quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A condenação dos ímpios promove a glória de Deus - uma entrevista com João Calvino





Algumas Palavras Sobre esta Entrevista

Essa é a segunda parte de minha entrevista com o reformador. A primeira parte pode ser consultada aqui.

O objetivo dessa entrevista é expor seu pensamento no que concerne a predestinação e assuntos a ela relacionados.

Esforcei-me para não deixar transparecer muito minha própria opinião. Fui feliz? Considero que na primeira parte, mais que nessa. Mas adianto que em alguns lugares tive que interpretar um papel.

Em toda entrevista me ative apenas a uma versão das Institutas, e somente a ela.

Tive o cuidado de por entre aspas as palavras exatas. Quando precisei atualizar ou parafrasear, na maioria das vezes, coloquei a citação exata como referência para que o leitor possa verificar por si mesmo se, com outra linguagem, reproduzi ou não o pensamento mesmo de Calvino.

Para facilitar a leitura, as palavras do entrevistador estão em itálico.

Dito isso, 

Boa leitura!


***


- Calvino, por que o homem é condenado?
- Por causa da divina determinação, mas não menos por causa da dureza de coração e da impiedade dos réprobos.

- Porque Deus assim o predestinou?
- Sim.
- Por conta de sua própria impiedade?
- Também.

- Se Deus escolhe pessoas à perdição, antes mesmo de as criar, e, portanto, sem que ainda tenham pecado, isso não seria injusto da parte de Deus?
Isso não seria uma questão aos verdadeiramente piedosos! É, antes, o tipo de coisa de gente da pior espécie... questões de vira-latas![i] É o tipo de consideração de gente que não se contenta com uma blasfêmia só, mas tem um repertório enorme. Preciso mesmo responder?

- Por favor...
- Há uma inversão aqui. Eles não se lembram que são meros mortais. Querem por Deus no banco dos réus. Fazem perguntam sobre um suposto direito e apelam a algum sentido de justiça fora de Deus. Mas por ora não vou lhes refutar a filosofia, antes, por em exporto os seus ardis. Qual é o truque aqui? Pintam um quadro de um Senhor que “se ira contra suas criaturas, das quais não foi provocado previamente por nenhuma ofensa”. Um quadro, aliás, de um perfeito tirano arbitrário e caprichoso. Diante de um quadro desses, o Juiz é flagrado em sua injustiça: pois “sem que eles o mereçam, os predestina à morte eterna”[ii].
Mas você consegue perceber o detalhe: “sem que eles o mereçam”? Mais uma vez tenho que dizer que os ímpios são condenados, sim por causa da divina determinação, mas não menos por causa da dureza de coração e da impiedade deles.

- Mas tenho que discordar: pois muita gente boa levanta esse tipo de questão...
- “Se algumas vezes cogitações desta natureza vêm à mente dos homens piedosos, para quebrar-lhes os impulsos suficientemente armados lhes bastará apenas isto: se refletirem sobre quão grande improbidade é meramente indagar as causas da vontade divina, quando ela mesma é a causa de tudo quanto existe”

- Podemos ir devagar aqui?
- Primeiro, ele já está errado ao meramente se indagar as causas da vontade divina...

- Por quê?
- “Se houvesse algo que fosse a causa da vontade de Deus, seria preciso que fosse anterior e que estivesse atada a tal causa, o que não é procedente imaginar-se”.

- Aqui saímos da “escola do Espírito”?
- Não entendi.

- Aqui você não precisa brigar com a escolástica né? E tem que elogiar Aquino como o grande teólogo-matemático e sua equação das causas...
- Quando, pois, se pergunta por que o Senhor agiu assim, de responder-se: Porque o quis. É o teto! Porque, se prossigas além, indagando por que ele o quis, buscas algo maior e mais elevado que a vontade de Deus, o que não se pode achar. Fui compreendido?

- Prossiga...
- Em segundo lugar “a vontade de Deus é a tal ponto a suprema regra de justiça”, que tudo quanto queira, uma vez que o queira, tem de ser justo.

- Então para nossa questão, não apenas não há esse direito do homem questionar a Deus, como, com toda força da lei de Aristóteles da não-contradição: não há, por definição, sequer a possibilidade de Deus ser considerado injusto...
- Precisamente. E aqui refutamos a objeção por sua filosofia.

- Então é filosofia contra filosofia?
- De maneira nenhuma! Vencemos pela palavra do Senhor!

- Mas nem só da palavra do Senhor vive Calvino...? risos
- Com freio, limites e reverência, é possível “filosofar acerca dos mistérios de seu Deus”.

- Que alívio ouvir isso de você!
- Mas não percamos a glória do Senhor de vista... “Contra a audácia dos ímpios” em questões como essa, “o próprio Senhor se defenderá suficientemente com sua justiça”... tomando para Si o martelo de Juiz e enunciando o veredito: culpados!

- Agente sempre se decepciona com você! Achei que haveria mais espaços para questionamentos. Risos
- O que se pode acrescentar é que até eu detesto o “deus” desse quadro. É preciso dizer isso porque geralmente sou mal compreendido. Esse tirano é profano[iii]. “Não imaginamos um Deus sem lei, ele que lei é para si próprio, porque, como diz Platão, os homens que laboram em paixões necessitam de leis; mas a vontade de Deus é não pura de toda imperfeição, mas também é a suprema regra da perfeição, inclusive é a lei de todas as leis. Negamos, porém, que ele esteja sujeito a prestar conta; negamos também que sejamos juízes idôneos, nós que, de próprio senso, pronunciemos sentença acerca desta causa”.

- Falando em Platão, até aqui, assim resumo seu comedimento em relação a filosofia:Em nossa conversa, antes, e durante essa entrevista, ouvi de você sugestões de que aos pios, menos do que foi disposto em exposição e explicações, “seria sobejamente suficiente”; o vi estimular o contentamento relacionado à piedade. Ouvi a lembrança, repetida, da modéstia condição de que somos simplesmente seres humanos. Vi a demarcação cuidadosa dos limites, o uso de freios, expressos por expressões como “contenha-se”, “não busque o que não existe”, ou ainda “bem se conterá”. E, claro, uma crítica da filosofia pela Palavra.
Por outro lado, percebi a condenação de atitudes e espírito caracterizados por palavras como: Audácia. Sem temeridade.
Finalmente, talvez em suma, uma falta de proibição, mas apenas zelos e cuidados para o filosofar “com reverência”.
Fui injusto?”
- De modo algum!

- Retomemos... Acho que preciso voltar a este ponto: você disse “Deus não condena ninguém que não mereça!”. Ainda não consegui entender onde está o merecimento se Deus predestina à morte sem que ainda existam...
- Por trás dessa ideia é escarnecido o nome de Deus! Como se Deus devesse alguma coisa ao homem! Se Ele quisesse Ele criaria o motivo no homem de sua condenação[iv]. Mas injusto Ele não seria. Que quer o homem?

 - Mas isso não seria crueldade?
- Nunca. Seria de uma “justiça mui equitativa”.

- Não consigo enxergar assim...
- “Como estamos todos infeccionados pelo pecado, não podemos deixar ser odiosos a Deus”. Isto é, somos naturalmente passíveis de juízo de morte. Não é crueldade bater em um peixe morto! Que há de errado nisso? É justo, é equitativo. “Se de massa corrupta foram todos tomados, o é de admirar se estão sujeitos à condenação”[v].

- Então Deus predestina à morte quem já é passível de morte?
- Isso mesmo. Esse tem sido o truque: “suprimem, deliberadamente, a causa da condenação”.

- Então, aqui, me corrija se eu estiver errado, a predestinação à morte é pela presciência das obras, e por mérito? Aqui não vale o apelo de Rm 9 - “não fez nem mal nem bem...”?
- Não é por aí...

- Então não entendi o seu argumento, ou então você fala em “causa da predestinação” de modo confuso, e me parece ter se perdido aqui. Se me permite, com toda estima que sei que tens à Palavra, aqui não a tem usado de modo parcial na polêmica?
- Você me entendeu errado...

- Foi o que sugeriu ao dizer “sua Palavra também nos provê armas contra eles [contra os “inimigos” que levantam questionamento a sua doutrina]”. Me soa como uso polêmico, que é sempre tendencioso. Ademais, precisa ser inimigo, e inimigo de Deus, quem discorda de você?
- “Se reúnam todos e venham sair na mão contra o Criador que lhes planejou a miséria perpétua”[vi].

- Tenhamos calma, por favor! Risos
- ...

- Mas falando sério, a questão é difícil. Eu sinto aqui que estamos no limiar da lógica (e como isso me faz temer que já saímos do terreno da revelação!). Estamos falando até sobre a possibilidade de haver uma causa daquilo que é a causa de tudo! Com todo respeito, e apelando a sua paciência em expor seu pensamento, não acho que você precise tratar como inimigo quem pensa diferente de você. Mais ainda, você diz coisas que são difíceis de entender. Diz, por exemplo, que Deus não é injusto porque predestina à morte quem merece por seus pecados, mas diz também que Deus predestina também para o pecado. É difícil acompanhar. Pode tornar isso mais claro?
- Acham que se foram predestinados por disposição de Deus a esta corrupção, que ora afirmamos ser causa de sua condenação, que isso é alguma objeção real?
Não recuaremos. “Sem dúvida confesso que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão se encontrem nesta miserável condição”. Deus assim predestinou.
Quando perecem em sua perdição estão pagando a conta da herança de débitos de Adão[vii].
Também aqui, mais uma vez, e sempre, apelaremos ao “arbítrio da vontade divina”, que ninguém tem acesso[viii]. Quer uma resposta? Ela está lá, guardada sob sete chaves.
A sua justiça está escondida lá. Se não vê, que cale[ix]!

- Mas isso responde alguma coisa?
“Negarão que dessa maneira se defende verdadeiramente a justiça de Deus”, mas toda a resposta reside aí. É o poder de Deus[x], que não deve nada a ninguém, nem explicações, nem tem limites. Essa é a resposta. O que se pretende? Acusar também o Apóstolo de ter se esquivado e fugido do assunto[xi]?
Deus lhe parece injusto? É você que é raso! Deus é justo: essa é a definição.

- Não é apenas que nos parece ser injusto. É que é contrário ao que nós entendemos por justiça...
“Como se essas obras fossem iníquas, só porque o ocultas à carne!” Com Paulo afirmo que não devemos buscar razão para a divina providência porque ela, em sua magnitude, nos supera em muito a inteligência. A Sua justiça nos escapa? “Porventura queira que o poder de Deus seja tão limitado que não possa engendrar algo mais da que sua mente apreenda?”.
E novamente tenho que dizer: não “devemos discutir se a vontade de Deus é ou não justa; visto que, sempre dela se faz menção, sob seu nome se enuncia a suprema e infalível regra de justiça”.Logo, por que lançar dúvida se haverá iniqüidade onde claramente se que a justiça se faz presente?” É assim que calamos a boca dos ímpios nessas suas questões: “Ora, quem sois vós, míseros homens, que formulais acusação contra Deus? [Rm 9.20]”. Isso outra coisa não é do que a estupidez de querer rebaixar a grandeza das obras de Deus à burrice[xii] de vocês.
Mas se tu replicas: tu também é, quanto a isso, ignorante. Mas é claro que sou!Tu, um homem, esperas de mim uma resposta, e eu sou, também, apenas um homem”, disse Agostinho. A diferença é que em minha ignorância permaneço fiel. O que fazes é um mergulho em louca indagação. É uma busca que já começa inútil: pois a própria razão já admite não ser capaz[xiii].

- Vamos colocar de outra maneira. Deus pune a quem é condenável por causa de sua predestinação. Isto é, cronologicamente falando - se assim podemos dizer -, Deus predestina a pessoa a ser condenável; ela inevitavelmente se torna condenável; Deus a pune. Isso lhe parece justo?
- Outra objeção que emerge da impiedade!

- De novo com isso!?
- Mas não há como não reconhecer que é de “línguas profanas” que surge essa questão: “Por que Deus imputaria aos homens como sendo falha essas coisas cuja necessidade ele impôs em razão de sua predestinação?”.

- Tudo bem... Mas preciso dizer que é o tipo de coisa que o faz soar falacioso, sempre denegrindo quem pergunta com honestidade... além do mais o faz soar arrogante, o faz parecer estar bem longe da condição de aluno da “escola do Espírito!”. Mas não nos atrapalhemos aqui. Continue...
- Uma coisa é ser condenável por causa da predestinação, outra coisa – o que não consegue ver -, é não ser também responsável por ser condenável.
 Veja: aqui não se quer incriminar a Deus como fazer a vindicação do pecador.

- Estou acompanhando...
- Aqui a maioria apela à presciência. Isto é, que Deus apenas prevê pecados. Não será esse o meu caminho[xiv]. A razão pela qual Deus tenha visto de antemão as coisas que há de acontecer é que assim decretou que acontecesse. E se é assim: a presciência não seria uma defesa. É isso que deve estar firmemente estabelecido: Deus criou: “até o ímpio para o dia do mal [Pv 16.4]. “Reside em seu poder o arbítrio da salvação e da morte”, e assim ordenou que entre os homens nasçamaqueles devotados à morte certa desde a madre, para que, por meio de sua condenação, lhe glorifiquem o nome[xv]”.

- Você mencionou algo como “mérito de condenação” que foi “herdado” e tornado condição natural...
- Dizem não encontrar nas Escrituras de modo explícito que a desobediência de Adão fora decretado por Deus. Pergunto: e precisa? É o que podemos deduzir das Escrituras. Essa história de que o homem, a mais nobre de suas criaturas, dispusesse, ele próprio, livre, de seu destino... e de seu caminho para o bem ou para o mal, para a vida ou para a morte, é o mesmo que dizer que Deus o criou com um fim ambíguo! E ainda: é um atentado contra a onipotência de Deus que a tudo, tudo!, governa e regula[xvi].

- Que admita, pelo menos, que são deduções ou induções...
- É preciso que se diga sem nenhum constrangimento: a queda de Adão que lança, irremediavelmente, “tanta gente”, e também as suas criançinhas!, no inferno – por conta do admirável conselho de Deus. Porque a Ele “assim pareceu bem”.

- Me desculpe. Mas isso que você emprega todos os esforços para dizer que é uma verdade das Escrituras – e aqui não recua um único passo, não subverte tudo? Não perverte a revelação, estraga a boa nova, corrompe a imagem de Deus...?
- Isso é conversa dos “bons patronos da justiça de Deus”...

- Ouvi-lo insistir em calúnias não é de todo inútil. Pelo menos serve para mostrar esse seu lado cáustico, que é um tanto desconhecido. A imagem que eu mesmo nutria a seu respeito é de um homem austero, completamente reverente e respeitador. Estamos juntos a poucos instantes e com muita recorrência o vejo rotular os demais como “cães virulentos”, iníquos, sem temeridade, e seus argumentos como blasfemos ou como vômitos... Em momento algum o vi assumindo suas ideias, mas sempre atribuindo as Escrituras. Já lhe passou que pode estar errado? Não o vi assumir como parcial sua interpretação em ponto algum. Não o ouvi dizer: “eu penso...”. Não o vi deixando espaço para alternativas. Blasfemo? O que é blasfemo depois que se ouve que parece bem a Deus, e lhe glorifica, jogar criancinhas no inferno!? Não seria você que passa dos limites, perde o freio, e vai para longe do revelado nas Escrituras?
 - Já vi que expliquei em vão.

- Ou será que, pelo contrário, a chateação é resultado de eu ter te entendido?
- Ok, confesso ser esse um decreto terrível!

- Mas temos que continuar! Você afirma que o homem é inescusável na condenação a que é predestinado?
- É uma escusa sacrílega! Mas fazer o que se não temos como deixar a impiedade calada? De meus argumentos é que não se pode reclamar. É preciso que se diga que eu fui perfeito em meus raciocínios[xvii].

- Dizem que não tem culpa de pecar porque não podem fugir à necessidade de pecar: e foi Deus que impôs essa necessidade.
- Eu nego, retamente, que daí haja escusa. Se é ordenação de Deus, lembre-se do nosso pressuposto, então há equidade. Não a percebemos, é verdade, mas do nosso esquema “se segue” que seja infalível[xviii].

- Aqui, mais uma vez, nos vemos delegando a autoridade das Escrituras à lógica...?
- Claro que não! Retomando o que íamos dizendo, age errado quem busca origem de sua condenação...

- Há quem busque a origem de sua condenação?
- Permita-me concluir. Age errado quem busca origem de sua condenação nos “recônditos acessos do conselho divino”. “Mas que fecham os olhos à corrupção de sua natureza, da qual ela realmente jorra”.

- Mas a você, me parece, que é certo buscar nele, no conselho divino, a origem da condenação dos outros...
- ...

- A ELEIÇÃO não implica favoritismo da parte de Deus, parcialidade e acepção de pessoas?  
- A predestinação é castigada de todos os lados! Concluem que Deus está fazendo acepção de pessoas porque Ele escolhe alguns para que sejam eximidos da ruína universal. Com esta objeção presumem bagunçar todo o sistema que cuidadosamente montamos das Escrituras. Com isso, até aqui!, onde ninguém vê, fazem algum apelo a salvação pelos méritos[xix]!

- Essa última parte, de fato, não se vê!
- Deus não faz acepção de pessoas. É o que as Escrituras afirmam. Estamos nós errados? Jamais. Se Deus não faz acepção, mas elege, não pode haver aí uma contradição. E temos que buscar um outro sentido para acepção que Deus não faz: porque há acepção que Ele faz.

- Pode ser mais específico?
- Deus não faz acepção de pessoas, mas “pessoa” aqui não quer dizer homem. Mas adjetivos dos homens[xx]. Características que os distinguem. “Aquelas coisas que no homem, evidentes aos olhos, costumam ou conciliar favor, graça, dignidade, ou excitar ódio, desprezo, desonras, como riqueza, posses, poder, nobreza, magistrado, pátria, elegância de forma e outros desse gênero”. Assim, Deus não faz acepção de pessoas porque não faz acepção entre judeu e grego, rico ou pobre, liberdade ou servidão.
Mas não paro por aqui. A refutação pode ser mais brilhante ainda[xxi]: De dois indivíduos Deus elege um e rejeita o outro. “Porventura crêem que algo naquele que é eleito por Deus que faça a disposição divina inclinar-se em seu favor?”. É claro que não. Do contrário, a salvação seria pelas obras. Assim, “Deus não atenta para o homem; antes, por sua bondade busca a razão por que a agracie”. A “qualidade” humana não entra na equação aqui. Como pode isso ser chamado de acepção[xxii]?

- De tudo o que disse, uma coisa me deixa inquieto e precisamos dar uma atenção a mais. A condenação dos ímpios promove mesmo a glória de Deus?
- Sim. “Pelo justo, porém inescrutável, juízo de Deus, foram suscitados para ilustrar sua glória através de sua própria condenação”.

- O inferno então é uma ilustração da glória de Deus?
- “Quando os ímpios ouvem essas coisas, bradam por socorro, visto que, com poder despótico, Deus abusa de suas míseras criaturas, para a recreação de sua crueldade. Nós, porém, que sabemos que todos os homens estão, por tantos motivos, de tal modo sujeitos ao tribunal de Deus, que, interrogados por mil perguntas, na verdade nem sequer em uma podem satisfazer, confessemos que os réprobos nada sofrem que não esteja em harmonia com o mui justo juízo de Deus”.

- Deus decretou alguns para perdição?
- Sim, já discutimos isso.

- Negas tu que “as promessas de salvação sejam universais”?
- De modo algum. Aonde quer chegar?

- Diante desse quadro, Deus não estaria querendo [oferta de salvação universal] “aquilo que contrapõe a seu inviolável decreto” [predestina alguns para condenação] ?
- Por mais que as promessas de salvação sejam universais, isso não contradiz a predestinação para perdição. O quadro é mesmo esse: “Deus ordenou desde a eternidade a quem quer abraçar em amor, exerce sua ira contra quem quer, e que proclama a salvação a todos indiscriminadamente”.

- É isso que não consigo entender...
- Essa charada se mata pensando na eficácia... A coisa toda só vale mesmo quando se pergunta quem aceitou a oferta. O convite para todos só vale para quem finalmente aceita. Não há promessa para quem não crê. Portanto, não há contradição. Há uma harmonia perfeita[xxiii]. O sistema é perfeito nos detalhes!

- Por que então proclama a salvação a todos indiscriminadamente?
- “Pois, assim prometendo, outra coisa não pretende senão que sua misericórdia seja oferecida somente a todos os que a buscam e imploram, o que outros não fazem, a não ser aqueles a quem ilumina”.

- Mas, por que menciona todos?
- Para os salvos, para que eles não se esqueçam que a distância que separa seu céu do inferno da maioria é a fé[xxiv]. Já para os ímpios, é para que a acusação contra eles seja completamente perfeita, e não dê ocasião alguma do contraditório. De razão última, por que perecerão? Porque Deus os escolheu para perdição. Mas sequer lhe podemos lhes dar o gosto de dizer que Deus não os “ofereceu” salvação. Não podem alegar que não tinha onde escapar do pecado. Tinham. É preciso usar contra eles também o fato de que eles rejeitam a promessa de salvação e o convite para o amor de Deus[xxv].
Acrescento, finalmente, que a vontade de Deus não é múltipla, isto é, Ele não oferta a salvação a todos porque quer que todos se salvem. Apenas parece múltipla para nossa percepção. A vontade de Deus é uma: Ele quer perdidos, e quer ser glorificado com o sofrimento eterno no inferno[xxvi].

- É embaraçante, mas não nos restam dúvidas sobre seus pensamentos. Muito obrigado.


[i]  "Estas considerações seriam, por certo, sobejamente suficientes aos pios e modestos e que se lembram de que são simplesmente seres humanos. No entanto, uma vez que estes cães virulentos não vomitam contra Deus uma única espécie de blasfêmia, as responderemos uma a uma, conforme a matéria o requeira".

[ii] "Estas considerações seriam, por certo, sobejamente suficientes aos pios e modestos e que se lembram de que são simplesmente seres humanos. No entanto, uma vez que estes cães virulentos não vomitam contra Deus uma única espécie de blasfêmia, as responderemos uma a uma, conforme a matéria o requeira. De muitas maneiras os homens adultos litigam com Deus, como se, por suas acusações, o mantivessem incriminado. Portanto, primeiro perguntam com que direito o Senhor se ira contra suas criaturas, das quais não foi provocado previamente por nenhuma ofensa; porque, condenar e destruir àqueles a quem ele bem quer se enquadra mais ao capricho de um tirano do que à sentença legítima de um juiz. E assim lhes parece que os homens têm justo motivo para queixar-se de Deus, se por sua mera vontade, e sem que eles o mereçam, os predestina à morte eterna".

[iii] "Entretanto, tampouco ingerimos em Deus a ficção de um poder absoluto, porque, assim como é profana, também com razão nos deve ser detestável".

[iv] "à guisa de resposta lhes indaguemos, por nossa vez, se pensam que Deus deve algo ao homem, caso o queira estimar por sua própria natureza?"

[v] "Como estamos todos infeccionados pelo pecado, não podemos deixar ser odiosos a Deus, e isso não por crueldade tirânica, mas por razão de justiça mui eqüitativa. Porque, se todos são passíveis de juízo de morte, por condição natural, os que o Senhor predestina à morte, pergunto de que iniqüidade sua para consigo, se hajam de queixar-se?"

[vi] "Venham todos os filhos de Adão; contendam e alterquem com seu Criador por que antes mesmo de serem gerados foram predestinados à perpétua miséria por sua eterna providência".

[vii] "Porque, se é assim, quando perecem em sua corrupção, outra coisa não estão pagando senão as penas de sua miséria, na qual, por sua predestinação, Adão caiu e arrastou com ele toda sua progênie",

[viii] “E isto é o que eu dizia inicialmente: por fim, tem-se sempre de volver ao mero arbítrio da vontade divina, cuja causa está escondida nele mesmo”. 

[ix] "Mas, não se segue diretamente que Deus esteja sujeito a esta injúria. Pois em Paulo encontramos isto: “Quem és tu, ó homem, que discuta com Deus?"

[x] "Pois, que outra coisa aqui se parece dizer, senão que Deus possui um poder que não pode ser impedido de fazer absolutamente nada, conforme lhe parecer do agrado?"

[xi] “Portanto, o Apóstolo não volveu os olhos com evasivas, como se estivesse embaraçado; simplesmente mostrou que a justiça de Deus é demasiado profunda e sublime para poder ser determinada com medidas humanas e ser compreendida por algo tão tacanho como é o entendimento humano”. E “De fato, o Apóstolo confessa que os juízos divinos são tão secretos [Rm 11.33], por cuja profundeza seriam tragadas todas as mentes humanas, se aí tentassem penetrar”. E “E portentosa é a sandice dos homens, enquanto desejam sujeitar assim à acanhada medida de sua razão aquilo que é imensurável”.

[xii] “[acusam a Deus] não por outra razão, senão porque não se presta a rebaixar a grandeza de suas obras, não as acomodando a vossa ignorância?”

[xiii] "Portanto, que proveito há, em mergulhardes, em louca indagação, em um abismo que a própria razão dita vos haver de ser fatal?"

[xiv] "Abster-me-ei aqui da defesa a que recorre a maioria dos escritores eclesiásticos, ou, seja, que a presciência de Deus não impede que o homem se repute pecador, uma vez que Deus esteja a antever coisas más daquele, não suas".

[xv] "Antes de mais nada, entre todos deve estar firmemente estabelecido o que diz Salomão: “O Senhor fez todas as coisas para atender a seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal” [Pv 16.4]. Uma vez que esteja na mão de Deus a disposição de todas as coisas, quando reside em seu poder o arbítrio da salvação e da morte, em seu conselho e arbítrio assim ordena que entre os homens nasçam aqueles devotados à morte certa desde a madre, para que, por meio de sua condenação, lhe glorifiquem o nome".

[xvi] "Negam que subsista em termos explícitos que por Deus foi decretado que Adão perecesse por sua apostasia. Como se realmente esse mesmo Deus, que a Escritura proclama “fazer tudo quanto quer” [Sl 115.3], haja criado a mais nobre de suas criaturas com um fim ambíguo! Dizem que foi apanágio do livre-arbítrio que ele próprio dispusesse seu destino; Deus, porém, não destinou nada, senão que o tratasse conforme seu mérito. Se tão insípida invenção for aceita, onde estará aquela onipotência de Deus pela qual, segundo seu conselho secreto, o qual de nenhuma outra coisa depende, a tudo governa e regula?".

[xvii] "Talvez alguém dirá que eu ainda não apresentei o que fizesse cessar esta sacrílega escusa. Eu, porém, confesso que de fato não se pode efetuar que a impiedade não frema sempre a e murmure em contrário. Contudo, quanto a mim tudo indica que já disse quanto bastasse para remover não só a razão de falar contra, mas até mesmo o mero pretexto".

[xviii] “Nós, na verdade, negamos retamente que daí haja escusa, visto que à ordenação de Deus, pela qual se queixam de ser destinados à ruína, a eqüidade lhe é manifesta, a nós de fato desconhecida, mas sendo a mesma infalível”.

[xix] “Ora, seus adversários infamam também a predestinação divina como sendo um terceiro absurdo, porque, uma vez que não atribuímos a outro fator, senão ao arbítrio da vontade divina, que sejam eximidos da ruína universal aqueles aos quais Deus assume por herdeiros de seu reino, disto concluem, pois, que nele há acepção de pessoas, o que a Escritura, por toda parte, nega. Logo, ou a Escritura é em si mesma contraditória, ou na eleição divina há consideração de méritos”.

[xx] “A Escritura nega que Deus faça acepção de pessoas em outro sentido, não naquele em que julgam eles, pois que pelo vocábulo pessoa ela não quer dizer o homem”.

[xxi] “Contudo, para que fiquem mais plenamente satisfeitos, podemos explicar assim”.

[xxii] “Perguntam como se explica que de dois indivíduos a quem nenhum mérito diferencia, Deus, em Sua eleição, exclua a um e se aproprie do outro. Eu, por minha vez, indago: Porventura crêem que há algo naquele que é eleito por Deus que faça a disposição divina inclinar-se em seu favor? Se confessarem, o que necessariamente se dará, nada haver, seguir-se-á que Deus não atenta para o homem; antes, por sua bondade busca a razão por que a agracie. Portanto, o fato de Deus eleger a uma pessoa e rejeitar a outra, isso não provém de consideração humana, mas de sua mera misericórdia, a qual deve ser livre para manifestar-se e expressar-se onde e quantas vezes lhe apraz”.

[xxiii] “Sabemos que, afinal, as promessas nos são eficazes quando as recebemos em fé; quando, ao contrário, a fé é aniquilada, a promessa foi, ao mesmo tempo, abolida. Se essa é sua natureza, então vejamos se porventura estas duas teses discrepam entre si: diz-se que Deus ordenou desde a eternidade a quem quer abraçar em amor, exerce sua ira contra quem quer, e que proclama a salvação a todos indiscriminadamente. Deveras digo que elas se harmonizam perfeitamente”.

[xxiv] “Para que mais seguramente aquiesçam as consciências dos pios, enquanto compreendem que não há nenhuma diferença dos pecadores, desde que a fé esteja presente”.

[xxv] “Os ímpios, porém, para que não aleguem faltar-lhes um refúgio em que se abriguem da servidão do pecado, visto que, por sua ingratidão, rejeitam o asilo a si oferecido”.

[xxvi] “Embora, até onde vai nossa percepção, a vontade de Deus seja múltipla, contudo, em si ele não quer isto e aquilo; ao contrário, em razão de sua multiforme sabedoria ... nossos sentidos se tornam atônitos, até que nos seja dado conhecer que ele, de uma forma admirável, quer o que agora parece ser contrário à sua vontade”.