais coisas são pecaminosas e se opõem a [o desejo] de Deus”.



“Na hora em que vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, me dais a impressão de não viverdes segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo”.



“Bispo que é a imagem do Pai”.



“Sujeitando-vos ao bispo como ao mandamento do Senhor”



“Apartai-vos das ervas daninhas que Jesus Cristo não cultiva, por não serem plantação do Pai. Não que tenha encontrado em vosso meio discórdias, pelo contrário encontrei um povo purificado. Na verdade, o que são propriedade de Deus e de Jesus Cristo estão com o Bispo”.



“Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai”.



“Tudo, porém, o que ele aprovar será também agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer seja seguro e legítimo”.



“Quem honra o bispo será também honrado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo presta culto ao diabo”.



“Atendei ao bispo para que Deus vos atenda”.



Clemente de Roma (morreu em 100 d.C.)

Clemente de Roma foi o primeiro escritor cristão a fazer uma distinção na condição [status quo] de líderes cristãos e não líderes. Ele foi o primeiro a usar a palavra “leigo” contrastando com ministros. Clemente sustentava que a ordem do Velho Testamento com respeito aos sacerdotes deveria ser cumprida na igreja cristã[1].


Cipriano de Cartago (200-258 d.C.)[2]

Pode-se atribuir a Cipriano o conceito antibíblico de sacerdócio — a crença de que existe uma pessoa divinamente nomeada para mediar entre Deus e o povo. Com sua influência ele abriu a porta para ressuscitar as práticas do Velho Testamento, dos sacerdotes, templos, altares e sacrifícios. Os Bispos começaram a ser chamados “sacerdotes”.

A origem da doutrina não bíblica do “protetorado” também pode ser atribuída a Cipriano. Cipriano ensinava que o Bispo tem apenas um superior, Deus. Ele deveria prestar contas apenas a Deus. Qualquer um que se separasse do Bispo se separaria de Deus.

O EVANGELHO

“...alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas.
 Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas,
 e as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens: -- Rabi, Rabi.
Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi...
Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.
... Mas o maior dentre vós será vosso servo.”

I João 2.27  
Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou.

1 Pedro 5.1-3
Rogo, pois, aos presbíteros ...
pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;
nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.

1 Pedro 2.9  
 Mas vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz.

Gálatas  1.8  
Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.

Gálatas  2.11
E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.

Atos 17.11
Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras para saber se o que Paulo dizia era mesmo verdade.


[1] Frank Viola

[2] Frank Viola

sábado, 6 de julho de 2013

E por falar no Céu...







"A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada".

Nós, cristãos, originalmente somos herdeiros da tradição oral - Mesa, Memórias e histórias.

Mas a tradição protestante sofre com a maldição do papel e do texto!

Contadas, as histórias ganham vidas. 

Expostas e explicadas, os textos não dizem muito.

Estive em Iguaí em Junho, terra onde tenho muitas histórias. E na companhia de bons contadores de histórias, sob o calor de fogueiras e na inspiração de ventos e da noite.

Exegese, digamos, é gramática. E a Bíblia é tão cheia de poesia...

Esse assunto do céu, e os termos da nossa esperança e da Vida, carecem de menos púlpito, ou de exposições "anatômicas".

É assunto para histórias ao pé de fogueiras...

Em outras palavras, o que quero dizer é que: não tem nada de abrir o texto, e pregar. Tem haver de, uma vez dominado a gramática, falar de uma esperança íntima. Falar com subjetividade. “Ele em mim...” (não seria “revelação”?).

Sim, alimento imagens de como será que se alimentam de como eu sei que Ele É.

Eu alimento algumas pistas sobre o Tudo...

Todos têm segredos: os compartilháveis e os que são só nossos.

Veja o capítulo Céu, de O problema do sofrimento. 

As histórias nos alimentam e se alimentam de nós: e isso é “revelação” de Mesa. 

Não pertence a um. Não é só um que fala. 

A História inclui. Produz histórias. 

Todos ouvem.

Isso é um bom, e raro, papo cristão.

Mas o Protestante só repete textos...

Se é uma sensibilidade que ganhei, é essa: não leve o "texto" tão a sério. Especialmente se nele, o que se representa são sons, imagens, visões, cenas...

O que estou dizendo é: o texto é unidimensional. 

É uma foto. 

Não é amplo.

O texto está certo, mas não é tudo.

O Evangelho é a Mensagem: não é o texto.

Ele é Voz, é Presença, é Pessoa, é Verdade.

O que é o Evangelho? É a história/parábola sobre a pérola? Ou são as muitas histórias de pessoas que acharam a “pérola”?

Isaías “viu o Senhor assentado...”, é a foto. Nela, muitas e magníficas verdades.

Mas a foto, como sabemos, não captura tudo. 

As palavras também não. Algumas levam em si grande arcabouço de significados de realidades extraordinárias que tentamos "captar", como é o caso de palavra GLÓRIA.

Veja o sermão PESO DE GLORIA, de C. S. Lewis. Ele escreve:

“As promessas das Escrituras podem, muito por alto, reduzir-se a cinco: em primeiro lugar, promete-se que estaremos com Cristo; em seguida, que seremos semelhantes a Ele; depois — e aqui é extraordinária a riqueza de imagens — que teremos "glória"; em quarto lugar, que seremos alimentados, festejados ou obsequiados; e, finalmente, que teremos alguma posição de destaque no universo — governaremos cidades, julgaremos anjos, seremos colunas no templo de Deus. A primeira pergunta que me surge é: "Não bastaria a primeira promessa?". Será possível acrescentar alguma coisa ao conceito de estar com Cristo? Pois deve ser verdade o que diz um velho escritor: aquele que tem Deus e tudo o mais, nada possui que não possua aquele que apenas tem Deus. Creio que, mais uma vez, a solução está na natureza dos símbolos”.

O Peterson escreveu um artigo fundamental - Apocalipse: o meio é a mensagem. Escreve: 

“É muito impressionante que o novo céu não seja retratado como uma restauração do jardim do Éden, mas como uma nova cidade. A visão pagã do futuro é Éden ou Arcádia — um retorno primitivista a um individualismo descomplicado. Mas a visão bíblica é um aperfeiçoamento da cidade. Esse artifício da sociedade como forma de vida conjunta e consciente é levado a sua expressão máxima, não eliminado ... O agrupamento de casas numa cidade e a construção de uma muralha na cidade criam um senso de grupo e uma inter-relação”.

Como será? 

Não sei, e claro que me pergunto, imagino, suspeito...

Sei umas coisas sobre o amor, que me diz umas coisas sobre Deus. O amor não absorve, não domina, não esmaga, não aniquila... o amor deixa ser, faz ser... Ele nos devolve para nós mesmos e para os outros. Ele é transparente como a luz. Sem Ele, não há alegria. Ele é tudo em todos:

"No fim de sua famosa novela Jounal d'un cerá de campagne, tendo, seguramente, como fundo são Paulo e certamente recordando Santa Teresa de Lisiex, Bernanos resumiu de forma insuperável essa experiência, talvez nem sempre suficientemente explicitada, porém mais geral que parece: "TUDO É GRAÇA".