sábado, 18 de janeiro de 2014

JESUS: a Chave Hermenêutica das Escrituras


Atualizado em 24/01/2014
Introdução
Essa é uma segunda versão desse texto. Fiz recortes do que achei acessório. Quis ir logo às questões. Em nível de contexto, digo apenas que esse texto parte da polemização[1] que o jovem blogueiro Yago Martins, colaborador do Voltemos ao Evangelho, faz com a teologia do Rev. Caio Fábio.
A polêmica, per si, não vale. Mas sou um socrático. Tento ver na ocasião, uma oportunidade de se falar mais sério sobre o assunto. O tema vale. O interesse das pessoas vale. E as perguntas são a melhor parte. Como socrático, talvez não tenha respostas. Tenho interrogações: até sob a forma de apresentação histórica do argumento – que é a tentativa de dar uma problematização mais devida.
Avisamos que não estaremos discutindo a chave de Caio Fábio, nem sua aplicação particular de se ter Jesus como chave hermenêutica das Escrituras. E com essa ressalva posso dizer que estarei defendendo essa chave.

Também não defendo que a teologia do Caio Fábio (e de nenhum outro) não seja passível a críticas. Antes, o contrário: é bom para todos que seja criticada e remedida. Teologias são inacabadas. São humanas. São falíveis: inevitavelmente.

A aplicação do Caio Fábio é dele: e não afeta o princípio. Ter Jesus como a Chave Hermenêutica das Escrituras não significa fazer ou concordar com as aplicações individuais do Caio Fábio. Isso está na conta dele. Ademais, como se admite, e o que penso mostrar, não foi ele que a inventou.

As críticas serão muito bem vindas. Recomendo contudo, como me parece ser próprio aos cristãos, que sejam irênicos. O texto é confessadamente feito à facão. Às pressas. Mas ainda creio que seja útil. No mínimo, ele propõe um debate.
Devido a correria, talvez não tenha tempo para aprofundar ou continuar o debate. Mas crendo que possa ser diferente, deixo aqui o meu contato pessoal e o local ideal onde acho que as interações devem ser feitas: ericbrito20042003@yahoo.com.br
A minha fé? É preciso que se diga: o que você tem “em mãos” não é a minha fé. A elaboração teórica da fé não é a fé. A fé é uma experiência com o intangível. O que segue tem que ser provisório. E talvez não seja, sequer, a minha elaboração madura: porque, como disse, escrevi contra o tempo: que seria melhor dito “contra o espírito”.
Que seja, acima de tudo, uma oportunidade para expor com mais clareza o princípio e, assim, para que algumas pessoas se firmem confiantes de que Jesus é a luz correta para se entender as Escrituras, Deus, a si mesmo, os outros, e a vida.
Falemos de Chaves e Portas.
Eric Brito Cunha

  O que ele entendeu, e o que ele refutou
Críticas e distorções: Jesus como Chave Hermenêutica

O Yago, já soa pueril quando introduz a questão sob forma de uma indução infantil – “Não bastaria ficarmos com aquilo que Cristo falou, e só?” – pergunta-se com com seriedade. E também assim, arma uma falácia que não mais abandonará: ter Jesus como Chave para entender as Escrituras significa rasgar os evangelhos do restante das Escrituras!
Por exemplo, ele diz:
Para eles... [possuir Jesus como chave-hermenêutica] significa que só deve ser aceito como verdade Bíblica aquilo que for semelhante à imagem que eles possuem de Cristo. Se qualquer outro trecho da Escritura ensinar algo que, porventura, não pareça pertencer ao Cristo, então deve ser considerado anátema”[2].
Como se vê, as questões são sempre falsificadas e caricaturadas. “Só deve”, “à imagem que eles possuem de Cristo”.
Antes de tudo, é falacioso dizer que a imagem que se tem de Cristo é arbitrária, quando o que se quer dizer é o Cristo das Escrituras e especialmente como revelado nos evangelhos.
Só”, “apenas”, “exclusivamente” são termos perigosos: e até aqui a caricatura é mal feita.
Eu reformularia o princípio assim:
Possuir Jesus como chave-hermenêutica significa considerar Jesus como o Cabeça da Revelação, o Rei das Escrituras, o seu centro, o seu coração... o seu conteúdo e a sua explicação.
Na prática, tudo deve ser mediado pelo Cristo dos evangelhos. Isto é: tudo deve ser repensando, remedido, ressignificado pelo crivo do Cristo. É ler as Escrituras (toda ela) da única forma que se poderia dizer cristã: por e com Cristo.
É não atribuir pé de igualdade a Cristo, Elias e Moisés.
É não ler as Escrituras com simetria, isto é, com uma planície, sem relevos, sem altos e baixos, sem cumes e ápices.
Há qualidades diferentes. Autoridades diferentes. Contextos diferentes. Luzes diferentes. Vozes diferentes. E até vozes que não estão dizendo as mesmas coisas.
É entender que o evangelho quer ser a luz das luzes das Escrituras.
Inventamos esse princípio? Não. Ele é arbitrário? Não. Ele violenta a leitura natural das Escrituras? Não. Como então o discernimos? No próprio desenrolar da história de salvação. No próprio ritmo dos desvelar progressivo[3]. Das dispensações[4] que se sucedem.
Ora, questões semelhantes encontramos em controvérsias teonômicas: onde alguns teólogos dizem que, do VT, apenas o que for referendado pelo NT continua valendo. Outros dizem: só muda o que for expressamente contradito. Muitos não concordam no que foi expressamente contradito. Mas, em todo caso, se busca pontos de continuidade e descontinuidade, é dizer: onde o NT sobrepõe[5]. Na prática, a pergunta é como ler o VT pelo NT. O NT propõe uma releitura. O que se procura é o que procuramos: o lugar de Cristo na revelação. O que muda com Sua chegada.
Igualmente, em outros momentos históricos os evangelhos foram subvalorizados. Alegava-se que, como narrativas, tinham valor teológico (isto é, como subsídios doutrinários) menor[6] que, por exemplo, as cartas didáticas[7].
De tudo isso, o que se conclui – e o próprio Yago admite – é que há pluralidade de teologias. Mas para ele, considerar que Jesus nos evangelhos é a voz da qual, em Hebreus, se diz: “a Ele ouvi”[8] -, não seria uma opção hermenêutica.
Esclarecido isso, concordo com o Yago que “Ter Cristo como chave hermenêutica deveria nos motivar a encontrar como a história do Evangelho está prefigurada, confirmada, anunciada, ilustrada ou ensinada em cada página da Bíblia”, mas ele esqueceu de listar os significados de inovação, importância e ruptura.
Assim, ter Cristo como chave hermenêutica também significa que ele é a chave que abre e fecha. Ele que dá sentido. Ele que ressignifica. Ele que cumpre, consuma, realiza. Ele é a “coisa em si”, cujas sombras se tornam desnecessárias. Ele é o permanente, que faz do aio e o temporário já desnecessário. Ele é o que diz: esse normativo de Moisés não é o padrão de Deus. Ele é quem diz: a lei manda matar. Mas eu digo: ninguém te condenou. Ele é que “risca” a ira e diz: esse é o tempo aceitável do Senhor. Ele é quem diz: eu Sou o Senhor do Sábado. Eu sou o Templo. É dEle que se diz: é a Palavra. E ainda: imagem perfeita de Deus[9].
O princípio não requer que se arranque nada das Escrituras, mas que se leia na sua lógica natural. Ela quer ser lida por Cristo. Ela chega em Cristo: em quem se falou o tempo todo. Num certo sentido, ela rascunhou Cristo.
Isso é o que os reformadores ensinaram. Lutero é taxativo: Tome a Cristo a partir das Escrituras, e o que mais você vai encontrar nelas?”. E "Da mesma forma como vamos até o berço tão somente para encontrar um bebê, também recorremos às Escrituras apenas para encontrar Cristo". Calvino escreveu: "Devemos ler as escrituras com o propósito expresso de encontrar Cristo nelas. Aquele que se desviar desse objetivo, embora possa se afadigar a vida inteira no aprendizado, jamais alcançará o conhecimento da verdade, pois que sabedoria podemos encontrar sem a sabedoria de Deus?" (citando por Greidanus).
Ora, os calvinistas não rasgam os textos sobre o livre arbítrio, ou sobre a vontade frustrada de Deus. Ora, a patrística não rasgou os textos em que de Deus, se transborda emoção ou arrependimento. Ora, o menino parece desconhecer as mil vias do mundo interpretativo teológico: ele fala em rasgar, quando o que se busca é um equilíbrio de princípios.
Ora, é assim que se pode dizer: aquele que diz que as palavras de Paulo contradiz as de Cristo, não entendeu algum ou ambos.
E sim, pela autoridade, pela ontologia (Ele ser quem é), pela limpidez das palavras: pode-se dizer que as palavras de Cristo são as mais importantes das Escrituras. E isso, não necessariamente, provoca uma guerra no Canon[10]. Como dissemos, estamos equilibrando princípios.
O que o menino afirma como supremacia das Escrituras sobre Cristo – “Crer em Jesus está definitivamente ligado a crer nos Apóstolos e em seus companheiros” – eu falaria em termos de interdependência. Ora, é também verdade que, para usar as palavras de Caio Fábio, o tesouro do evangelho é o que, nos evangelhos, é uma parábola[11]. Ora, o que é a letra sem o espírito? O que é as Escrituras sem o Testemunho do Espírito? O que é a testemunha sem Àquele do qual testemunha? O João já dizia que o evangelho não estava contido no livro[12], mas que ele ia para casa[13] e para a vida de quem o livro terminava dizendo que “foi para o seus, para sua casa”. O evangelho continuou onde o livro parou. O evangelho não pode ser contido. As bibliotecas do mundo todo não poderiam contê-lo. Isso é desvalorizar os registros? De modo algum. Mas só traçar que “a coisa em Si” é que é, até epistemologicamente falando, anterior às Escrituras.
Quanto a isso, Miguez Bonino diz que “Cristo está epistemologicamente subordinado a Bíblia". E James Barr já denunciava que, para os fundamentalistas “a Bíblia funciona como uma espécie de correlato de Cristo”.
Em contrapartida, Lutero já dizia que os Livros foram escritos por causa da necessidade e não por ser isso a natureza do Novo Testamento”. Não é a natureza do evangelho ser literatura. Lutero ainda diz: “O fato que tornou o escrever livros necessário, revela o grande dano e a injúria que já se fez ao Espírito”.
Calvino vai diferenciar entre o antegosto da sabedoria, da própria – àquela que pode ser apontada (o que já implica uma diferença de identidades):
O que a lei e os profetas deram a conhecer aos homens de seu tempo? De fato, conferiam o antegosto de sua sabedoria ... Quando, porém, Cristo pode ser apontado com o dedo, manifesto está o reino de Deus, pois que nele foram postos à mostra todos os tesouros da sabedoria e da inteligência [Cl 2.3], pelos quais se penetra até quase aos próprios recônditos do céu”.
O C. S. Cowles vai dizer: “Percebemos esse desdobramento nas próprias Escrituras hebraicas no que se refere aos sacrifícios... Essa perspectiva reconhece que Deus ajustou sua auto-revelação às limitações da compreensão humana e do contexto histórico. Calvino pergunta: Quem não entende, mesmo aqueles de menor inteligência, que Deus, até certo ponto, está acostumado a balbuciar as palavras de modo infantil em sua comunicação conosco, como fazem geralmente as babás com os nenês? Portanto, tais formas de comunicação, ao ajustar o conhecimento dele à nossa insignificante capacidade, não expressam com muita clareza a semelhança de Deus.
E o Ricardo Quadros finaliza a questão:
O fundamentalista costuma apregoar e insistir que possui uma visão elevada das Escrituras, e que quer, antes de tudo, preservar a verdade bíblica. A mera insistência nisso já deveria levantar suspeitas. Será que a Bíblia carece de ser blindada?... Essa suposta “visão elevada das Escrituras” apregoadas pelos fundamentalistas é uma balela. Ela é representada pelo uso dos adjetivos “infalível” e “inerrante”, ou pela identificação pura e simples da Bíblia com a noção da Palavra de Deus, sem que essa identificação seja jamais problematizada, sem que jamais se faça a nota atenuante de que, como dizia Calvino, a Bíblia deva ser entendida como Palavra de Deus escrita, para que não seja confundida com o próprio Cristo, o Verbo divino, a Palavra encarnada, e para que ninguém se esqueça de que a mera apresentação lingüística e textual já torna a Bíblia um constrangimento da Palavra divina e que, como conseqüência óbvia disso, não pode representar a Palavra de Deus em sua completude, ou melhor, sua infinidade”.
O contexto de polêmica, ameaça, e reação em que, no meio conservador, se introduz uma tecnicidade racional à ideia de inerrância, é que, aos meu olhos, se torna uma problema. A Bíblia passa ser uma entidade separada. E mesmo: um Livro sem Deus. É uma carta lançada na mesa do confronto e do debate. Um debate com víeis racionalista em que o próprio fundamentalista aceita as regras do jogo: e a Bíblia passa a ser uma pressuposição, lançada diretamente do céu, dando coerência hermenêutica nessa disputa racional que é epistêmica. Ou é assim, ou se perde o debate. A Bíblia passa a ser idolatrada.

Retornando, o Yago diz: “A verdade que muitos tolos ignoram é que, ou você aceita o Novo Testamento por completo, até a última letra, ou você não tem Jesus, não tem cristianismo, não tem Bíblia, não tem fé e não tem salvação. Ou temos o Novo Testamento por completo ou não temos Testamento nenhum”, e novamente me soa como um pensador pueril. 

Ora, se quiser levar essa questão às suas conseqüências, isto é, a doutrina da inerrância, até aqui, conforme a honestidade do teólogo Paul D. Feinberg:
É claro que não é necessariamente verdade que a perda da doutrina da inerrância conduza inevitavelmente à negação de doutrinas fundamentais à fé cristã”.
E ele diz mais. Diz que essa armação falaciosa do Yago é comum: “o argumento de que somente eles têm a Bíblia em alta conta”. Ele diz, e concordamos: “Existem inúmeras atitudes possíveis em relação às Escrituras”. E ainda afirma que os evangélicos não estão inteiramente de acordo a respeito de se a inerrância é uma condição necessária ou suficiente, ou ambas as coisas, para que se tenha a Escritura em alta conta[14].
Mas para um fundamentalista não há meio termo.

CHAVES

É possível não ter uma “chave” de interpretação? Ou tudo é uma questão de se ter chaves diferentes[15]

De modo geral, “chave” é aquilo que “abre” o sentido, e assim: pode-se entender também como uma ênfase. Ou princípio que sirva como luz orientadora. Uma luz que sobressaia, um principio de princípios, ou princípio que sobreponha. 

Todos têm chave. Ninguém lê no branco, na neutralidade. Todos trazemos quem somos à leitura. Tais pré-concebimentos devem ser autoconscientes tanto quanto possível. E devem ser visto criticamente. Mas até são desejáveis e necessários. 

O Grant R. Osborne diz que “a hermenêutica não tinha dado muito atenção ao poder que o leitor exerce na construção do entendimento”. E que “Todo leitor trás consigo um conjunto de pré-conhecimentos, isto é, crenças e idéias que compõem a herança de seus antecedentes e da comunidade que lhe serve de paradigma. Raramente lemos a Bíblia em busca da verdade: o que mais acontece é que queremos harmonizá-la com nosso sistema de crenças e ver seu significado sob a perspectiva de nosso sistema teológico preconcebido”
Abaixo, falaremos de algumas chaves.

As Chaves na História[16]
Em um comentário em seu Blog, alguém sugeriu ao Yago: Para ganhar respeito no debate vai ter que expor seu pensamento sobre Lutero que chamou a carta de Tiago de carta de palha... e Calvino que chamou Apocalipse de livro inútil e até disse ser pecado lê-lo”.
A resposta do Yago foi:
...Lutero chamou Tiago de "palha" em comparação ao "ouro" da justificação pela fé. Ele nunca tirou Tiago do Canon nem tratou como à parte da Palavra. Na segunda edição do Novo Testamento alemão ele se arrependeu do comentário e se retratou. ... Boa noite e cuidado com as mentiras que os hereges te contam”.
O Yago está um tanto certo quanto à retratação de Lutero[17][. Mas ele tenta suavizar o que ele disse. Lutero foi muito mais grave. Não chamou de palha por mera comparação com ouro. Ele foi muito mais radical que isso, e muito mais eloqüente. Ele diz: “Fora com Tiago”. E ainda: “Sua autoridade não é grande que chega para me levar a abandonar a doutrina da fé e desviar da autoridade dos outros apóstolos e da Escritura inteira”. E ainda, se Tiago tem sido um problema para minha tese das Escrituras “prefiro fazê-lo escombro. Eu quero lançar Tiago ao fogo como Kanlenberg costuma esquentar a sala...”.
Sim, o “pai” do Protestantismo tinha suas lutas com o Canon, e, sim, ele discernia um conflito dentro das Escrituras.
Ele se retratou com Tiago: desde que Tiago não volte a discordar do que ele entendia ser a “chave” para as Escrituras. E aqui está o chiste. Lutero é mais que fundamental para se debater o assunto[18]. O Protestantismo original teve a sua chave hermenêutica, isso nunca foi segredo. E, dentro dele, foram de desenvolvendo outras[19].
Nessa questão de Lutero com Tiago, ironicamente com certa semelhança a abordagem do Caio Fábio- “Paulo ter que passar pelo crivo dos evangelhos”[20], há a veiculação de princípios hermenêuticos: a Escritura critica/interpreta a Escritura. E a leitura cristã da Escritura é mesmo cristológica: ou não é cristã. O que deveria dizer: que se lê por/através dele. E até por isso, de forma bem generalizada já se pode argumentar: a proposta geral da hermenêutica de Caio Fábio, portanto, não é novidade[21].
Quanto aos termos que o Caio Fábio se utiliza[22], pode-se dizer que ele é até muito polido e educado em relação a Lutero.
Quando alguém cita Lutero e Calvino, talvez como exemplos significativos de que não se faz teologia sem lentes, chaves e filtros, o Yago trata isso como “ladainha”, e “eu sei que alguns vão se apegar a este argumento como um moribundo se agarra ao último fiapo ante ao precipício”. E, por isso, para ele, “não custa nada gastar uns dez minutos lidando com essa bobagem”.

Ele trata de simplificar as coisas até para Lutero. Mas não alivia para seu herege favorito[23]. E, com isso, mais uma vez se entrega. Porque o Apocalipse talvez seja o livro que o Caio Fábio tenha mais apreço, a despeito da omissão de Calvino e dos infelizes embaraços de Lutero.
Mas, para ser mais completo no tratamento que o Yago dá a Lutero, ele não exime Lutero da culpa. E, inevitável que se torna, se desvia do obstáculo: “Lutero não é a regra de fé e prática de ninguém, ou não deveria ser, pelo menos”.
Regra de fé, não. Mas isso parece simplificar a importância de Lutero na hermenêutica Protestante.
O Insight hermenêutico da Teologia Protestante nasce dos conflitos interiores de Lutero, e na sua particular interação com o conceito de justiça de Deus. Um conceito que, segundo o mesmo, o aterrorizava. Até que discerniu na Carta de Paulo em Romanos o teor forense da justificação. Paulo tornou-se para Lutero a chave para compreensão do Antigo e Novo Testamento. A Epístola aos Romanos é uma clara luz completamente adequada para iluminar toda a Escritura. Ele diz: “Esta epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho, digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas também com ele se ocupe diariamente”. Calvino, herdeiro da chave, nunca negou isso. E nunca teve o pudor de admitir suas outras chaves. Disse, por exemplo, de um dos evangelhos: “Já me é hábito dizer que este evangelho é a chave que abre a porta para o entendimento dos demais”.
Segundo Joseph T. Lienhard, Orígenes, o primeiro a elaborar um comentário completo das Escrituras hebraicas, estava convencido de “que... Cristo é a chave para a compreensão do Antigo Testamento[24].
Augustus Nicodemus[25], falando sobre os Puritanos, conta que, para eles, “Cristo ... é a própria substância, centro, escopo e alma das Escrituras”.
O capítulo 6 desse livro, sobre Os autores do Novo Testamento, há uma seção intitulada “Cristo é a chave das Escrituras”, onde explica: “Os escritores do Novo Testamento estão convencidos de que Cristo é a chave que abre o sentido do Antigo Testamento”.
As referências são breves, mas variadas. E espero que, com elas, tenha pelo menos indicado como as chaves, os filtros, as prioridades, as sobrevalorizações, as subvalorizações, são, portanto, uma práxis comum (e inevitável) em teologia.
O fundamentalismo, contudo, caracteriza-se também pela rejeição hermenêutica. Desde que assimilou a filosofia escocesa do realismo comum, o fundamentalismo argumenta que as verdades da Bíblia são evidentes ao sentido comum.
Vou ter que falar brevemente do fundamentalismo, embora tenha lhe reservado um apêndice.

Fundamentalismo quase não admite ter chaves
Martin E. Marty lista como uma característica do fundamentalismo a sua “rejeição hermenêutica”. Talvez baseados na filosofia escocesa do realismo do senso comum[26], eles têm a “pretensão de que um texto, por difícil e enigmático que pareça, é acessível a qualquer fiel”.
Ele vai dizer:
Poderíamos sintetizar sua postura no enunciado seguinte: o cidadão médio pode chegar a conhecer o mundo real mediante o simples uso de seus sentidos, se atua responsavelmente. (...)
Todas as suas exigências se reduziam a um pressuposto, que alguns poderiam definir como um milagre: se Deus é o Deus do amor e da verdade, tem que manifestar-se a si mesmo – sua própria natureza, sua personalidade – de uma maneira acessível a gente simples, que usa normalmente seus olhos, seus ouvidos e os demais sentidos”.
Para o fundamentalismo, basta aceitar seus pressupostos (o conceito de absoluto e o caráter autoritativo da palavra de Deus) “para chegar a uma coincidência com sua interpretação”.
Por isso, com razão Moltmann vai dizer que “o fundamentalismo da revelação não argumenta, mas afirma. Não exige compreensão mas submissão”.  E que, portanto, “não se trata em absoluto de um problema hermenêutico, mas de uma luta de poder”.
Miroslav Volf fala de um “traço modernista” do fundamentalismo: sua aceitação do racionalismo científico (fundamentalmente indutivo). E fala se sua “decidida tendência a um exagero simplista”.
Também Gunter Hole: “se trata também principalmente de “terribles simplificateurs” (terríveis simplificadores)”.

Os fundamentalistas são simplistas. Para eles, sua interpretação não é, em absoluto, uma interpretação. Por conseguinte: não é uma interpretação entre tantas outras possíveis. 
Por outro lado, o Antônio Magalhães escreve:
Declarar o Cristianismo como uma religião do livro é afirmar que boa parte de seu poder reside no fato de ser literatura ... Essa característica de ser religião do livro ... coloca a questão hermenêutica central para a teologia cristã”.
Também o Ricardo Quadros: 

"O fundamentalista ingenuamente pensa que toda a sua reflexão bíblica e teológica é extraída direta e exclusivamente da Bíblia... isso é uma ingenuidade porque a Bíblia é um Texto e como todo texto ele carece de ser interpretado e essa interpretação sempre será feita a partir de uma chave qualquer. Então as pessoas quando vão ler e interpretar o texto o farão a partir de marcos categoriais que não são bíblicos, são filosóficos. São culturais".

E continuando, diz que o problema bíblico do fundamentalismo é que quando diz que a Bíblia é infalível e inerrante o que isso quer dizer é que a sua interpretação, o sistema teológico que subscreve, é que é infalível e inerrante. 

Escreve: 

"Hoje o princípio sola scriptura foi esquecido no meio evangélico, a leitura através de óculos doutrinários não permite que ela fale por si mesma. Ela só fala aquilo que os constrangimentos impostos pela leitura dogmática permitem que ela fale”.

Essa filosofia e a conseqüente rejeição do problema hermenêutico, claro, acaba delineando as posturas dos fundamentalistas: eles são fechados, não indispostos ao dialogo, uma vez que estão por sobre um absoluto fundamento. Isso os torna incapazes de compreender os demais – o que torna um fundamentalista incurável. 
Gunter Hole escreve: “Se eu sou capaz de compreender outras pessoas, então poderei compreender também outras atitudes distintas ante os valores. E então poderei também admitir que isso suceda, é dizer, poderei exercitar a tolerância. Portanto, a tolerância supõe a capacidade para compenetrar-se com os sentimentos das outras pessoas, para admitir que possa haver outros sistemas”.
Hans Kung lista a empatia como modo de superar o fundamentalismo. Ele diz que se deve chamar a atenção dos fundamentalistas sobre as raízes que existem na própria tradição para a liberdade, o pluralismo[27] e a abertura para os demais.

Pluralidade e Diversidade
É inevitável: o outro existe, a realidade é mais complexa, o problema hermenêutico não é contornável. O que falta aos fundamentalistas e aos adeptos de sistemas monolíticos é humildade epistêmica[28].
O Antônio Magalhães fala em uma “tentativa de imposição de pensamentos monolíticos”, e, como vemos, isso é feito pelo calvinismo no Brasil[29]. Isso também é falta de humildade epistêmica, e inspira fundamentalismos.
O Antônio Magalhães vai dizer que “Temos cristianismos com cara própria, com cultura específica, sem que isso signifique ruptura com a tradição”.
O Grant R. Osborne reconhece: “Com toda certeza, a própria consciência da multidão de opções de interpretação de passagens bíblicas[30] é o grande choque que atinge os calouros de seminários e faculdades”. A meu ver, ele ainda alivia, reduzindo o choque aos calouros.
Mas ele também diz: “Fica difícil culpar uma pessoa se, depois de olhar para a profusão de possíveis interpretações sobre praticamente todas as declarações bíblicas, ela deixar de afirmar o princípio de que é fácil compreender as Escrituras!”
Reconhecendo a necessária diversidade das Escrituras Osborne escreve: “A diversidade é exigida pela organização analógica da linguagem bíblica”.
Falando especificamente sobre teonomia – mas que tem aplicação mais geral, Jonathan Edwards admite “Talvez nenhuma parte da divindade esteja imbuída com tanta complexidade, e sobre a qual os teólogos ortodoxos tenham tanta divergência como na afirmação precisa da concordância e da diferença entre as duas dispensações, a de Moisés e a de Cristo”.

Jesus e a Bíblia 

Há uma relação de interdependência (ainda que com seus hiatos) a ser discutida. O F. F. Bruce coloca assim: 

A igreja começou sua existência com um livro, mas não é ao livro que se deve essa existência. Compartilhava esse livro com o povo judeu. Na verdade, os primeiros membros da igreja eram, sem exceção, judeus. A igreja devia sua existência peculiar a uma pessoa – Jesus de Nazaré, crucificado, morto e enterrado, mas “[...] designado Filho de Deus com poder [...] pela ressurreição dos mortos” (Rm 1.4). Esse Jesus, cria-se, havia sido exaltado por Deus à posição de Senhor do universo. Ele enviara Seu Espírito para estar presente com seus seguidores, para uni-los e animá-los como seu corpo sobre a terra. A função do livro era dar testemunho dele”. 

E em outra ocasião, num capítulo que intitulou “O Antigo Testamento se torna um novo Livro”, escreve:  

"No princípio de sua existência, a igreja achou-se suprida de um livro, uma coleção de Escrituras Sagradas que herdara. A igreja não estava fundamentada em um livro: seu fundamento era uma pessoa, Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, ressuscitados sobre os mortos por Deus e reconhecido por seus seguidores como Senhor dos senhores. Mas o livro testemunhava dele, e por essa função, seus seguidores o consideravam indispensável. Ao mesmo tempo, eles consideravam o registro de sua vida e ensino, sofrimento e triunfo como indispensável para o entendimento do livro."  

Ele explica:  

Nessas coisas, eles não estavam fazendo mais do que seguir um precedente estabelecido pelo próprio Jesus. Durante todo o seu ministério, ele apelara às Escrituras. A insistência em “assim está escrito” está tão profundamente entranhada em todas as camadas do evangelho que é razoavelmente considerada como nada menos que o produto da reflexão da igreja sobre os acontecimentos da vida e da morte de Cristo, à luz da Páscoa e dos eventos”. 

Não se fundamentavam no Livro. Mas consideravam-No indispensável como indispensável era o registro da Vida, Ensino e Obras de Jesus para o entendimento do Livro. Sem Jesus, o livro era um livro diferente: assim como um judeu permanece diferente de um cristão.

John Stott lembra que “nossa convicção cristã é a de que a Bíblia tem autoridade e relevância [...] e que o segredo de ambos é Jesus Cristo”.

De outra maneira, ele diz que o segredo da autoridade e relevância da Bíblia é Jesus Cristo. 

Alguns sistemas teológicos-epistemológicos só concebem um Jesus Literário, sem “existência” real à parte do Livro. É um Jesus que é parte de um livro. De modo que, sem livro, sem a testemunha, não haveria a Pessoa testemunhada[31]. Mas essa concepção não é verdadeira. Jesus é ontologicamente anterior à Bíblia. E, pode se argumentar[32], tendo consciência de que Ele é ainda o Sujeito da Revelação (testemunho interior, iluminação), que sem Ele e por si, o Livro não comunica, e, assim, Ele também é epistemologicamente anterior a Bíblia. Ainda que meu encontro com Ele deu-se com a Bíblia, foi por Ele, que eu pude dizer amém ao que o Livro comunicava. Ele, pelo Livro, me levou a Ele[33]. E aqui eu permaneço.
Talvez seja aqui, o melhor contexto para reproduzir a importância que Barth dá a cristologia: até no trato da revelação. Falaremos disso em um apêndice à parte, e espero que o leitor consiga fazer as devidas conexões. Mas Barth diz que a cristologia não é apenas parte, ou uma seção da dogmática.  

Nessa linha, Donald Baillie vai dizer que o Cristianismo “Não é teísmo acrescido de cristologia”[34] . O teólogo wesleyano Thomas A. Noble diz que “A teologia é [...] verdadeiramente teocêntrica somente se for cristocêntrica”.
Hesselink explica que Calvino afirma que o que se diz de Deus no AT pode ser aplicado a Cristo no NT sem nenhuma distorção, manipulação ou alegorização. Mas, talvez, seja mais verdade o que sugere Thomas A. Noble: “o ponto de partida para a formação da autêntica teologia cristã não está naquilo que a Bíblia ensina sobre Deus em termos gerais, mas especificamente no que Jesus revela acerca de Deus”.
Os termos gerais são importantes, mas podem ser confusos. Pelo menos, são matéria de confusão. De modo que a imagem de Deus tem sido tão distorcida, que ante algumas construções, é correto o que diz o teólogo Walter Wink: “Em face dessa concepção de Deus, a revolta do ateísmo é um ato de pura devoção religiosa”.
No centro dessa tensão, Lutero discerne um rosto escondido de Deus[35]. Como para ele, e também em Barth, Deus quis ser conhecido em Cristo e no seu evangelho.
Jesus é a lente através da qual se obtém a perspectiva integral, equilibrada e sem distorções do coração amoroso de Deus” (Cowles).
Jesus é quem dá sentido ao Livro. Sem Ele, só há distorções. Philip Yancey usa a imagem de uma lupa:  

Quando coloco a lupa contra uma palavra, ela aparece claramente no ponto do foco, enquanto os cantos ficam cada vez mais distorcidos. Num perfeito paralelismo, pra mim Jesus se transformou no meu ponto focal de fé e, cada dia mais, tenho aprendido a manter o foco da lupa de minha fé nEle”.

E aplica:  

Admito que algumas doutrinas cristãs ortodoxas me preocupam. O inferno vai, mesmo, envolver uma eternidade de sofrimentos? E quanto àqueles que viveram e morreram sem ouvir de Jesus? Volto à resposta do bispo Ambrósio, o mentor de Santo Agostinho que, em seu leito de morte foi perguntado se temia encarar o julgamento de Deus. Nós temos um senhor bom” – respondeu. Aprendi a confiar em Deus em áreas que eu não entendia buscando conhecer Jesus. Isso que soa evasivo reflete, precisamente, a centralidade de Cristo presente no Novo Testamento. Com Jesus como foco principal, deixamos nossos olhos navegar com cuidado pelas margens”. 

Em outra situação diz: Martinho Lutero incentivou seus alunos a fugir do Deus oculto[36] e a correr para Cristo, e agora sei por quê. Se eu usar uma lente de aumento para examinar uma pintura preciosa, o objeto no centro da lente permanece vivo e claro, enquanto à volta nas margens a visão se torna cada vez mais distorcida. Para mim, Jesus se tornou o ponto central. Quando especulo acerca de elementos imponderáveis como o problema do sofrimento ou da providência versus o livre arbítrio, tudo se torna impreciso. Mas, quando olho para o próprio Jesus, como ele tratou pessoas reais que sofriam[37], o seu chamado à ação livre e diligente, a clareza é restaurada. Posso preocupar-me até entrar num estado de aborrecimento acerca de questões como “O que adianta orar se Deus já sabe todas as coisas?”. Jesus silencia tais questões: ele orou, por isso também devo orar.
Ele ainda trabalha com outra boa imagem, tomada do teólogo Niebuhr: a Pedra de Roseta. Diz: Numa bela analogia, H. Richard Niebuhr comparou a revelação de Deus em Cristo com a Pedra de Roseta. Antes de sua descoberta, os estudiosos só podiam supor o significado dos hieróglifos egípcios. Num dia memorável eles descobriram uma pedra escura que apresentava o mesmo texto em três línguas diferentes. Cortejando as traduções, eles dominaram os hieróglifos e puderam penetrar claramente num mundo que só haviam conhecido de modo confuso. ... Niebuhr prossegue dizendo que Jesus nos permite "reconstruir nossa fé".
Sim, Jesus reconstruiu a fé. Ele montou o quebra cabeça. Ele, por fim, desfez as dúvidas sobre a imagem de Deus. O AT tem muitas boas imagens para revelar a Deus.
Oscar Culmann vai dizer que “Nele [Jesus] está centrada e recapitulada toda a obra soteriológica”, mas o que se diz da história da salvação, talvez possa ser dito sobre uma certa história da revelação. Porque Jesus revela a revelação: isto é, a própria Bíblia. E eu não estaria inventando essa presunção do NT: também nele se fala de uma revelação passada “que usa véu”. Uma revelação com glória própria, mas em muitos termos deficiente.

Jesus contra a Bíblia: Não podemos seguir Jesus e a Bíblia toda
A despeito do retoricismo da frase, é um dado teológico comum de que na Bíblia há um desenvolvimento. A revelação é progressiva. Nela, a compreensão de Deus foi progressiva. É dizer: a Escritura supera a Escritura. Nela, há o ultrapassado, o não vigente, o menos completo e o mais pleno. Dito isso, conforme lembrança de Julio Silveira, a própria Bíblia diz que não dá para seguir Jesus e segui-la toda:
"Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores. Pois se aquela primeira aliança fosse perfeita, não seria necessário procurar lugar para outra. (...) Chamando "nova" esta aliança, ele tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer." (Hebreus 8: 6, 7-13)
Em muitos pontos, a descontinuidade é expressa. De modo que Jesus supera. É dizer: em alguns pontos, a “Bíblia toda” pode até ser um conteúdo anti-cristão.
Cowles escreve:
Ainda que tenha confirmado as Escrituras hebraicas como a autêntica Palavra de Deus, Jesus não lhes endossou todas as palavras como procedentes de Deus. Ele rejeitou alguns textos da Torá como expressão da intenção e vontade originais de Deus, a exemplo das leis mosaicas referentes ao divórcio (Mc 10.4-9)”.
Lutero alertou: "cuide que não faça de Cristo um Moisés”.
No livro “Deus mandou matar?” a questão fica patente quando se discute o problema da violência e do genocídio ordenado por Deus. Sobre isso, nesse mesmo livro, o Cowles se pronuncia: “Uma vez que Jesus já veio, não temos obrigação de justificar o que não pode ser justificado e só pode ser descrito como anterior a Cristo, inferior a Cristo e contrário a Cristo”.
 
A questão teonômica

Como já dissemos, a questão teonômica flagra: força a admitir que Jesus deve ser nossa chave hermenêutica das Escrituras. Nós, contudo, por tudo o que temos dito, dizemos que Jesus tem destaque também dentro do NT.
Sobre a posição de Jesus perante a Lei, podemos dizer com Keith Ward: Ele certamente não fala: “não se preocupe com o que a Lei diz[38], faça apenas o que Eu digo”.
Esse “apenas” é, novamente, problemático. O que se deve se discutir é o lugar “do que Eu digo”.
Aqui, até nos arraiais do continuísmo - onde a tentação da “Bíblia toda” é mais forte, não dá para manter coerência. Diz o Keith Ward: “Alguns cristãos acreditam seguir literalmente os mandamentos, quando na verdade mudaram de forma significativa sentido do texto original ... esses mandamentos eram a princípio, e permanecem em sua interpretação original, destinados aos judeus”. Calvino admite: “Os cristão não têm nada a ver com uma observância superticiosa dos dias[39]”.
Mas a Lei não ficou intocada. Não há o que não seja mediado por Cristo. O próprio Jesus interpretou a Lei à luz de uma chave. Keith Ward diz: [Jesus] os interpretava à luz de uma aplicação rigorosa e universal do princípio “amai o próximo como a ti mesmo” que deriva de uma visão universal e ilimitada do amor de Deus.
E seus discípulos interpretaram a Lei e tudo o mais, à luz de Sua pessoa[40].
Willem A. VanGemeren diz acertadamente que “A lei nunca teve a intenção de ser o foco ou o propósito em si mesmo”. Ele diz: “Jesus Cristo é o aperfeiçoamento da lei (rm 10.4)... ele é o aperfeiçoamento da justiça”. E finalmente: “Sob a nova aliança, a lei nunca mais pode ser lida, interpretada ou aplicada à parte de Jesus Cristo. Ele foi o modelo do cumprimento e aperfeiçoamento da lei: e ele a simplificou”.
Calvino diz que “Cristo é o fim da Lei e a suma do Evangelho”.
Douglas J. Moo diz: “Os mandamentos de Moisés, portanto, não são diretamente aplicáveis a nós, mas somente na medida em que são passados para nós por meio de Cristo. Ele é o “filtro” por meio de quem deve passar toda a lei”.
Keith Ward conta que: “Parece que esses princípios podem ser adotados sem seguir rigidamente as regras da Torá. Quando as primeiras igrejas cristãs descobriram que eram quase que totalmente gentias, foram capazes de renunciar às 613 regras da Torá – afinal, destinadas aos judeus -, enquanto afirmavam que permaneciam fieis aos ensinamentos éticos de Jesus. Elas não pensavam sobre si mesmas, no entanto, como possuidoras de uma moralidade totalmente secular. Em vez disso, elas, ao seguirem o exemplo do Sermão da Montanha, tentaram conferir um significado interiorizado e espiritual às leis reveladas por Deus”.

Analogia da Escritura, Analogia Fidei, Analogia do Evangelho, Analogia Christi
Um princípio básico de interpretação enfatizado durante a Reforma - Escritura como Escritura: “o intérprete primário da Escritura deve ser ela própria”. Passagens mais obscuras devem ser interpretadas à luz das mais claras. Lutero diz “Se são obscuras num lugar, são claras em outros”. Ela se auto-interpreta.
R. C. Sproul assim a define:
Em termos simples, isto significa que nenhuma passagem das Escrituras pode ser interpretada de tal forma que o significado alcançado seja conflitante em relação ao ensino claramente exposto pela Bíblia em outras passagens”.
E explica: “Este princípio baseia-se numa confiança prévia e básica da Bíblia como Palavra inspirada de Deus, sendo, portanto, consistente e coerente”.
Poderíamos dizer que ter Jesus como Chave Hermenêutica, diferente do que os blogueiros acham, não é interpretar as Escrituras contra as próprias Escrituras[41], mas antes, ser coerente com o próprio princípio da analogia das Escrituras, contudo, levando em consideração que a revelação não é simétrica, isto é, não tem o mesmo peso de revelação. E especificamente: que Jesus é o cume do processo.
A Escritura é contra as Escrituras: quando ela é contra. Isso não é contradição, é mudança. Isso não é tornar ela contra, é percebê-la.
Igualmente se poderia dizer que ter Jesus como chave hermenêutica é um princípio que se baseia na mesma confiança prévia e básica da Bíblia como Palavra inspirada de Deus, sendo, portanto, consistente e coerente. Pois é ela que quer ser interpretada por Ele.
Significa também, que é à luz de Cristo, isto é, pela clareza de Sua mensagem e feitos, que as demais passagens das Escrituras devem ser esclarecidas.
O Alderi Souza de Matos vai dizer que “Cristo é o centro e a chave das Escrituras (ênfase especial dos reformadores). A Escritura se interpreta a si mesma ("analogia da Escritura"), sempre à luz do princípio cristológico. A mensagem central da Bíblia, o evangelho, é a única chave para a interpretação bíblica”.  

Para Lutero, a auto-interpretação da Escritura pelo Espírito que fala nela significa que a Escritura interpreta-se a si mesma, tendo Cristo como centro, isto é, de forma cristocêntrica. A Escritura sempre deve ser interpretada conforme a analogia da Escritura. E isso não é outra coisa do que a analogia do Evangelho. A partir dessa posição, Lutero lutou contra o método de usar versículos ou trechos isolados da Bíblia contra a compreensão radical enraizada no Evangelho (Paul Althaus).

A exemplo, Lutero leu o Sermão da Montanha à luz da Epístola aos Romanos e da sua crítica da lei. Também ele afirma que o Sermão nos põe diante do impossível, mas com o objetivo de nos fazer tomar consciência do nosso pecado e nos conduzir por esta revelação ao arrependimento e à fé. Segundo Lutero, só Cristo cumpriu os preceitos do Sermão, por todos e em substituição. Só ele possui a justiça requerida, e só ele nos pode revestir dela, pela fé.

Critica teológica
Lutero disse que “Cristo é a palavra encarnada de Deus. Por isso, a Bíblia pode ser a palavra de Deus somente se o seu único e total conteúdo for Cristo”. E ainda “Tudo o que promove a Cristo é a Palavra de Deus a ser procurada e encontrada na Sagrada Escritura”.
Paul Althaus explica:  
Para ele, Cristo era o critério de interpretação. E por esse princípio é que aplicou uma crítica teológica ao Canon[42]. A esse sentido, a esse critério, a essa sua chave, “as passagens individuais devem ser submetidas””.
E esse princípio é o contexto de sua relação com o Livro de Tiago. “O principio de Lutero da interpretação centrada no Evangelho torna-se ali, onde o texto opõe-se à Escritura, uma crítica centrada no Evangelho. Ao lado da afirmação de que a Escritura interpreta-se a si mesma, precisamos, no sentido de Lutero, colocar outro (que não encontramos formulado em palavras): a Escritura Sagrada é seu próprio crítico”.
Lutero aplicou a crítica teológica particularmente a alguns lugares internos do Cânon. O critério para essa crítica é a mesma que seu princípio de interpretação, isto é, Cristo: o evangelho da livre graça e justificação somente pela fé”.
Ele deixa o cânon como ele foi estabelecido pela igreja antiga. Mas ele faz uma distinção no Cânon. Ele avalia os livros de acordo com a norma do seu conteúdo apostólico. E diz que não é um critério arbitrário e próprio, mas com o padrão que a própria Escritura oferece em sua proclamação central. E, nesse sentido, a própria Escritura é sujeito na crítica ao Cânon”.
Usando a imagem de servo X Rei e Senhor, Lutero diz coisas como: “Mesmo se você cita 600 passagens ... Eu tenho o Autor e o Senhor da Escritura”. “Servo é a Escritura”, “Tu podes preferir o servo, isto é, as Escrituras...”, “Nós temos o Senhor, eles, os servos; nós temos a cabeça, eles os pés ou os membros, sobre os quais a cabeça domina e, necessariamente, tem a prioridade”. Para ele Cristo é o Senhor e Rei das Escrituras, e as passagens individuais da Escritura são seus servos. Ele é o cabeça e as passagens bíblicas são seus membros”.
Essa, portanto, não é uma idéia nova: nem fora dos portões da ortodoxia. Foi o pensamento de um teólogo que tinha suas ambigüidades pessoais e éticas, contudo, inegavelmente se tornou matriz do Protestantismo.
É sobre essa tradição que o Cowles faz uma pontuação tão importante quanto. Segundo ele, para John Wesley, “Como revelação perfeita e definitiva de Deus, Jesus é “o critério” de avaliação das Escrituras, a lente por meio da qual as Escrituras hebraicas devem ser lidas”. John Wesley com muita probabilidade foi a maior influência do evangelicalismo brasileiro[43].
As Escrituras devem ser usadas a favor de Cristo e não contra ele, diz Lutero. Por essa razão, cada parte da Escritura deve refletir a ele ou não ser considerada verdadeira Escritura. Por isso, se nossos oponentes tentam usar a Escritura contra Cristo, nós usamos Cristo contra a Escritura. (WA 39/1,46; LW 34,112).

Simetria
Seria fácil extrapolar os limites da tensão que reconhecemos nas Escrituras, e afirmar como Van de Beek: “Quanto mais cremos que toda a Palavra é revelação, menos conhecemos quem é Deus”. E novamente: “...todos os pontos da Bíblia tem o mesmo valor revelatório, e, por força da necessidade, o autor precisa retratar Deus não só como bom e fiel, mas também instável, imprevisível, irracional e, até mesmo, mau”. Mas mesmo dentro de limites mais concebíveis, se compararmos as imagens de Deus dentro da própria teologia protestante conservadora, não daria para esconder que estamos falando de um Deus diferente.
Lutero falava em “Coração e núcleo de todos os livros” (referia-se aos Evangelhos, a carta de João, cartas de Paulo particularmente Romanos, Gálatas e Efésios e 1 Pedro).
Concordando ou não com todas as implicações das colocações de Lutero, é preciso reconhecer que a Escritura não é simétrica, pois nela há história, isto é, desenvolvimento. A hermenêutica também é uma ciência cujo objetivo é discernir “vales e montanhas”, principal e acessório, localizado e eterno, ultrapassado e vigente. Há que se reconhecer o que diz o Antônio Magalhães: “Mesmo em tempos de leitura mais intensiva da Bíblia, sempre houve simultaneamente uma diferença em relação as partes de seus textos”. E o motivo é que todos têm a sua chave, seus filtros, suas ênfases, suas predileções.
O Servais Pinckaersop, na apresentação do livro de Agostinho sobre o Sermão do Senhor na Montanha, escreve: “Tem fortemente Agostinho senso desta concentração viva da Escritura em certos textos do Novo Testamento, nos quais se realiza de modo mais imediato a orientação da Escritura para Cristo, para sua Palavra, para os seus atos, para a sua pessoa. A arte de Agostinho é manifestar o relevo da Escritura. Mostra-nos ele, assim, que o Sermão do Senhor é o ponto culminante da doutrina moral evangélica”.
  
Palavra encarnada: autoridade normativa e ética
Como pessoa, o que fez, ou deixou de fazer, o que falou, os gestos, as empatias, com o que se preocupou, com o que não se preocupou, com o que sentiu ou não, são os termos do que Jesus foi e é, de como Deus é, da vontade de Deus. De modo que também as narrativas nos dão subsídios éticos normativos (cristonormativos).
Ele é o homem perfeito. Ele é a imagem de Deus. Ele cumpre perfeitamente a Lei. Ele é a Palavra. De tal modo que quem quiser entender Deus, sua vontade, as Escrituras, quem quiser viver de modo agradável a Deus, não pode deixar de tê-lo como chave.
Em Sobre a Encarnação, tentando responder como e porque Jesus se tornou homem (“Você deve entender por que é que o Verbo do Pai, tão majestoso e tão exaltado, manifestou-se em forma corpórea”), Atanásio também responde que Deus se tornou homem para que, nessa “linguagem”, nós o pudéssemos conhecer. “Deus veio a nós desta maneira, por um meio simples, para que pudéssemos entendê-lo”.
Ele é a revelação simples e clara da vontade de Deus.
Essa verdade salta que até um teólogo judeu pode perceber: “Jesus introduz uma troca radical: sua pessoa substitui a Lei mosaica. Com efeito, neste discurso, a perfeição que o crente judeu alcança com o cumprimento da Lei é substituída pelo seguimento de Jesus; a santidade não radica na observância da Lei, mas no seguimento total de Jesus. O critério decisivo para viver ou julgar bondade da existência humana é o mesmo Jesus”.
Assim, Jesus é Chave das Escrituras. E talvez seja o lugar ideal para destacar, na aplicação particular do Caio Fábio, o que ela tem de excelente. E que, tendenciosa que foi a abordagem, não pode ser reconhecida pelos blogueiros. Numa conversa pessoal com o John Stott o Caio Fábio conta que elogiava seu livro sobre o Sermão do Monte, mas que com amizade e franqueza, pode lhe dirigir uma crítica pertinaz: que, por exemplo, para entender o que Jesus quis dizer com “mansos” quando disse “bem-aventurado os mansos”, não precisamos saber grego ou aramaico, e que a pergunta essencial (e suficiente) não tinha sido feita pelo Stott: como Jesus foi manso?
A linguagem da Palavra em Cristo como pessoa é simples e inequívoca. Ele é o Homem aprovado por Deus. E o cristão deve almejar ser como Ele, para isso, é suficiente e excelentíssimo o caminho de seguir os seus passos.
De modo que é autoritativo se dizer, firmado nos registros de seus atos e feitos, “Jesus não faria...”, “Não vi Jesus fazendo isso...”, “Jesus fazia de forma diferente”, “Não se parece com Jesus”[44].
Jesus se torna, para o cristão, não só a chave das Escrituras, mas de toda a existência. O NIEBUHR pode dizer: “Um cristão é comumente definido como “aquele que crê em Jesus Cristo” ou como “um seguidor de Jesus Cristo”. Ele poderia ser mais propriamente descrito como alguém que se considera pertencente àquela comunidade de homens para quem Jesus Cristo – sua vida, palavra, feitos e destino é de suprema importância como chave para a compreensão deles mesmos e do mundo em que vivem, como fonte principal do conhecimento Deus e do homem, do bem e do mal, como companheiro constante da consciência, e como o esperado que os liberta do mal”.
E quem lê o Bonhoeffer, antes do Dostoievsky, entende que o Dostoievsky não está sendo exagerado.
O Bonhoeffer fundamenta:
Cristo libertou o ser humano de sua relação imediata com o mundo e o transportou para uma relação imediata com o mundo e o transportou para uma relação imediata consigo mesmo. ... Com sua encarnação, Cristo colocou-se entre mim e as circunstâncias do mundo ... não se colocou apenas entre mim e Deus, mas está igualmente entre mim e o mundo, entre mim e os outros seres humanos e coisa. Ele é o Mediador ... Desde Cristo já não há nenhuma relação imediata”.
O Fiodor Dostoievsky embeleza:
Às vezes, Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais humano, de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade."
  
Apêndice I
BARTH
O Barth merece umas anotações à parte. Conhecemos o pífio preconceito com que esse grande teólogo tem sido recebido no Brasil. Aos leitores de língua portuguesa, o Barth foi tardiamente apresentado: quando a Fonte editorial e algumas outras editoras passaram a publicar algumas de suas obras. Antes disso, a visão que se tinha dele, em grande parte, era através da tutela fundamentalista: com suas caricaturizações e demonizações. Para o blogueiro, por exemplo, é um xingamento associar qualquer teologia às idéias do Barth, que ele resume como neo-ortodoxia.
Como já sabíamos, o E. J. Carnell diz que o Fundamentalismo é “intransigente e inflexível; busca a conformidade e teme a liberdade acadêmica”.
O que eu busco aqui, entretanto, é uma maior liberdade para se discutir idéias e conteúdos. Afinal, a lucidez reformada original reconhecia que toda verdade é a verdade do Espírito.
O Franklin Ferreira diz que Barth defendeu a “inspiração” da Escritura[45] como um processo ativo de permanente iniciativa de Deus[46]. E o que ele rejeitou foi uma “qualidade ontológica da Escritura enquanto letra”.
Tanto Franklin como o Paulo Roberto Rückert, ao descreverem a teologia de Barth, fala em uma “Concentração cristológica[47].
Palavras do Barth:
A dogmática eclesiástica deve ser Cristológica no seu conjunto e em cada uma de suas partes. Pois o seu único critério é a Palavra de Deus revelada, atestada pelas Sagradas Escrituras e pregada pela Igreja; e esta Palavra revelada é idêntica a Jesus Cristo. Quando a dogmática não mais se entende nem sabe se fazer entender fundamentalmente corno Cristologia é porque, de certo, caiu sob domínio alheio”.
 
Para Barth, segundo Rückert, a Revelação “compreende toda a história da humanidade, que é a história da salvação, cujo ápice é a encarnação de Deus, a manifestação visível de sua Palavra - Jesus Cristo. O Antigo Testamento aponta para sua vinda e o Novo Testamento a recorda e sinaliza sua volta. Em Jesus Cristo Deus concede a humanidade, a chave que abre as portas para a compreensão do passado e do futuro”.
Jesus, como Palavra de Deus, pelo seu próprio conteúdo, é algo que “a Escritura se impõe a si mesma”.
A Bíblia “dá testemunho” da revelação que ocorreu com a vinda de Cristo. “Dar testemunho”, neste contexto, significa “apontar a uma direção definida além de si próprio a algum outro”.
A Escritura Sagrada faz nossos pensamentos convergirem para a manifestação de Deus em Jesus Cristo[48]. 

Se é verdade que a plenitude de Deus se agradou em fazer morada em Jesus Cristo (Cl 1:19), então o próximo passo para uma doutrina cristã de Deus é inevitável. Também se torna imediatamente claro em que direção esse passo deve acontecer.” “Jesus Cristo é Deus em sua manifestação ao ser humano.” “Deus não seria Deus sem o Filho sentado à direita do Pai” (Barth). 

Sem este ser humano e sem este povo, Deus seria um outro, um Deus estranho; de acordo com o conhecimento cristão, ele nem seria Deus.” Ao falarmos de Deus, nós precisamos imediatamente pensar em Jesus Cristo.

A relação entre Deus e o homem – o tema básico da teologia – foi demonstrada em Cristo de modo exemplar. Nele vemos refletido o modo de Deus tratar com o homem (também a ética de Barth) foi desenvolvida de acordo com sua cristologia.
Em sua Conclusão e Avaliação sobre a teologia de Barth, o Ferreira vai levantar entre as qualidades:
Que sua hermenêutica cristológica “é basicamente ortodoxa”. E diz: Realmente, sua concepção inteira firmemente trinitariana e cristológica é um corretivo contra as aberrações antropológicas e eclesiológicas das heresias dominantes em seu tempo[49].
O Ferreira também avalia criticamente a teologia de Barth, mas tem a honestidade de citar alguns dos que o viram “mais positivamente”: G. C. Berkouwer, Colin Brown, Bernard Ramm, J. I. Packer, George Ladd, Carl F. H. Henry, F. F. Bruce...
O Ferreira ainda deve ser parabenizado pelo modo como conduziu suas críticas. Ele achou necessário dizer “Não negamos os grandes méritos desse teólogo suíço”. E até “tem sido uma bênção indizível para todas as igrejas”. E quando se sentiu obrigado a discordar, disse: “nos entristecemos em discordar dele”. É a recomendação do Jonathan Edwards "O orgulho espiritual tende a falar dos pecados de outras pessoas com riso e leveza e um ar de desprezo. Mas a humildade cristã pura tende a ficar em silencioso clamor ou falar deles com tristeza e piedade."  

Apêndice II
FUNDAMENTALISMO

Se você quer brigar
E acha que com isso
Estou sofrendo
Se enganou meu bem
Pode vir quente
Que eu estou fervendo”
Uma das letras citadas pelo Yago.
  
"Toda a gente é ortodoxa para si mesma", John Locke

Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não consumais também uns aos outros”
Gálatas 5:14-15

Apesar de ser um termo inflacionado (que abarca uma multidão de significados), podemos dizer que o fundamentalismo é uma doença religiosa. E, de fato, muitos têm classificado o fundamentalismo como uma Psicopatologia religiosa. O Gunter Hole associa a características de personalidades de índole neurótica (paranoides, esquizitoides).
Todo mundo pode identificar um fundamentalista só ao vê-lo” escreve Miroslav Volf. E diz que normalmente é um tipo tremendamente beligerante, que resiste a aceitar um mundo que não é conforme seus rígidos princípios religiosos.
Em seu livro Piedade Pervertida, o Ricardo Quadros Gouveia assim define o Fundamentalismo: “o fundamentalismo é uma forma fanática e neurótica de religiosidade” que se defende contra as forças espirituais maléficas encarnadas “ora na ciência moderna, ora no humanismo, ora na reflexão crítica, ora na consciência sócio-política e econômica, ora na arte”. E sobre os efeitos relacionais dessa neurose: “Para o fundamentalista, o demônio é o “outro”... ele vê no outro (e na alteridade) uma ameaça.”
Volf diz: “ele e seus amigos são anjos de luz; seus inimigos, príncipes das trevas. Para ele não há meio termo”.
Como já citamos, Miroslav Volf fala de sua “decidida tendência a um exagero simplista”. E Gunter Hole os chama de “terribles simplificateurs” (terríveis simplificadores[50]).
Ainda ele, descrevendo fanatismo do fundamentalista, diz “A intensidade anormal na persecução e implantação de uma só atitude ou “idéia supervalorizada””. Ele fala sobre uma “total identificação com a idéia” e em inclinações de índole fundamentalistaespecialmente no que se refere a tendência a orientar, por um valor único sumamente determinado, todo o mundo de valores”. E diz de um fundamentalista/fanático: “é característico o estar ocupado por uma só idéia ou atitude de fé, que não permite junto a se nenhuma outra possibilidade”. E ainda fala na “atitude fundamental de alternativa radical (ou uma coisa, ou outra)” como componente estrutural de sua personalidade.
Petrilowitsch os descreve como possuindo “uma normal capacidade de perseverança obstinadas nas próprias convicções”.
Hole ainda cita a sua “incapacidade para auto-crítica” e as necessidades de autoconfirmação, imposição agressiva e validez absoluta.
O G. Marsden diz que: “Um fundamentalista é um evangélico com raiva de alguma coisa”. O Umberto Eco acrescenta: “Fundamentalistas dão um toque de arrogante intolerância e rígida indiferença para com aqueles que não compartilham suas visões de mundo”.
O fundamentalista, disse alguém, esconde sua violência atrás de pretensas boas intenções: e o Protestantismo de Reta Doutrina é uma mãe parideira deles.
E até a Bíblia se torna a fonte de maldades.
Com razão a Desciclopédia satiriza o perfil: “Eu apenas faço o que Deus manda...” (Fundamentalista se achando o filho fiel sobre única maneira de se sentir alguma coisa).
Sim, para um fundamentalista a verdade é uma navalha. Ela corta e separa. A verdade leva a beligerância e a olhar pretensiosamente de cima. A verdade é, absolutamente, o que eu acho dela, e, portanto, ela é eu.
Ele só vê na Bíblia o que ele quer ver. Assim, ele atropela toda a mensagem para subsidiar sua visão.
O James F. McGrath escreve: “o fundamentalismo me parece mais uma questão de orgulho que outra coisa. É um fato conhecido que as pessoas que aderem à infabilidade da Bíblia tiram conclusões muito diferentes acerca do que ela quer dizer. Apesar disso, na maioria das vezes, entre os fundamentalistas, a crença na infabilidade da Escritura é tomada como uma salvaguarda da infabilidade dos próprios pontos de vista” (Tradução livre).
E ainda fala sobre um “tratamento idólatra da Bíblia”, o que significa atribuí-la atributos que só Deus possui. E, assim, de igual modo, se idolatrar: “tem haver com tratar-se a si mesmo como infalível, e, portanto, elevar-se a si mesmo à categoria de divino”.
Desde às origens, o Fundamentalismo não existe sem o modernismo: é um parasita, define sua identidade pelos seus inimigos. Martin E. Marty fala no contra-ataque como “princípio constitutivo do fundamentalismo”. Diz que isso “determina as configurações de seus métodos, de seus postulados e inclusive de seus conteúdos teológicos”.
De onde, portanto, vem o sentimento homicida em relação ao Caio Fábio? Ora, por identificar na teologia do Caio Fábio conexões com o liberalismo teológico e a neo-ortodoxia: os inimigos da sua verdade. Muito natural, portanto, os termos de tratamento usado para o Caio Fábio: o demônio, o herege.
O pastor brasileiro Odayr Olivetti[51], falando sobre os perigos que há na colocação simplista de rótulos em pessoas, diz: “alguns dos perigos que vejo são os seguintes: (1) Injustiça: Geralmente, os rótulos expressam ou realçam aspectos, não a realidade integral. (2) Erro: Os rótulos podem refletir conceitos subjetivos do rotulador -- e não os conceitos das pessoas, das igrejas e dos movimentos rotulados. (3) Generalização: Características particulares podem ser indevidamente estendidas ao todo”. E ainda: “Não uso os termos liberalismo, liberais (senão entre aspas), porque o termo liberal é altamente positivo e salienta largueza de visão e liberdade de pesquisa”.
O Ricardo Quadros critica: “Como se o mero rótulo pudesse explicar a complexidade do pensamento de uma pessoa”.
Para um fundamentalista, vale tudo pela Bíblia/verdade! O que significa: vale ser CONTRA tudo. E é aí que a doença tem o seu sintoma mais grave:
O fundamentalismo é a perda gradual ou radical da realidade, por uma intransigência na obediência de princípios e regras”, Jorge Humberto. Ele ainda diz que o fundamentalista exerce esse modo de ser, surdo e mudo à toda a existência de fato. O Geiko Muller-Fahrenhoz diz que o fundamentalismo é conseqüência de alienação.
Com essa perda da realidade, ele deixa de ver a feiúra de seu comportamento. Pela “verdade”, ele perde qualquer alteridade. Com essa perda da realidade, ele se acresce intelectualmente (está sobre os ombros de Deus) e vê todos que discordam como pequeno.
Gunter Hole mais uma vez os caracteriza: “a estimação equivocada ou a superestima das próprias possibilidades”.

A tentação fundamentalista
Não posso terminar sem a séria observação de que reconheço que o fundamentalismo é uma tentação.
Como Miroslav Volf vai explicar:
O fenômeno fundamentalista, com seus aspectos positivos e negativos, suscita um problema teológico do mais diligente: se pode falar da realidade última e de suas pretensões sobre o mundo, sem adotar uma postura fundamentalista? O problema é tremendamente real. Não é muito difícil compreender porque um fundamentalista – ou, de fato, qualquer pessoa religiosa – pretenda falar sobre “a rocha incomovível” com absoluta segurança. Se essa “rocha viva” não acabar convertendo-se em “areia movediça” – como explica um conhecido discurso de Jesus no Evangelho-, o lógico é que minha crença nessa “rocha” seja tão sólida quanto a própria rocha. E a razão é bem simples: para mim, a “rocha” é o que eu creio sobre ela, porque só me é acessível através de minhas crenças e convicções de fé”.
O centro epistêmico e metafísico do discurso filosófico desde a filosofia moderna impôs condições que, em minha opinião, é o próprio despir da fé.
Se entrarmos na arena do debate, estaremos sujeitos às suas regras: e o agnosticismo tende a vencer. Porque, do que experimentei desse debate, a sensação que tenho é que, conforme Kierkegaard, a verdade é subjetividade. E fina é a linha em que, no público, as subjetividades se encontram.
Se a Bíblia é o pão metafísico que desce do céu na mesa do debate filosófico, pareceriam mais coerentes as posições do Gordon Clark: “No princípio era a Lógica... ela estava com Deus. Ela era Deus”. E do Norman Geisler: no debate, a lógica é anterior a Deus. Assim, a Metafísica e as regras da lógica teriam que ser matéria obrigatória da dogmática cristã: pois epistemologicamente, precederiam as Escrituras, que precederia Deus e Cristo. O chiste inevitável é que Aristóteles seria a chave hermenêutica de todo o sistema.
Assim, ao entrar no debate, a fé precisa explicar-se: e esse é o próprio fim da fé, que nasce no intangível da experiência Graça. Ela precisaria sair do seu âmbito. Isso não precisa ser radicalizado em fideísmo ou irracionalismo, mas certamente é místico. Conquanto que seja humano e racionalizável. É racionalizável dentro de um escopo mais abrangente do conhecimento e experiência humana: sem precisar se colocar no centro e nos termos do debate filosófico, sem fazer-se caber no âmbito estritamente racional. Até porque, como disse um teólogo francês medieval[52], “se Deus existisse como as coisas existem, então Ele não existiria”.
Mais uma vez, o antídoto para o fundamentalismo é a realidade, complexa como ela é. É o chão e a labuta hermenêutica. É a auto-crítica e a percepção de que é uma voz entre outras. Sua cura é a empatia. O reconhecimento do outro como autêntico cristão que pensa diferente e de sua respectiva interpretação como possível. Ele precisa descobrir que não tem o monopólio da verdade, que não é ele que é inspirado, e que a Bíblia sobreviveu e sobreviverá sem ele.



[1] Para saber mais, veja AQUI, AQUI, AQUI e AQUI!

[2] Em outro trecho ele fala em “solapar tudo aquilo que não gostamos na Escritura com a desculpa de que “Jesus não pregaria isso”. A Norma Braga também remete a mesma simplificação quando fala em um Jesus inventado de Caio Fábio. Ela ainda diz que "Cristo como a chave hermenêutica" é uma “velha ilusão liberal” e que, no final, “funciona apenas como desculpa para que o cidadão use e abuse da Escritura a seu bel-prazer, retirando dela o que não lhe convém”.

[3] Alguns diriam até da compreensão progressiva.

[4] Não uso esse termo no sentido técnico que designa particularmente a teologia dispensacionalista. Antes, o uso de forma mais livre, menos específica.

[5] Por que não se referem a isso como “rasgar”?

[6] Ver: Surpreendido pelo Poder do Espírito, John Deere.

[7] Hoje o valor teológico dos evangelhos é inegável: ver Missão Transformadora, David J. Bosch.

[8] Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras...

[9] Qual instituição, idéia e conceito não passa por Ele? Não ganha nEle seu real significado? O que se pode considerar, sem considerá-Lo?

[10] Embora ajam revisões, superações, abolições. Antes, é Cristo que dá Unidade à Bíblia. Philip Yancey diz que o Chesterton chama as tantas áreas de descontinuidade entre os Testamento de “opostos furiosos”, e que os mesmos “entrarão em harmonia e unidade em Jesus, o mesmo Jesus que parece fragmentá-los e distanciá-los”.

[11] O próprio livro devolve nossa atenção para a “coisa em si”.

[12] João é contundente: Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.

[13] Ver, por exemplo, Marcos 5.19. É freqüente nos evangelhos: o evangelho continua quando, nos evangelhos, ele termina. O evangelho, nos evangelhos, é só o começo. Ele continua, novo, na vida do que crê.

[14] Até quando admite divergência, Yago não flexibiliza: “...algumas coisas precisam ser claramente defendidas por qualquer posição que seja considerada cristã. Por mais que haja liberdade nos pontos secundários deste tema, um ponto central é inegociável: o Antigo Testamento é divino, inspirado, sagrado, infalível e útil para nosso ensino e instrução de todo aquele que crê em Cristo”. Mas, como o Feinberg mostra, há dúvidas sobre esse ponto central e inegociável.

[15] Novamente: A pergunta que eu me fiz, ao ler os textos do Yago, é se o problema dele é com o princípio ou com uma aplicação particular do Caio (com todas as pessoalidades aqui implicadas: a abordagem, a retórica, etc..).

[16] Perdoem-me a generalidade, apenas me utilizarei de poucos exemplos importantes para se mostrar como sempre se teve chaves na história da interpretação bíblica.

[17] Mas talvez não sobre a motivação: que muda completamente a forma como entendemos essa “mudança”. O Paul Athaus, por exemplo, afirma que nessa retratação, a omissão de algumas frases severas indicava não tanto uma mudança de pensamento, mas uma preocupação com o público e os prováveis mal entendidos. Ele diz que “Para si mesmo, e diante de seus alunos de teologia, ele manteve sua opinião crítica até mesmo mais tarde”. E ainda que “manteve até o fim de sua vida a diferença de valores dos livros que ele colocou juntos no fim da Bíblia, em relação aos “livros principais””.

[18] Não só Lutero. Quanto menos o princípio parecer “mentira de herege” – como o garoto quer, melhor.

[19] O pentecostalismo, por exemplo, tem mudado o eixo cristológico para o pneumatológico.

[20] Não se está discutindo se, particularmente, foi certa forma como o Caio fez.

[21] Se ele não dosou bem, é outra questão.

[22] Surto paulino.

[23] Ele diz que Lutero se arrependeu, mas conforme o Paul Athaus, vimos que isso não foi tão assim.

[24] Citado por C. S. Cowles.

[25] A Bíblia e seus intérpretes.

[26] Ele vai dizer que segundo a terminologia de Jose Ortega e Gasset, se poderia dizer que o indutivismo de Bacon e o realismo escocês baseado no senso comum constituem crenças fundamentalistas.

[27] Pluralismo aqui, leia-se: na própria tradição.

[28] Termo do Ricardo Quadros.

[29] "O calvinismo não é monolítico como alguns calvinistas querem fazer crer" (Ricardo Quadros).

[30] A Bíblia é quem promove: George Ladd: O pensamento de Paulo acerca da lei é difícil de entender porque ele parece fazer uma série de afirmações contraditórias”.

[31] Talvez por isso, considerem o que o Stott diz como um argumento cíclico. O Cristo real, fora do texto, sujeito da revelação, quebra o ciclo.

[32] Estou tendo o cuidado de deixar claro o caráter sugestivo do que eu digo.

[33] Ninguém vai ao Pai senão por Ele. O fundamentalista acrescentaria: e ninguém vai a ele, senão pela Bíblia. Mas teriam que admitir: ninguém vai a Ele, pela Bíblia, sem Ele.

[34] E é essa sensação que tenho em grande parte do que leio da teologia tradicional. A cristologia é parte.

[35] Há muitas interpretações sobre esse Deus absconditus: o Deus de ira, Predestinador... Mas aqui, ressaltamos o que, de Deus, Ele não quis revelar ou não quis que fosse o tom de sua revelação.

[36] Vamos falar sobre esse ponto da teologia de Lutero para mostrar que dentro da tradição ortodoxa se percebeu uma tensão dentro do Canon: e quem afirma tal não precisa ser, como muitas vezes falaciosamente tem sido, associado à Marcion.

[37] “De modo que nossa teologia é cristonormativa”.

[38] Atos 15: “não haveria debate se Jesus já tivesse dito que não precisavam se preocupar”.

[39] A interpretação que ele dá a guarda do sábado talvez seja a menos sutil das mudanças.

[40] “O marco referencial da revelação divina na era da nova aliança não seria mais a Palavra de Deus mediada por Moisés, mas a Palavra de Deus mediada por Jesus ... Os judeus puderam perceber nitidamente que, ao ler a Torá e os Profetas pelo prisma da pessoa e obra de Cristo, os apóstolos deslocavam o centro de gravidade da autoridade revelatória de modo fundamental”, C. S. Cowles.

[41] Mas nenhuma teologia está livre de ter que lidar com as tensões que existem na própria Escritura.

[42] Dificilmente poderia ser defendido da acusação de ter considerado um Canon dentro do Canon, de ter enfatizado a tensão. Quaisquer acusações que os blogueiros fazem ao Caio, cabem ainda mais a Lutero. Contudo, para os “ortodoxos”, Lutero é uma peça do seu próprio sistema.

[43] Ver, por exemplo, Antonio Mendonça de Gouveia.

[44] O mesmo risco de ser subjetivo e arbitrário se corre na leitura tradicional.

[45] E explicando sua teologia diz que “A doutrina da Palavra de Deus de Barth e sua cristologia correspondem-se reciprocamente”.

[46] Ela [Palavra] procede do próprio Deus, que permanece para sempre o seu sujeito, e por isso ela tem autoridade.

[47] Segundo Franklin, o próprio Karl Barth disse ter operado em sua Dogmática uma “concentração cristológica”. Ruckert a destaca como o aspecto mais importante, original e central da teologia de Barth.

[48] Apresentação conforme o Ferreira e o Ruckert.

[49] Nós achamos que não apenas em seu tempo. Barth ainda é relevante.

[50] Assim, dificilmente um fundamentalista discutirá o problema real, mas a sua caricatura.

[51] Tradutor dos quatro volumes de “As Institutas” de Calvino da edição original francesa de 1541. E já traduziu mais de 130 livros, de autores como Martyn Lloyd Jones e John Stott.

[52] Citação de Boff.

5 comentários:

  1. Olá amigo,

    Parabéns pelo seu estudo! O texto aborda amplas variáveis.

    Que você continue buscando ser preenchido pela insofismável e encarnada Palavra de Deus!

    Qualquer discussão ou criativa... Estou aberto para troca de conhecimento.

    Fica na paz!

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    1. Oi Régio. Obrigado pelas palavras. O espírito é esse. Espero ter ajudado. Há muito a pesquisar, e, dentro do que foi abordado, aprofundar. Podemos interagir sim. Abração. Paz.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Jesus sempre foi e será o caminho ,a porta e a chave para as escrituras , para vida e para tudo que existe! As escrituras fala sobre a pessoa de Cristo de forma limitada para que a nossa mente limitada , pois Ele é um ser ilimitado e não pode ser encaixotado nas Teologias.

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