domingo, 1 de junho de 2014

O inseto que inseticida






Esqueci que levo tombo como qualquer um
Esqueci que levo tombo, esqueci que sou normal
...
Eu sou diferente, igual a todo mundo
Sem Você eu não sou ninguém
Eu sou igual a todo mundo
Não existe superman

Superman, Fruto Sagrado


Escrevo com sangue. Primeiro, pela imagem geral que os evangélicos têm: moralistas, intolerantes, sectários, indiferentes... Segundo e principalmente, porque tenho a convicção de que o Evangelho humaniza. Torna aqueles que toca mais humanos, sensíveis, generosos, bondosos, compreensíveis, misericordiosos. 


O escritor Philip Yancey refletindo sobre o papel da igreja na sociedade contrapõe o comportamento que ele chama de “inseticida moral” ao daqueles cujos olhos foram “curados pela graça”. Tais olhos, jamais serão implacáveis contra uma fragilidade tal qual a sua. Esse é o espírito. O padre Henri Nouwen fala em “feridos que curam”. 


O Evangelho salva pecadores. Jesus veio para os doentes.


O moralista não tem espelho!


O moralista lê a Bíblia a seu favor, e contra o outro.


O moralista se aprova naquilo que condena nos outros.


O cristão é aquele que, antes de tudo, sabe que é pecador. 


O Millôr Fernandes disse uma coisa instigante: "São admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem". E, para começar, eu sou a pessoa que eu conheço muito bem.


O C. S. Lewis vai dizer: “Nenhum homem sabe o quanto é mau até que tenta ser bom”. 


E, analisando-se, disse de si mesmo: "Pela primeira vez examinei-me a mim mesmo com um propósito seriamente prático. E ali encontrei o que me assustou; um bestiário de luxúrias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados. Meu nome era legião."


O Nelson Rodrigues desafia o moralista: "Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava." E ainda: "A confissão de virtudes não interessa nem ao padre, nem ao psicanalista (...) ou o sujeito confessa uma torpeza ou não está confessando nada". 


O Dr. Merville Vicent, do Departamento de Psiquiatria da Escola Médica de Harvard, foi feliz quando disse em 1972: “suspeito que na visão de Deus somos todos desviados sexuais”. E o diz tendo em vista as palavras de Jesus: “todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”. 


O cristão tem espelho. 


O cristão sabe de si, e sabe de Cristo. Pois do contrário, cairia em desespero. Diz o Pascal: “o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar”. 


Mas ele não se torna independente da Graça de Cristo. Ele continua pecador: simul justus et peccator (ao mesmo tempo justo e pecador), Lutero.


Calvino fala de abraçarmos a misericórdia com firme fé, mas também de "nela descansarmos com esperança CONSTANTE".


Por outro lado, ainda que alcançados pela misericórdia, o cristão não se torna, necessariamente, melhores que outras pessoas. Melhoramos em relação a nós mesmos. O C. S. Lewis explica da seguinte forma:


Por que nem todos os cristãos são evi­dentemente melhores do que os não-cristãos? Por trás des­sa pergunta existe algo perfeitamente razoável e algo que não é razoável de modo algum. O elemento razoável é o seguinte: se a conversão ao cristianismo não melhora em nada as ações exteriores de um homem — se ele con­tinua sendo tão esnobe, tão rancoroso, tão invejoso ou tão ambicioso quanto era antes - devemos, na minha opinião, suspeitar que sua "conversão" foi, em grande medida, imaginária ... Bons sentimentos, novas idéias e um in­teresse maior pela "religião" nada significam se não me­lhoram nosso comportamento, assim como o fato de um doente se "sentir melhor" de nada aproveita se o termô­metro mostra que sua temperatura ainda está subindo. Nesse sentido, o mundo exterior tem toda razão de jul­gar o cristianismo pelos seus resultados. O próprio Cris­to nos mandou julgar pelos resultados. A árvore é co­nhecida pelos seus frutos; ou, como dizem os ingleses, a prova da sobremesa está no comer. Quando nós, cris­tãos, nos comportamos mal ou deixamos de nos com­portar bem, fazemos com que o cristianismo perca cre­dibilidade aos olhos do mundo exterior. Os pôsteres da época da guerra nos diziam que "Palavras descuidadas custam vidas" [Careless talk costs lives]. Com a mesma verdade podemos dizer que "Vidas descuidadas custam palavras".



Mas o corolário fechado é que os alcançados pela misericórdia, passam a agir com misericórdia. 


O cristão sabe de Cristo e de Sua Graça, para si, e para o próximo. Disse o Dietrich Bonhoeffer: "ao julgar os outros ficamos cegos para o nosso próprio mal e para A GRAÇA QUE O OUTRO TEM TANTO DIREITO COMO NÓS".


O Lewis escreveu: “Desde que servi na infantaria, durante a Primeira Guerra Mundial, me desagradam as pessoas que, cercadas de segurança e conforto, fazem exortações aos homens na frente de batalha. Do mesmo modo, re­luto em falar a respeito de tentações às quais não estou exposto”.


Quem, então, é esse cristão? É esse ao lado’, ou seja, pecador - que sabe de sua falência moral - que sabe da sua perdição; ele é esse sem justiça própria alguma, e que põe sua fé inteiramente no Evangelho.


E que, crescendo na consciência desse Evangelho, melhora em relação a si mesmo e em direção a Cristo, conforme o progresso da obra do Espírito. É ainda pecador e cheio de ambigüidades. Ele luta contra o pecado enquanto recebe capacitação de Deus. Está a todo tempo devedor da Graça. Dependente dela. O caminho do cristão é, invariavelmente, um caminho humilde - o caminho de fé, dessa fé na justificação que vem de Deus.


A mensagem que anunciamos - que humilha sem desprezar - e que exalta sem arrogar (tesouro em vasos de barro”), não é outra senão o Convite que nós mesmos, também pecadores, recebemos: o de respondermos à proposta de justiça de Deus, no Evangelho. Uma justiça que excede em muito nossos padrões de justiça. 


Não há autenticidade cristã em nenhum sentimento de superioridade, mas no de solidariedade. Não há privilegiados: todos têm suas próprias tentações e uma mesma natureza decaída. O abismo é o mesmo. As circunstâncias de nossas vidas são diferentes, mas a realidade de nossos corações é a mesma. Todos têm que lutar contra suas pulsões, todos têm uma inclinação para o mal, todos, absolutamente todos, carecem da glória de Deus. 


Não há desculpas para o intolerante. Todos somos frágeis, e como frágeis, devemos respeitar a fragilidade do outro. 


A despeito de tudo, há os que esbravejam a justiça de Deus impiedosa e inapropriadamente contra o próximo. Esse que não sabe de si, e de suas próprias vulnerabilidades, não é o cristão. Um dia, por algum instante de libertação, ele poderá conseguir enxergar a justiça de Deus – no rigor exato que se pede para o próximo, contra si mesmo. Aliás, a Bíblia é também um livro que se lê contra o próprio peito. E o cristão é quem mais deve fazê-lo.


O olhar agraciado não sabe ser preconceituoso, insensível e julgador. Nas acepções e discriminações não pode estar refletido o amor que faz o sol nascer sobre justos e ímpios, e o amor que não se alegra com a morte dos ímpios e que está empenhado em persuadi-los a abandonarem seus maus caminhos.


O amor nos faz olhar como algo mais positivo e muito mais responsivo que a tolerância: o amor nos faz solidários.


A tolerância é neutra, é uma dieta do bem - é só evitar o mal. É deixar ser: ainda que seja para o mal.


A solidariedade nos compromete.


A Graça e o Amor nos faz solidários porque nos fazem enxergar nossa unidade fundamental:

"Experimentamos a graça de sermos capazes de aceitar a vida dos outros, mesmo que nos seja hostil e nociva, porque, pela Graça, sabemos que essa vida pertence ao mesmo fundo a que nós pertencemos e pelo qual fomos aceitos. Experimentamos a graça que é capaz de vencer a barreira trágica dos sexos, das gerações, das nações, das raças, e mesmo a mais completa separação entre o homem e a natureza. A Graça aparece, por vezes, em todas estas separações para nos reunir àqueles a quem pertencemos". (John A. T. Robinson)