terça-feira, 12 de agosto de 2014

Manifesto Evangélico








À medida que as palavras ganham novos sentidos, elas perdem qualquer sentido. O C. S. Lewis explica como isso aconteceu com a palavra gentleman:


Originalmente, a palavra gentleman tinha um sig­nificado evidente: o gentil-homem exibia um brasão e era senhor de terras. Quando dizíamos que alguém era um gentleman, não lhe estávamos fazendo um elogio, mas simplesmente reconhecendo um fato. Se disséssemos de um outro que não era um gentleman, não o estaríamos insultando, mas dando uma informação a seu respeito. Não havia contradição alguma em chamar John de men­tiroso e de gentleman, assim como não há em dizer que James é um tolo e um bacharel. Então, certas pessoas começaram a afirmar - com tanta propriedade, genero­sidade, espiritualidade, sensibilidade; com tudo, enfim, menos com praticidade: "Ah, mas o que faz um gentle­man não são as terras nem o brasão; é o saber compor-tar-se. Será que o verdadeiro gentleman não é aquele que se porta como tal? Logo, será que Edward não é mais gentleman que John?" A intenção dessas pessoas era boa. Ser honrado, cortês e corajoso é, sem dúvida, coisa me­lhor do que ter um brasão familiar. Porém, não é a mes­ma coisa. Pior, é uma coisa sobre cuja definição as pessoas jamais chegarão a um acordo. Chamar um homem de gentleman segundo esse sentido novo e mais refinado não é, na verdade, uma forma de dar informações a seu respeito, mas sim um modo de elogiá-lo: negar-se a cha­má-lo de gentleman é simplesmente uma forma de in­sultá-lo. Quando uma palavra deixa de ter valor descri­tivo e passa a ser um mero elogio, ela não nos esclarece sobre o objeto, só denota o conceito que o falante tem dele. (Uma ‘boa’ refeição é simplesmente uma refeição que agradou a quem fala.) Um gentleman, agora que o velho sentido prosaico e objetivo da palavra deu lugar ao sentido "espiritualizado" e "refinado", quase sempre significa apenas uma pessoa do nosso agrado. O resulta­do é que hoje gentleman é uma palavra inútil. Já tínhamos no vocabulário palavras suficientes que expressam apro­vação; não precisávamos de mais uma. Por outro lado, se alguém quiser utilizar a palavra em seu velho sentido (numa obra histórica, por exemplo), não poderá fazê-lo sem dar explicações. Ela já não serve para esse fim.

Já faz tempo que se disputa[i] sobre a utilidade da palavra evangélico. Pois ela evoca muitos e diferentes sentidos. Alguns, não se sentem mais identificados por ela, e não mais as usam. Outros, a utilizam de modo qualificado: evangelical, neo-evangélico e até pós-evangélico. O Juam Stam fala em evangélico progressista ou de esquerda.

Dentro desse contexto de disputa, foi publicado nos Estados Unidos, em 07/05/2008, e corroborado por gente como Os Guiness e Dallas Willard, um MANIFESTO EVANGÉLICO[ii].

O documento é sensível, e exprime uma consciência do momento do movimento evangélico. Ele exprime preocupações com o termo, e com os valores a ele associados. Diz-se:

Estamos preocupados com o fato de que as confusões e corrupções em torno do termo evangélico têm crescido tanto que seu significado tem sido obscurecido e sua importância perdida.

E ainda:

Nem consideramos muito preciso que saiamos como vítimas, ou discriminados. Nós certamente não enfrentamos a perseguição como os nossos irmãos de fé no mundo. Muitos dos problemas que enfrentamos como Evangélicos nos Estados Unidos são de nossa própria criação.

É um desafio de reafirmação da identidade evangélica e reposicionamento de suas aparições públicas.

Estaremos nos dedicando a tarefa da tradução e divulgação de extratos do texto, ainda que os recursos pessoais sejam precários e humildes.

Por ora, segue uma amostra da tradução feita pelo Volney em seu blog.

                                                     ***

Evangélicos não tem um líder supremo ou um porta-voz oficial, então ninguém fala pelos evangélicos,
muito menos aqueles que se apropriam desse papel.

Reformados, nós mesmos precisamos de reforma. Protestantes, nós somos a quem os protestos devem ser feitos.

Confessamos que nós Evangélicos traímos nossas crenças por nosso comportamento.

Continuamente temos falhado em demonstrar a unidade e a harmonia do corpo de Cristo, e temos caído em facções, definidas pelos acidentes da história e afiadas pela verdade sem amor, ao invés de expressar a verdade e graça do Evangelho.

Evangélicos tem esbravejado suas causas contra o aborto e a teologia liberal, porém recusando a reconhecer seus próprios vícios como o consumerismo e o materialismo.

Evangélicos esqueceram-se das partes da Bíblia que falam acerca da Criação.

Evangélicos tem alimentado um anti-intelectualismo nas igrejas e tem separado a ciência da fé.


[i] Remeto a Luiz Longuini Neto, Antonio Gouvea de Mendonça, Miguez Bonino, Juam Stam, Samuel Escobar, Robinson Cavalcanti, Caio Fabio, Paul Freston, John Stott, Ariovaldo Ramos, Ed Rene Kivitz, Ricardo Gondim, o Movimento de Lausane, Aevb, a recém criada Aliança Evangélica Brasileira, as discussões em torno dos Novos Evangélicos no ano de 2013, etc.

[ii] http://www.evangelicalmanifesto.com
 

sábado, 2 de agosto de 2014

PEDRAS E PÃO





 “Ordena que estas pedras virem pão”. O demônio é prosaico. Por isso há tentações que são vencidas pela poesia. Todos sabiam: eram pedras. O teor da tentação era uma transmutação: que a pedra virasse pão, uma coisa que se transformasse em outra. Nunca lhe ocorreu a ideia de uma pedra-pão. Não tinha poesia. 

A Adélia Prado que disse: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo apenas uma pedra”. A poesia cria um universo novo. Um universo de pedras-pão, e pães-pedra. 

A poesia mais louca da insanidade só pode ser apreciada por quem é sensato” – diz Chesterton. Para o insano a insanidade é totalmente prosaica, porque é totalmente verdadeira”, continua. Isto é, a poesia existe no parcialmente verdadeiro: ou no verdadeiro em seu sentido.  A pedra vira pão sem deixar de ser pedra. 

“Não só de pão viverá o homem...”, quer dizer, “a alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias”, Rubem Alves.

A imaginação cria um tipo diferente de pão, uma saciedade, para uma fome legítima da alma do homem. Homens como G. K. Chesterton, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, George MacDonald e Rubem Alves, cada um à sua maneira, serviram banquetes próprios a mesa dessa minha fome. Eles descortinaram o maravilhoso e fantástico do mundo. Rasgaram mais um véu. Iluminaram, se assim posso me expressar, a glória do Criador. Ou de outro modo: ressaltaram o sagrado nas coisas de tal modo que o Criador passou a ser percebido onde não era. Suas digitais estão em toda parte. “O universo inteiro é hóstia” – disse Rubem Alves.

A imaginação não diz que pedra é pão. Mas enriquece seu propósito: a finalidade da pedra não é apenas ser pedra. 

“Precisamos olhar o verde outra vez, e nos surpreendermos de novo”, escreve Tolkien. E o Chesterton: “a função da imaginação não é tanto estabelecer coisas estranhas, como fazer estranhas as coisas estabelecidas; não é tanto produzir fatos assombrosos, como fazer assombrosos os fatos”.

Pedra que não é apenas pedra, pedra vista com poesia, é pedra misteriosa. O Chesterton quem disse: “o mistério é a saúde do espírito”. E é muito significativo que ele vai dizer isso ao dissertar contra um certo racionalismo. Onde ele também vai dizer: “a imaginação não gera insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouqueceram, mas os jogadores de xadrez sim”. Argumenta ainda: os poetas não tentam entender o mar, navegam nele.  O que me lembra o MacDonald: “conhecer uma prímula é muito melhor do que saber toda a botânica relacionada a ela”.

Esses homens me fizeram perceber a liturgia cósmica. Poderiam ter dito: “as cebolas proclamam a glória de Deus, e o tangerina anuncia as obras das suas mãos”.

À criação é devolvida a bondade de Seu Criador. A vida, o trabalho, a família, o lar, é o cenário não apenas das grandes aventuras, como o palco de grandes milagres:


“Os momentos sagrados,
os momentos de milagre,
são muitas vezes os momentos diários”,
Frederick Buechner.


Versa uma canção do João Alexandre:
 
“Te vejo Poeta quando nasce o dia,
E no fim do dia quando a noite vem.
Te vejo Poeta numa flor escondida,
No vento que instiga mais um temporal.

Te vejo Poeta no andar das pessoas,
Nessas coisas boas que a vida me dá.
Te vejo Poeta na velha amizade,
Na imensa saudade que trago de lá.

Com tudo o poema, Tua obra de arte,
Destaque-se a parte numa cruz vulgar.
Custando o suplício de Teu filho amado,
mais alta expressão do ato de amar”.

Vendo por eles, o mesmo mundo não me parecia mais o mesmo: fora devolvido ao mistério. Abrir um guarda roupa já não é tão sem estímulos. Um universo poderia surgir disso! O mistério, como se sabe, habita no desconhecido. Mas esses homens devolveram o mistério às coisas que conhecemos e vemos. 

Eles desnudaram o cotidiano, como naquela história em que uma criança grita - “o rei está nu”. O próprio Jesus, treinando nosso olhar, despiu o rei: “nem mesmo Salomão...”. 

Como aperitivo, deixo à mesa do leitor, alguns pequenos trechos desses autores, na esperança de que através dele, Deus faça crescer a percepção poética da criação, dEle, e de si mesmo.

“Deus vê o mundo com olhos de criança”, Rubem Alves.
“O sol nasce todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs, mas essa variação não fica a dever-se à minha atividade, fica a dever-se à minha inação. Ora, se quiséssemos dizer o mesmo com uma expressão popular, poderíamos dizer que o sol nasce todas as manhãs porque nunca se cansa de nascer; a rotina do sol não fica a dever-se a uma ausência de vida, mas a um impulso de vida. Um bom exemplo daquilo que pretendo dizer é o das crianças, quando descobrem um jogo ou uma brincadeira que lhes agrada especialmente. Uma criança não faz balançar ritmadamente as pernas por falta de vitalidade, mas por excesso de vitalidade. É porque têm uma abundância de vitalidade, porque têm um espírito intenso e livre, que as crianças gostam das coisas repetidas e imutáveis. Uma criança está sempre a dizer: «Outra vez»; e a pessoa adulta faz outra vez, até quase cair de morta. Porque os adultos não têm força suficiente para exultarem na monotonia. Mas talvez Deus tenha força suficiente para exultar na monotonia. É possível que, todas as manhãs, Deus diga ao sol: «Outra vez»; e que, todas as noites, diga à lua, «Outra vez». Pode bem acontecer que não seja por uma necessidade automática que as margaridas são todas iguais; é possível que Deus faça cada uma delas individualmente, mas que nunca se tenha cansado de as fazer. Pode bem ser que Deus tenha o eterno apetite da infância; porque nós pecamos e envelhecemos, mas o nosso Pai é mais jovem do que nós”, Chesterton.

“Para mim a mera repetição tornava as coisas antes mais misteriosas do que mais racionais.  Era como se, tendo visto na rua um nariz com uma forma esquisita e tendo-o perdido de vista por qualquer motivo, voltasse depois a ver outros seis narizes com a mesma espantosa forma.  Num primeiro momento eu imaginaria tratar-se de alguma sociedade secreta local.  Assim, um elefante de tromba era bizarro; mas todos os elefantes com trombas parecia uma conspiração.  Falo aqui apenas de uma impressão, e de uma impressão ao mesmo tempo obstinada e sutil.  Mas a repetição na Natureza parecia-me às vezes ser uma repetição exaltada, como a de um professor enfurecido dizendo a mesma coisa muitas e muitas vezes.  A grama parecia acenar para mim com todos os seus dedos; as inumeráveis estrelas pareciam querer ser compreendidas.  O Sol acabaria fazendo com que eu o visse, caso se erguesse milhares de vezes.  As recorrências do universo surgiam ao ritmo estonteante de um encantamento”, Chesterton.

“A maravilha do milho que cresce é, para mim, maior do que a maravilha de alimentar milhares de pessoas. É mais fácil compreender o poder criativo que se manifesta de uma vez – imediatamente – do que as incontáveis, graciosas e aparentemente ignoradas maravilhas de um milharal”, George MacDonald.


“Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada”, Chesterton.

"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
...
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
...
Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?",  
Walt Whitmann.

 “Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos... até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério. É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida.”, Rubem Alves.

“No Paraíso não havia templos e altares porque Deus estava misturado com todas as coisas. Sua casa não era uma casa de quatro paredes. Eram as árvores, as flores, os frutos, as fontes, o vento...
Milagre é o arabesco da asa de uma borboleta; o vôo do beija-flor; o perfume da magnólia; a flor do trevo; a cachoeira; o arco-íris; uma noite estrelada; o pasto rosa com as flores do capim gordura; a chuva; o canto do sabiá; um caramujo; uma teia de aranha; a amizade.... Milagre são meus olhos, os meus ouvidos, as minhas mãos. ... Tudo é milagre. O universo é um milagre. Mas aqueles que vendo nada vêem procuram milagres em lugares esquisitos”, Rubem Alves.

“Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro”, Rubem Alves.

“Quem planta um jardim anuncia o Messias”, Rubem Alves.

“Se o evangelho de Jesus não é verdadeiro, posso apenas orar para que meu criador me aniquile, pois não há mais nada por que valha a pena viver; e, se é verdadeiro, tudo no universo é glorioso, exceto o pecado... Uma das minhas maiores dificuldades de consentir em pensar na vida religiosa é que eu julgava que teria de abandonar meus belos pensamentos e meu amor pelas coisas que Deus criou. Mas descobri que a felicidade que brota de todas as coisas não pecaminosas em si mesmas é aumentada pela religião. Deus é Deus da beleza; religião, o amor à beleza; e o céu, o lar da beleza. A natureza é dez vezes mais brilhante sob o Sol da justiça, e meu amor pela natureza é mais intenso desde que me tornei cristão”, George MacDonald.