domingo, 25 de agosto de 2013

Ópio do povo?




Ópio do povo?
– Um texto do Rabino Jonathan Sacks

    Ópio do povo? Nada nunca foi menos opiáceo do que essa religião de sagrado descontentamento, de insatisfação com o status quo. Abrahão, Moisés, Amos e Isaías lutaram em nome da justiça e dignidade humanas. Enfrentaram padres e reis; sem medo, discutiram com Deus. Essa marca, feita pela primeira vez por Abrahão, nunca perdeu a força. Sua expressão mais poderosa se encontra em Jó, com certeza o livro mais contestatório a fazer parte de um cânone de escrituras sagradas. No judaísmo, fé não é aceitação. É protesto contra o mundo tal qual é em nome do mundo como ainda não é, mas deveria ser. A fé não reside na resposta, mas na pergunta – e quanto maior o ser humano, mas eloqüente sua pergunta. A Bíblia não é ópio metafísico, mas precisamente o oposto. Seu propósito não é transportar aquele que crê a um paraíso particular. É, isto sim, o desejo apaixonado, contínuo, de trazer o paraíso até a terra. Até conseguirmos, ainda há trabalho a fazer.

Algumas culturas isentam o ser humano da responsabilidade, levando-nos para longe do mundo de dor rumo a um estado de beatitude, êxtase, enlevo. Elas nos ensinam a aceitar o mundo como é e a aceitar a nós mesmos do modo que somos. Promovem paz de espírito, o que não é pouca coisa. Judaísmo não é paz de espírito. “Os justos não têm descanso, não neste mundo nem no próximo”, diz o Talmud. Eu continuo admirado diante do desafio que Deus nos deu: o de sermos diferentes, iconoclastas do politicamente correto, de personificarmos o ponto de interrogação assinalado por Ele diante da sabedoria convencional vigente, de construirmos, transformarmos, consertarmos o mundo até que ele se torne um lugar digno da Presença Divina – tudo porque nós aprendemos a honrar a imagem de Deus que é a humanidade.

Acreditar na Bíblia requer coragem. Não é para os fracos de coração. Sua visão do universo em nada é reconfortante. Podemos ser livres, podemos ser afluentes, mas em Pêssach comemos o pão da aflição e sentimos o gosto amargo das ervas da escravidão. Em Sucot, nós nos sentamos em barracos e aprendemos o que é não ter um lar. No Shabat, vivemos na prática nosso protesto contra uma sociedade movida pela produção e consumo incessantes. Todos os dias, falamos em nossas preces de Deus “que proporciona justiça aos oprimidos, e dá alimento aos famintos… liberta os agrilhoados… abre os olhos dos cegos e reergue os caídos… protege os peregrinos; ao órfão e à viúva Ele reanima…” (Salmos 146:7-9). Imitar Deus é estar alerta à pobreza, ao sofrimento e à solidão do próximo. O ópio elimina a sensibilidade à dor. A Bíblia nos faz senti-la.

É impossível se comover com os profetas e não ter consciência social. A mensagem que transmitem em nome de Deus é uma: O mundo não vai melhorar sozinho. E não se tornará um lugar mais humano se delegarmos a outros – políticos, articulistas, apologistas profissionais – a tarefa nossa de trazer a redenção. A Bíblia hebraica não começa com o apelo do homem a Deus, mas com Deus nos chamando, a cada um de nós, exatamente aqui onde estamos. “Porque, se de todo te calares agora”, diz Mordechai a Ester, “de outra parte se levantarão para os judeus socorro e livramento… quem sabe se não foi para este momento que chegaste ao reinado?” (Ester 4.14) Esta é a pergunta que Deus nos faz. A resposta é sim. Se não fizermos o que nos cabe, talvez outros façam. Mas não teremos, então, compreendido por que estamos aqui e o que somos intimados a fazer. A Bíblia é o chamado de Deus à responsabilidade humana.

(Rabino Jonathan Sacks, Para Curar um Mundo Fraturado – A ética da responsabilidade, Editora e Livraria Sêfer, São Paulo.)

sábado, 24 de agosto de 2013

Redescobrindo o sentido da vida - Olavo de Carvalho



Na foto: Viktor Emil Frankl

Freud assegurava que, reduzido à privação extrema, o ser humano perderia sua casca de espiritualidade e poria à mostra sua verdadeira natureza, comportando-se como um bicho. Victor Emil Frankl, psiquiatra, judeu e austríaco como Freud, não acreditava nisso, mas não teve de inventar uma resposta ao colega: encontrou-a pronta no campo de concentração de Theresienstadt durante a II Guerra Mundial. Ali, reduzidos a condições de miséria e pavor que no conforto do seu gabinete vienense o pai da psicanálise nem teria podido imaginar, homens e mulheres habitualmente medíocres elevavam-se à dimensão de santos e heróis, mostrando-se capazes de extremos de generosidade e auto-sacrifício sem a esperança de outra recompensa senão a convicção de fazer o que era certo. A privação despia-os da máscara de egoísmo biológico de que os revestira uma moda cultural leviana, e trazia à tona a verdadeira natureza do ser humano: a capacidade de autotranscendência, o poder inesgotável de ir além do círculo de seus interesses vitais em busca de um sentido, de uma justificação moral da existência.

(...)

O que Frankl descobriu em Thesienstadt foi que além do desejo de prazer e da vontade de poder existe no homem uma força motivadora ainda mais intensa, a "vontade de sentido": a alma humana pode suportar tudo, exceto a falta de um significado para a vida. Ao contrário, dizia Frankl, "se você tem um porquê, então pode suportar todos os comos". A privação de sentido origina um tipo de neurose que Freud e Adler não haviam identificado, e que é a forma de sofrimento psíquico mais disseminada no mundo de hoje: a neurose noogênica, isto é, de causa espiritual, marcada pelo sentimento de absurdo e vacuidade

Não há sentido para vida SE não há sentido para o sofrimento e para a morte





Pois não somente uma vida ativa tem sentido, em dando à pessoa a oportunidade de concretizar valores de forma criativa. Não há sentido apenas no gozo da vida, que permite à pessoa a realização na experiência do que é belo, na experiência da arte ou da natureza. Também há sentido naquela vida que - como no campo de concentração - dificilmente oferece uma chance de se realizar criativamente e em termos de experiência, mas que lhe reserva apenas uma possibilidade de configurar o sentido da existência, precisamente na atitude com que a pessoa se coloca face à restrição forçada de fora sobre seu ser. Faz muito que o recluso está privado do gozo da vida criativa. Mas não é só a vida criativa e o gozo de seus dons que têm sentido. Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo. A maioria se preocupava com a questão: "será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido". Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: "Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração."

(Viktor Flankl)