domingo, 30 de março de 2014

Tu Não És Como O Tenho Imaginado






Tu Não És Como O Tenho Imaginado

Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.

Lamento todos os meus pecados.

Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.

Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.

Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.

Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.

Tua claridade é minha escuridão. Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.

Se eu te imaginar, estarei errado.

Se Te compreender, estarei enganado.

Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.

A escuridão me basta.

Thomas Merton

sábado, 29 de março de 2014

A beleza de Deus





A beleza de Deus
A teologia da graça e a graça da teologia

Juan Stam
Tradução: Eric

Desde muitos anos me sinto convencido, com cada vez mais convicção, de que a teologia evangélica, como teologia da superabundante graça de Deus, deve superanbundar também com graça em seu estilo teológico. O paradigma cristológico para todo teólogo é o Verbo encarnado, que veio "cheio de graça (inclusive em seu aspecto estético) e de verdade (aspecto ético) de modo que nele "vimos à glória de Deus" (João 1.14). Além da lei – ou de nossa seca teologia sistemática --, Cristo mostrou a graça e a verdade de seu Pai, "e temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça" (1.16s).

A graça é mais que um conceito teológico abstrato; implica amabilidade, beleza, encanto. Segundo o professor H. H. Esser, "os termos da raiz grega char indicam o que produz agrado" (Coenen 2:236). Em grego clássico, muitas vezes charis era intercambiável com chara (gozo) e chairó (gozar), para referir-se ao que deleita no belo. Usava-se da formosura de uma mulher bela, como a esposa de Hefaisto, ou das “sete Graças” que repartiam a beleza, a elegância e o encanto entre os seres humanos. Às vezes descrevia uma maneira charmosa e agradável de falar, uma linguagem encantadora (Lc 4.22; Col 4.6; Ef 4.29).

O teólogo contemporâneo que mais refletiu sobre a beleza de Deus, e por isso da teologia, foi Karl Barth, sobretudo em sua exposição da glória de Deus (Church Dogmatics II/1 640-677). Barth vê a beleza de Deus subordinada a sua revelação, como "a figura e forma" de sua auto-manifestação, "com a qual nos ilumina e nos convence e nos persuade" Em sua revelação, "Deus é belo, divinamente belo, belo à sua própria maneira" (650). "Deus atua como aquele que dá prazer, cria e premia com o gozo do desejado" (651). Deus se revela assim e atua assim, porque é assim, porque é belo e desejável, cheio de gozo (ibid).

Séculos antes de Karl Barth, Santo Agositnho expressou esta verdade em um testemunho comovedor, citado por Barth em sua exposição: 

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora de mim. Como um animal buscava as coisas belas que tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Mantinham-me atado, longe de ti, essas coisas que, se não fossem sustentadas por ti, deixariam de ser. Chamaste-me, gritavas-me, rompeste minha surdez. Brilhaste e resplandeceste diante de mim, e expulsaste dos meus olhos a cegueira. Exalaste o teu Espírito e aspirei o seu perfume, e desejei-te. Saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e abrasei-me na tua paz (Confissões).
Aqui encontramos a razão mais profunda, fundamentada na própria pessoa de Deus, para a estética do discurso teológico evangélico. Como reflexão sobre a graça e a glória de Deus – e oxalá, reflexo delas – a teologia deve ser a mais bela de todas as disciplinas intelectuais. Tradicionalmente se tem descrito como "a rainha das ciências", mas quase sempre pela coerência e a simetria de seu sistema racional. Com todo apreço pelo valor estético de uma boa argumentação (cf. Anselmo, Cur Deus homo 1.1), é um erro ver "o sistema" como o fim e meta do teologizar ou de ficar embelezado só pelo brillo racionalista dessa forma tradicional de teologizar. Acima de tudo, sua beleza deve refletir a formosura da graça e da glória de Deus sobre quem reflete e a quem adora.

A teologia, sem perder seu rigor intelectual, é chamada a ser um ato de adoração. Desde o dia de Pentecostes, nós teólogos temos a tarefa, com os carismas que o Espírito reparte, de explicitar ante as nações "as maravilhas de Deus" (magnalia dei, Atos 2.11). A teologia também é chamada a adorar e servir a Deus "na formosura da santidade" (Sal 29.2; 96.9; 110.3). O anelo, a tarefa e o privilégio dos teólogos é o de "estar na casa de Yahvéh...para contemplar a formosura de Yahvéh, e para inquirir em seu templo" (Sal 27.4). A teologia deve viver em contínua atitude de adoração.

A seriedade acadêmica da teologia, sua veracidade e sua criticidade, não devem apagar o aspecto de assombro e maravilha no teologizar. Tem-se afirmado, creio que com razão, que tanto a filosofia como a teologia nasceram do assombro: a filosofia, com Tales de Mileto, ante o mistério do céu e as estrelas; a teologia, com a fé, ante o mistério de Deus e a salvação. Por outro lado, a modernidade, a partir de Descartes, suplantou esse ponto de partida por outro, a dúvida. Mesmo se esse método cartesiano da dúdivda sistémica possa ter muito valor para outras disciplinas, para a teologia é uma armadilha fatal. A boa teologia parte da fé (Agostinho, Anselmo), depois sujeita seus conceitos aos fogos do mais rigoroso exame crítico até forjar convicções  firmes, e termina de novo no assombro e na adoração.

Em última análise, o teologizar autêntico nasce do amor – um profundo amor a Deus, a Cristo, ao próximo, ao evangelho, às escrituras, à igreja, ao reino de Deus e (em nosso caso) a América Latina. Teologizar é obedecer ao mandato do Senhor, de amar a Deus com toda a mente (Mt 22.37) e de "levar cativo todo pensamento à obediência a Cristo" (2 Co 10.5). A motivação suprema do teólogo segue sendo a do grande teólogo missionário do primero século: "O amor de Cristo se tem apoderado de nós" (2 Co 5.14). Para adaptar a descrição que fez Santo Agostinho do filósofo, podemos afirmar que verus theologus amator Dei est. O antigo pai expressou com profunda emoção e transparente sinceridade sua própria motivação teológica:

“Amo-Te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a Tua palavra, e eu amei-Te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que Te ame... Quando amo o meu Deus amo uma certa luz, e uma certa melodia, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, melodia, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus”.
Todo teólogo é um amator Dei, um enamorado de Deus, e não tem vergonha de confessá-lo mas realiza todo seu fazer teológico desde esse poço profundo de amor.

sábado, 15 de março de 2014

A Chave para o Apocalipse: entrevista com Juan Stam





Juan Stam: Leiamos o Apocalipse em perspectiva pastoral


Juan Stam é autor de diversos livros sobre o Apocalipse, entre eles: “Apocalipsis y profecía”, “Escatología bíblica y misión de la iglesia”, “Profecía bíblica y misión de la iglesia. Hasta el fin del tiempo y hasta los fines de la tierra”, y “Comentario del Apocalipsis” (4 tomos). É autor também de “La misión en el Apocalipsis”, em  Bases Bíblicas de la Misión,  René Padilla (ed.). Tem escrito numerosos ensaios e artigos de “Apocalipsis y el Imperio Romano”,  em Lectura Teológica del Tiempo Latinoamericano.


Pergunta. Tenho entendido que você tem ensinado muito sobre o Apocalipse. Muitos pensam que este livro é muito difícil e até aterrador... 

Resposta. Eu posso dizer que minha vida tem sido toda uma aventura emocionante com o Apocalipse, especialmente desde meus estudos com meu amado professor George Eldon Ladd, no Seminário Fuller. Estive escrevendo um comentário exegético de quatro volumosos tomos sobre esse livro. Estudei cada versículo no grego original, consultando às vezes até cem livros sobre um versículo (comentários, léxicos, dicionários bíblicos, textos de teologia bíblica e de teologia sistemática e livros de história antiga), lutando por captar o significado do texto. Comecei o comentário quando estava relativamente jovem e terminei já velho. Para concluir meu comentário cito a um copista antigo que ao fim de seu longo manuscrito escreveu, "O fim, graças a Deus".

Creio que o Apocalipse parece difícil e espantoso só porque o lemos mal. A chave para entender bem este livro é lê-lo da perspectiva pastoral. Definitivamente, João tinha coração de pastor. Desde o princípio se apresenta como "Eu João" (1;4), assim, simples, sem títulos, e como "irmão e companheiro de vocês" (1:9). Em seguida introduz sete cartas pastorais (Ap 2-3), algo sem paralelo na vasta literatura apocalíptica. Em cada capítulo, cada página, fala um pastor para suas ovelhas. Lido pastoralmente, é uma poderosa mensagem de esperança, não de medo.

Como pastor, João fala do que afeta e preocupa a sua congregação, em uma linguagem que eles pudessem entender. Até os simbolismos eram já conhecidos, fáceis de decifrar. Suspeito que para eles o Apocalispe era um dos livros mais fáceis de entender. É certo que hoje encontramos alguns detalhes difíceis, principalmente porque não temos algumas chaves de interpretação, mas me atrevo a dizer que não há nenhuma passagem (ou parágrafo) cujo significado não seja discernível hoje. No início de meu comentário escrevo que o Apocalipse é para os valentes mas também para os humildes, que sabem dizer “não sei” quando não sabem. Se alguém pretende entender tudo, melhor não dar-lhe crédito em nada porque não sabe que não sabe, e só inventa respostas.

É evidente no livro que um dos problemas que mais preocupava ao pastor João era o culto ao imperador romano. Éfeso, onde residia João, tinha em sua avenida central um enorme templo ao imperador, onde lhe adoravam, faziam sacrifícios, oravam e o adoravam em todo sentido. Faziam procissões com uma estátua do imperador, e as famílias devotas e patriotas colocavam mini-altares em frente a sua casa. Não participar em tudo isso acarretava grandes sacrificios e perigos. No caso do Apocalipse, contextualizar o livro significa buscar os livros de história romana e captar os argumentos políticos e econômicos que estão no Apocalipse.


Pergunta. Então, o livro do Apocalipse não é profético?

Resposta. É um erro entender "profecia" como equivalente exato de "predição" ou "vaticínio". Os escritos proféticos do Antigo Testamento (De Isaías a Malaquías) contêm algumas predições, mas é de fato muito pouco. O profeta é profeta não porque prediz o futuro mas porque traz uma palavra viva de Deus para o povo de Deus. O medular do ofício profético é denunciar o pecado e a injustiça e anunciar a promessa de Deus. Fee e Stuart, em seu livro muito valioso La lectura eficaz de la Biblia  (Editorial Vida), assinalam, com base em uma exegese cuidadosa dos textos proféticos, que só 5% desses livros tinham algo haver com o futuro, geralmente muito próximo, cumprido séculos antes de Cristo. Ademais, segundo Fee e Stuart, só 2% é messiânico e só 1% pode ser todavia futuro. O 95% que não tem nada haver com o futuro não é menos profético por não ser preditivo.

As visões do Apocalipse podem ser do futuro, mas não sempre nem necessariamente. Também podem ser do presente de João (as sete igrejas). Nas visões, os verbos estão em tempo passado, não futuro. No desenrolar de sua mensagem pastoral João passa do presente ao futuro (1:5-9), do futuro ao presente (1:10) mas também do futuro ao passado remoto (de 11:15-29 a 12:1-3 e seguinte). É um erro dar uma preferência a priori a interpretações futuras, como também é um erro começar com um pré-juizo contra elas. João não era nem futurista nem preterista, mas pastoral. Agora é nossa tarefa exegética decidir pelas evidências como entender cada passagem.


Pergunta. Deve ser difícil convencer as pessoas dessa interpretação do Apocalipse e mudar suas idéias sobre temas como o rapto. Como tem conseguido fazê-lo?

Resposta. O mestre bíblico tem que ser um "Cupido da Palavra", muito enamorado de Deus e sua Palavra e apaixonado por enamorar a outros. Isso é um grande desafio com um livro tão temido como o Apocalipse, que foi acostumado a ser lido com uma forte dose de "espantologia besta-cêntrica". Tenho visto muitíssimas vezes que quanto este livro é lido como uma mensagem pastoral cristocêntrica, as pessoas perdem esse medo mórbido e começam a vivê-lo como luta e esperança. E encantados pelo livro, sempre, praticamente sem exceção, terminam enamorados/as do Apocalipse.

Ante o desafio de superar os prejuízos e tradições, tenho desenlvovido meus próprios métodos de ensino. Começo conversando sobre a diferença entre os desafios da boa interpretação e lhes sugiro três ferramentas básicas para o estudo bíblico: uma lupa, para ver bem o que está no texto e o que não está (ilustrando com muitos exemplos); um apagador para tirar da nossa mente o que não está no texto (isto os prepara psicologicamente para deixar ideias não-bíblicas por interpretações mais fiéis ao texto), e terceiro, um par de audiofone (para escutar a voz de Deus e fazer sua vontade). Para ajudarmos a localizar-nos no primeiro século, faço "entrevistas" com João de Patmos. Quando lhe perguntei, por exemplo, se seu livro profetizava televisões e computadores (1:7; 13:18), a pergunta lhe confunde totalmente e nos damos conta que não tem a menor ideia da energia elétrica. 

Muito do Apocalipse é drama e se entende melhor com dramatizações. Converter em ação dramática o grande culto no céu (Ap 4-5) ou a meia hora de silêncio (8:1-6) contribui mais para a compreensão dessas passagens, muito mais que dez comentários de grego. Toda a segunda metade do livro (Ap 12-20) é um drama, profundamente significativo, da grande luta entre o dragão e o Cordeiro. Por outra parte, sinto que comecei a entender o relato das duas testemunhas (11:3-13) quando assisti uma dramatização. Entraram as duas testemunhas e começaram a soprar fogo e a matar pessoas(11:5), enchendo  o piso de cadáveres. Nisso entra a besta e ameaça as duas testemunhas, os quais, confiados em seu poder sobrenatural, sopram juntos; mas que supresa!, o fogo não sai. A besta os mata e há dois cadáveres a mais no piso. Os impíos celebram sua morte com uma tremenda festa, mas depois de vários dias um deles abre seus olhos e outro começa a mover os braços, e ressuscitam e entram vitoriosos na presença de Deus.

Temos que viver o Apocalipse, temos que lê-lo com todos os sentidos de percepção: a vista, o ouvido (e o silêncio), o olfato e o paladar. Neste livro "incenso" não é só uma palavra, é uma fragrância que alguém começa a sentir (8:3). A igreja de Laodicea dava a Jesus vontade de vomitar (que sabor mais horrível!), mas ao final Cristo está batendo a porta (tato) porque quer comer com eles (de novo, o gosto, só que bom).

Que livro mais maravilhoso e emocionante!

Tradução: Eric Brito Cunha

Site: Protestantedigital

sexta-feira, 14 de março de 2014

O ESSENCIAL sobre a Vida Cristã: em 5 Insights






O ESSENCIAL sobre a Vida Cristã: em 5 Insights


Vós sois a luz do mundo... Vós sois a luz do mundo.


Ler Mateus 5.38-48


I
Se alguém me pedisse para buscar marcas qualitativas que caracterizassem um cristão, eu logo abriria o Sermão do Monte. E, conforme a história da igreja, eu não estaria só: esse sermão é considero o miolo ético dos ensinos de Jesus.
A mensagem do Sermão do Monte é o Seu Pregador, a ética ali presente, a Sua natureza. O fim é ser como Ele. O padrão é os Seus passos: sua vida, atos, ensinos...


II

O teólogo Juan Stam escreveu buscando uma definição de RADICAL: “A definição básica de "radical", segundo o Dicionário Real Academia, é "pertencente ou relativo à raiz" ou "fundamental, de raiz". A pessoa radical vai à raiz das coisas e as leva, sem covardia nem cálculos, até suas últimas conseqüências”.
E, após, admitiu: “Através de minha larga peregrinação venho descobrindo que muitas das sagradas tradições que herdei não correspondiam aos ensinos bíblicos nem as verdades da fé. Venho aprendendo que os tabus fundamentalistas não eram mandamentos divinos absolutos, e que a voz de Yahvéh me vinha exigindo condutas novas, em meio ao mundo e da historia, que nunca me haviam ensinado. Em outras palavras, o evangelho me radicalizou”.
Ser radical é requisito para se discernir o que não é o evangelho.
Para ele, a radicalização no evangelho tem haver em afirmar o evangelho até contra as tradições – geralmente proibições – que se querem fazer passar por implicações do evangelho.
Também da experiência do teólogo, as raízes no evangelho nos amplia a visão para vermos o que, no evangelho, se chama de mal, e para as muitas possibilidades de bem.
Nesse sentido trabalhado pelo Stam, não ser radical é ser, de algum modo, superficial. É se desperdiçar no que é secundário.
E novamente estamos diante da pergunta sobre o que é essencial.


III
Em Gálatas 5 Paulo faz uma lista dos Frutos do Espírito: e todos têm haver com a relacionalidade ou nela tem a melhor de sua manifestação: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade.
A marca, a característica, o fruto do Evangelho, a qualidade cristã de modo inequívoco manifesta-se nas nossas relações. 


IV
Trechos do texto A DIVINA PERFEIÇÃO HUMANA, de Ed Rene Kivitz

A espiritualidade segundo Jesus está no amor que se manifesta nas relações concretas. O caminho de Jesus não é da contemplação metafísica, mas do engajamento relacional. A experiência espiritual cristã implica moral, lei e ética: como reagir a uma violência sofrida, como conviver com o opressor (soldado romano que pratica a extorsão – capa e túnica, e o abuso de poder – obriga a carregar a armadura), como agir e reagir em relação aos inimigos.
A moral cristã se expressa na lei, mas também a excede: Deus ama bons e maus.
A bondade, segundo Jesus, está na capacidade de desenvolver relações que transcendem a moral e a lei: virar a outra face, entregar a túnica e a capa, caminhar duas milhas. Os seguidores de Jesus não ignoram as relações de justiça, mas vivem à luz do valor maior...
O amor segundo Jesus implica a ... incapacidade de praticar a maldade. O maior mal que o malvado pode nos fazer é nos tornar malvados. O coração incapaz de fazer o mal é semelhante ao coração de Deus.
O malvado diante de nós sempre nos interpela com duas opções: ou nos arrasta para dentro de sua maldade ou nos impulsiona a transcender o mal...
Encharcados de amor, somos capazes de sofrer danos sem perder a alma e reagir ao mal sem que o mal se apodere de nós. Para isso, precisamos nos esvaziar de nosso senso de méritos e direitos, nos identificarmos com o mal e os malvados, de modo a sermos libertos daquilo que mantém nosso ego aprisionado: perder as coisas é uma oportunidade de ganhar a alma. Perder bens penúltimos pode ser um caminho para ganhar os bens últimos.


V
Implicações

Em seu artigo, O TEMPO E AS JABUTICABAS, o Rubem Alves ensina através de uma história como a percepção do essencial define nossa agenda e pautas. Ele diz: 

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela  menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela  chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades”.

Por tudo isso, acho os clássicos tabus de igreja evangélica: não fumar, não beber, não dançar, não ir ao cinema (ou não assistir novela), Globo, Disney, Coca Cola, não jogar cartas ou jogos de azar ou apostas, marchas políticas “para Jesus”, não ouvir música “do mundo” - acho tudo isso um extremo reducionismo, um empobrecimento dos conteúdos éticos, uma distorção da identidade cristã, uma negligência aos bons conteúdos cristãos e um incalculável desperdício. 

Se fosse capitular a luz que não se esconde e o sal que salga, ele seria como o “inimigo” e “herege” samaritano que é o herói da história de Jesus porque diante de uma necessidade humana não levanta questões religiosas ou políticas. Ele faz o bem, e nem se identifica. Ele é livre. Ele, diante da tragédia do seu adversário, não tece teses sobre o pesar da mão de Deus ou sobre como Deus estava sendo justo em puni-lo. Ele não teologiza. Ele vê o mal e o condena: sendo bom. Ele sequer é prosélito. Ele está convencido que o bem vale a pena por si. Ele não acabou com a fome no mundo, deu “pão” para o corpo e descanso para alma. Não deixou digital. Ele foi o herói da história de Jesus porque foi como Jesus: ele foi pequeno, ele foi especial no seu cotidiano. Ele não sabe o gosto que dá! Não sabe luz que irradia! Eu queria que no centro das discussões éticas dos cristãos, a justiça de Deus e a expressão do Seu reino fossem a pauta. Mas o léxico evangélico não nega: eles veiculam muito pouco o Reino, e se expressam com um moralismo que não é uma exclusividade desse cristianismo. Aliás, religiões com distâncias históricas se reúnem sob as causas da moral – aborto, homossexualismo... Para mim, esse reducionismo é mais uma forma de perder o sal.