domingo, 23 de fevereiro de 2014

A dimensão sobrenatural



Uma nova moda teológica: "A dimensão sobrenatural"

Juan Stam

Em vários meios de comunicação circula um convite para um grande seminário que leva o impressionante título "Vivendo o Sobrenatural". Um outro diz: "Nosso clamor a Deus é para teu milagre". Faz pouco tempo que escutei Rony Cháves chamar a todos a "entrar em um espaço profético".

Esta linguagem, e outras frases similares e muito relacionadas, estão se tornando comum no sempre sensacionalista jargão das grandes estrelas da igreja televisiva. É o EVANGELHO DAS OFERTAS levado ao seu limite, agora o de "VIVER NO SOBRENATURAL".

Em 2010, um pregador de nome Joel relacionou estes conceitos diretamente com a OFERTA que pedia como "SEMEADURA". "Entre em um novo nível", exortava o pregador, "por um posicionamento [ou ato de fé]. [Outro aporte impressionante ao léxico teológico!]. Diga agora mesmo, me uno a este tempo profético, tome já o telefone para fazer um pacto com Deus". A oferta é como a porta do céu!

Um corolário desta doutrina se chama "rompimento". Em inglês o termo significa sair de uma condição para uma nova. O "apostolo" Maldonado fala em "romper a um nível sobrenatural" e "intercessão de alto nível; uma oração sobrenatural". 

É muito impressionante a criatividade desses movimentos em inventar novas fórmulas, como se inventar novas frases nos comunicasse novas e profundas verdades. Mas sempre teremos que perguntar quanta base bíblica tem essas novidades e quão fiel bíblica e teologicamente são suas propostas para a vida de fé. 

A quê se deve este estranho afã de "irromper na dimensão sobrenatural"? Poderia-se interpretar como um anelo de escapar do humano e do histórico? Ou pior, uma ambição implicitamente idolátrica de subir ao céu e ser um pouco igual a Deus? Ou será simplesmente mais uma tática de alguns pregadores que, sem ter algo sério e bíblico para dizer a seus ouvintes, se afanam em inventar novas frases e conceitos exóticos para entreter a seu público e manter sua própria popularidade e êxito?

Texto original e completo: AQUI

sábado, 22 de fevereiro de 2014

¡adelante!



JUAN STAM



 
Em 2011, pela via do site Kairós, do ministério de Rene Padilla, conheci o Juan Stam. E tive que traduzir o seu texto - O que a Bíblia ensina sobre “maldições hereditárias”? Esse texto foi também significativo por marcar o tempo em que adentrei nessa nova aventura de traduzir textos do castelhano. Sou um tradutor amador: de fato, o faço por amor. O faço como experiência de aprendizado da linguagem, e para a expansão bibliográfica. Não faço porque sei, faço para saber.

Foi, contudo, em 2013 que adentrei no pensamento desse grande teólogo. Li muito do material que disponibiliza em seu sítio na internet. Traduzi alguns. Não demorou, e o adotei como mentor.

Uma das coisas com as quais mais me identifiquei com o Juan Stam, foi o seu fazer teológico com comprometimento e fidelidade às Escrituras, e sua tradição evangelical. Contudo, sem conservadorismo acrítico. Sem o reducionismo fundamentalista. Isso tudo me soou novo justamente porque no Brasil o evangelicalismo é encoberto pela neblina do fundamentalismo.

Ele se define como evangélico católico, evangélico pentecostal. Ou ainda: um evangélico conservador/liberal: o que é possível apenas com fé/fiel, enraízada, e com crítica.

Outro forte ponto de identificação foi a relevância do seu profetismo. Ele aplica a teologia aos problemas atuais: opina sobre o mundo, sobre a política, sobre a má teologia. 

No Brasil ele tem divulgação bem modesta. A Novos Diálogos publicou seu livro em 2012, que eu adquiri e li, As boas novas da criação. Um dos seus artigos com relativa divulgação foi Proponho uma moratória - [Igrejas e homofobia]. 

Neste ano, quis retomar as traduções. Quando lhe pedi autorização para fazê-lo, ele me respondeu de pronto: “Claro que sí, hermano, ¡adelante!”

Pretendo publicar um texto por semana. 

Hoje, contudo, começo com uma pequena apresentação do autor/teólogo/pastor/profeta. Para tanto me utilizarei de três de suas respostas à perguntas específicas feitas em entrevistas diversas.
 

***

Juan Stam é um escritor de origem norteamericana, oriundo de Paterson, Nova Jersey, mas é naturalizado na Costa Rica, onde reside. Há mais de cinqüenta anos na América latina, já tem sangue latino-americano. Doutorou-se em Teologia pela Universidade da Basileia, Suíça, onde estudou com Barth e Cullmann. Pós-doteorou-se na Universidad de Tubinga, Alemanha, onde estudou com Hans Küng e Jürgen Moltmann. Especializou-se em Escatologia no Fuller, onde estudou com George Ladd. Foi docente universitário em várias instituições. E é autor de vários livres e artigos. É conhecido pelo labor profético, questionando os pecados nacionais e internacionais. Por tudo isso,  certamente é um dos teólogos evangélicos de grande relevância. É preciso, pois ouvi-lo.


I
Foi aluno de Karl Barth em Basilea, o que aprendeu com ele nesses anos?

Antes de irmos continuar nossos estudos em Basilea, um líder de uma de nossas igrejas nos Estados Unidos questionou nosso projeto e nos disse: “o que vocês podem aprender de Karl Barth, se ele sequer é cristão?”. Bem, acabamos aprendendo muito, e, para começar, aprendemos que a família de Jesus era maior que nosso estreito círculo. Encontramos em Karl Barth um irmão na fé com costumes diferentes dos nossos, e uma linguagem às vezes distinta, mas com o mesmo Cristo, as mesmas Escrituras e a mesma fé. 

Barth nos ensinou muito sobre metodologia teológica. O enciclopédico de sua dogmática correspondia a sua visão amplíssima do fazer teológico. Levava a Bíblia a sério e fez trabalhos exegéticos muito valiosos. Ademais, sempre tinha presente a perspectiva histórica dos séculos de pensamento cristão.

Nunca tocava um tema desconectado de suas raízes no passado. Às vezes, mantinha um constante diálogo com toda a teologia contemporânea. Em seu pensamento, unia teologia e ética como nenhum teólogo havia feito antes. Sua personalidade e sua maneira de ser nos ensinaram muito sobre a vida do cristão e do teólogo. El fazia todo seu labor teológico com os olhos fixos em Jesus Cristo. Por isso, vivia a teologia com exuberante alegria. Mesmo sendo famoso, víamos nele uma genuína humildade. Por exemplo, sempre estava disposto a perguntar-nos que pensávamos ou o que diziam os outros professores sobre os temas que discutíamos. Em fim, era um grande ser humano. 

Por outra parte, nunca me senti tentado a converter-me ao «barthianismo» (Barth mesmo dizia que tampouco ele era «barthiano»), mas sua pessoa e seus ensinos aprofundaram minha compreensão da graça de Deus e me fizeram mais evangélico. Eu cria nas doutrinas evangélicas intelectualmente, mas Barth me ensinou a viver diariamente no gozo e na liberdade da graça de Deus.  

II

Perguntado sobre as influências que teve, fez o resumo que segue. Fiz algumas.

Meu primeiro livro foi, é e será a Santa Bìblia, Palavra inspirada pelo Espírito de Deus. No Seminário Fuller lia obras de teologia sistemática (Calvino, Hodge, Strong) e hermenêutica (Terry), mas me inspirei nos textos dos jovens autores neo-evangélicos (Ramm, Ladd, Carnell, Jewett, Berkouwer), que até hoje seguem sendo fundamentais para minhas convicções. Um curso com George Ladd sobre exegese do Apocalipse marcou o resto de minha vida, enquanto tema e método de análise. Uns anos depois, em nosso apartamento em Basileia, Suiça, Ladd nos inspirou com um valiosíssimo conversatório sobre os métodos históricos na teologia. 

Ademais, sempre tive presente especialmente a Kierkegaard, Karl Barth e Emil Brunner (além de Tillich e Bultmann), acompanhados por René Padilla, Samuel Escobar, Pedro Arana, Rolando Gutiérrez, José Míguez-Bonino e outros  latinoamericanos.

III

Se fosse feito uma radiografia da igreja na América Latina, qual seria o diangótico?

Hoje em dia nas igrejas protestantes da América Latina se pode encontrar qualquier coisa, desde "apóstolos" e prosperidade até guerra espiritual e maldições hereditárias. E, claro, não pode faltar o dízimo. Mesmo quando alguns desses pontos forem válidos, nenhum é central à mensagem do evangelho. 

O mais grave nesta situação é que as igrejas proíbem o exame crítico e não permitem pensar. O crente fiel é o que diz “amém” a tudo sem questionar nada.  Cita-se constantemente: "Não julgueis", mas nunca: "julgai por vós mesmos" ou "examinando tudo". Pessoalmente, em toda minha vida e nos últimos anos em meu site ( juanstam.com ), tenho promovido uma sã criticidade, com certo êxito mas com muitos casos de denúncias por "murmurar" oo por "tocar no ungido de Deus". Uma revisão rápida das respostas aos meus artigos sobre “apóstolos”, profetas, dízimos e maldições, revela que a grande maioria não tem entendido bem minhas razões, tampouco tem analisado acertadamente tanto a minha quanto as suas posições.  

Em outro lugar nessa mesma entrevista, ele diz: “Em geral tem havido uma espécie de banalização do evangelho, com "gritos de vitória", patadas no diabo, teologia da prosperidade e outras aberrações”.