sábado, 25 de abril de 2015

Teologia Bíblica ou Sistematica - CARSON





Esboços de uma crítica: Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática – Unidade e Diversidade no Novo Testamento 

O livro Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática – Unidade e Diversidade no Novo Testamento é um livro pequeno, da série de livros teologia de bolso. O autor, Donald A. Carson, bastante divulgado no Brasil, é apresentado pela coordenação da editora como “Possivelmente o mais respeitado erudito da área do Novo Testamento do mundo, no contexto evangélico”.

O título parece sugerir que o livro seja uma resposta a contraposição: Teologia Bíblica OU Teologia Sistemática. E o subtítulo revela o desenrolar dessa discussão: unidade e diversidade.

Aqui faço a seguinte pontuação: a diversidade é pressuposta. Os “dados” estão brutos, dispersos. A unidade é um trabalho da Teologia Sistemática, é o resultado dela. A Teologia Sistemática é o custo da unidade. Portanto, a Teologia Sistemática é um trabalho humano mesmo quando alegue que seu trabalho não é conferir unidade, apenas reconhecê-la. O leque de questões que podem ser levantadas aqui se multiplica. A Teologia Sistemática apenas reagrupa e organiza, ou seu trabalho é crítico e interfere e/ou interage no conteúdo? Há inequivocamente um trabalho ativo da parte da Teologia Sistemática: seu esforço é para traduzir tensões e antíteses nos termos inequívocos e lineares do OU/OU.

Tentando situar o seu livro o Carson diz: “Há um consenso crescente entre os estudiosos do Novo Testamento de que qualquer teologia sistemática que reivindique resumir a verdade bíblica é, na melhor das hipóteses, obsoleta e, na pior delas, perversa”.

Antes de tudo, é preciso assumir a possibilidade, a séria possibilidade, da teologia sistemática se tornar realmente perversa. Senão já os danos de que teologias assim têm produzido. Por outro lado, o espectro da qualidade das teologias sistemáticas é muito mais amplo que o apresentado: obsoleto-perversa. O quadro exagerado não deixa de soar superficial.

O Carson ainda registra que tem se considerado a Teologia Sistemática uma “disciplina que buscará em outro lugar que não no Canon cristão as suas normas”.

É contra tais retratos que seu livro se coloca. Mas sua defesa está tão relacionada a uma concepção da Lógica (especialmente como em Aristóteles) que demonstra uma chateação com Rogers e McKim quando sustentam: “para Calvino, [a lógica] não tinha precedência sobre os escritos das Escrituras”. Em sua reação crítica, além de argumentar que distorceram Calvino, o Carson transparece que discorda da tese básica. No mínimo, não ficou claro, mas sugerido, que ele acha que a Lógica tem precedência. E, para o que quer sustentar, tem que ter mesmo.

O grosso da sua defesa da Teologia Sistemática parece depender de sua concepção da lógica. Assim, vai dizer que a expressão “teologia sistemática” é mesmo uma “tautologia”, pois toda teologia será sistemática em algum sentido.

Embora ele vá especificar o que ele próprio vai querer dizer com “Teologia Sistemática”, aqui, o assunto merecia ser menos genérico sob pena de soar apenas retórico.

Em parte considerável do livro Carson vai analisar o livro James D. G. Dunn: Unidade e Diversidade no Novo Testamento. A dedicação a Dunn é tal que sugere que o livro foi, de alguma forma, escrito em sua resposta. Ele justifica: “Sem dúvida alguma, o trabalho atual de maior influência no campo tratado neste capítulo é o livro de J. D. G. Dunn...”.

Registrei também, através da freqüência dos rótulos e das rotulações, que o Carson se preocupava não apenas em localizar-se como veicular sua abordagem como tipicamente conservadora. E o faz com muitos autores. Aliás, é notório que ele dedica-se demasiadamente a localizar Dunn entre o conservadorismo/liberalismo. Ele diz, por exemplo, “o livro de Dunn merece atenção especial, ainda mais porque vem da pena de um autor que se alinha com uma associação profissional tão conservadora quanto a Tyndale Fellowship for Biblical Research”. E que o Dunn tentou “servir como um intermediário entre o liberalismo e o conservadorismo”.

Ele cita Dunn em sua tentativa de elaborar a sua síntese do NT:

“Em Jesus temos um paradigma para a relação entre o homem e Deus e a relação do homem com o homem; que na vida de Jesus, na sua morte e vida além da morte, vemos a mais clara e plena materialização da graça divina, da sabedoria e do poder criativos de Deus jamais tornados realidade na história; que o cristão é aceito por Deus e capacitado a amar a Deus e ao seu próximo para aquela mesma graça que agora reconhecemos ter o caráter daquele mesmo Jesus”.

O Carson reage: “confesso que não reconheço muito do evangelho cristão neste resumo[i]”. E registra sua falta das pautas conservadoras: pecado, expiação...

Ele diz: "tenho certeza de que a ortodoxia crítica ficará satisfeita...".

Por seu lado, diz que seu livro irá “ajudar a fornecer um referencial introdutório para o conservador”.

Nesse ponto registra-se uma participação decisiva do tradutor-editora. O Carson, em continuação a frase acima, vai dizer que seu livro será útil para o evangélico para este conheça o pensamento do conservador. A tradução coloca o termo amplíssimo não-conservador, e explica em nota que evangélico tem significado diferente para o contexto brasileiro. Mas não explica qual o sentido de evangélico para o Carson. Aliás, registra-se, que tal sentido não pode significar liberal. Até se poderia dizer: que no contexto original do termo evangelical (inglês/América) o termo surge como diferenciação do fundamentalismo. Evangelical é justamente a ponte que o Carson critica no Dunn – entre o fundamentalismo e o liberalismo. Ademais, a tradução/editora não deixa claro que com o termo conservador o Carson quer dizer fundamentalismo ou outra coisa.

O Carson não pode ser completamente desonesto – sob o custo de não ser levado a sério, e precisou admitir Dunn possui “invejável amplitude de erudição”. Mas quando da sua crítica, o Carson alega que Dunn desfigura a bibliografia, mas é extremamente superficial em exemplificar: não há qualquer retomada dessas fontes.

Mas sente-se justificado em sua avaliação final do livro: “este livro só pode ganhar aqueles que já estão vendidos à posição crítica tradicional de nossa era”. E: “Há um lugar importante para livros superficiais, mas é triste ver um livro tão superficial reivindicando apresentar um argumento profundo”.

O leitor mais exigente fica cobrando do Carson uma justificação para tal conclusão. E fica se perguntando se o Carson acharia seu livreto superficial ou profundo.

Defendendo especificamente a Teologia Sistemática, o Carson vai levantar uma questão em que, durante todo o livro, eu cobrei maior preocupação: dizer que toda teologia é sistemática em algum sentido e que “a maioria das pessoas adota algum tipo de teologia sistemática”, não equivale a dizer “que toda teologia sistemática é boa, útil, equilibrada, sábia ou bíblica”. Mas não há nada no livro que aborde teologias sistemáticas ruins, desequilibradas, inúteis, tolas e não bíblicas. E se for possível alegar algum estrago considerável desse tipo de teologia, a despreocupação do Carson parece destoar do seu objetivo. E passa a ser possível discutir outro objetivo não confessado, qual seja, uma defesa de seu próprio modo de fazer teologia.

O Carson trabalha com outras definições genéricas da Teologia Sistemática: vai dizer que só um louco não é sistemático, porque só um louco “aceita” uma incoerência consciente. Não sendo louco, “buscará o máximo de coerência lógica”, e isso é fazer Teologia Sistemática. Diz: “uma discussão relevante não questiona a legitimidade da teologia sistemática per se”.

O Carson admite que a defesa de seu modo de fazer teologia tem resultados prévios: “a legitimidade de se buscar uma teologia sistemática depende da unidade do NT”. Assim, o NT, e a Bíblia, tem de ter unidade. Sua diversidade, não pode ser contraditória. Não pode haver – e não há, “componentes incoerentes”. É assim, com pressupostos claros, que vai dizer que a Teologia Sistemática forma “um todo único e singular determinado por seu próprio princípio abrangente” a partir da mensagem bruta.

Com tais pressupostos assumidos, ele talvez tenha colocado o seu próprio livro como completamente desnecessário. Pior ainda é quando se o insere num debate que não é o seu, e o toma como acadêmico. É o que se sugere na própria apresentação do autor.

Embora, admita que seu método, seu conservadorismo (presumindo ser este uniforme), não é uma garantia de uniformidade - “certamente haverá alguma diversidade entre as teologias dos vários sistematizadores”, ele não dedica a discutir a natureza, a dimensão e gravidade da diversidade. Só se limita a dizê-las como “alguma diversidade”. Penso frustrado: mas este é o grande labirinto que se espera ver um especialista sair, e ele se esquiva sem mais nem menos. É, pois, muito importante, discutir o tipo de teologia que seu método e sua confissão têm produzido. Discutir as dissensões. Discutir as distorções e suas conseqüências.

Até quanto admite que nas Escrituras haja uma “falta dolorosa de informações em pontos cruciais”, não esclarece. Quais? – nos perguntamos.

O ponto alto do livro, a meu entender, onde Carson deixa claro sua posição, é quando faz uso da imagem do quebra-cabeça. Ele esclarece: não está dizendo que o quadro todo possa ser montado, sequer que todas as peças estão presentes. O que ele sustenta é, mesmo admitindo a falta de peças, a distorção de algumas, e a aparente não adequação de outras, que há uma “garantia de que todas as peças fazem parte do mesmo quadro”. Sua defesa da Teologia Sistemática é novamente confessada como uma certeza prévia, “uma garantia”. Sua teologia, pois, se apresenta como dogmatista. Aliás, é como diz o prof. Ricardo Quadros Gouveia: ele faz teologia sistemática, e não estudos bíblicos.

Ainda na sua imagem, “Alguns dos sistematizadores que acreditam que todas as peças são parte do mesmo todo não têm muito jeito para montar quebra-cabeças, e às vezes forçam peças onde elas não cabem. O quadro fica um pouco distorcido, mas permanece basicamente reconhecível”. Pois a partir dessa imagem é possível definir a Teologia Bíblia pelo menos em sua contraposição a Teologia Sistemática: a Teologia Bíblia irá acusar corretamente tal sistematizador de enxergar unidade pela lente da confissão, à qualquer custo, ao custo de constranger o texto a dizer o que se quer que ele diga. E que, com boa vontade, ou não, em nome de sua confissão, está distorcendo o texto bíblico. Irá dizê-lo: você não entende de peças, mesmo que possa (e é discutível) entender de quadros.
A preocupação mais legitima de toda essa discussão é não distorcer a Bíblia e deixar que ela própria diga o que diz, mas o Carson a trata de um modo chocantemente simplificado por estar envolvido no rebate retórico:

“Enquanto vários críticos acusam [o teólogo sistemático conservador] de construir uma teologia sistemática rígida que o força a distorcer sua exegese, ele pode ser perdoado se descobrir que os que o criticam estão reconstruindo a história da igreja”.

Tal atitude é, para usar suas próprias palavras, imperdoável.

Chego ao final do livro concordando com o Carson: o livro de Dunn é “sem dúvida alguma, o trabalho atual de maior influência” em campos importantes tratados nesse livro. Curiosamente, estou lendo o livro de Dunn. E mais curiosamente ainda, é que cheguei ao livro de Dunn através da leitura do Livro Heresia de Alister McGrath, um livro que dedica um espaço muito mais produtivo a discussão da unidade e diversidade no Novo Testamento. O livro do McGrath é, em muitos quesitos (melhor escrito, mais honesto, melhor pesquisado), superior e apropriado para o leitor não-liberal.

Diante desses dois, o livro do Carson pode ser descrito quase com as suas próprias palavras: “este livro só pode ganhar aqueles que já estão vendidos à posição fundamentalista de nossa era”; “é triste ver um livro tão superficial reivindicando apresentar um argumento profundo”; “Tenho certeza de que o evangelicalismo fundamentalista ficará satisfeito”.


[i]  Por outro lado, lendo o livro de Dunn percebo a injustiça que o Carson comete, mas entendo o Carson, que, a todo instante tem que se defender. Cito o Dunn em três dessas ocasiões: 

i)           Logo percebi que não ganharia nada negando esse caráter, fosse por ignorar a diversidade, ou por buscar espremê-lo em uma unidade rigorosamente mais definida. Ao contrário, ignorar ou negar o caráter do texto escriturístico é recusar aceitá-lo como ele é, e pode-se muito bem não entender algo importante de seu caráter santificado: a saber, que o Evangelho de Jesus é multiforme quando se endereça as diferentes situações; e que insistir sobre um só testemunho autêntico para Jesus é operar contra a própria capacidade do Evangelho de falar diferentemente a pessoas diferentes, e assim amordaçar sua palavra.

ii)             Desonramos a centralidade única de Cristo quando exigimos uma ampla unidade e recusamos a reconhecer a diversidade mediante o que o compromisso com Cristo pode ser expresso.

iii)             Pensar que, de alguma forma, nós podemos, finalmente, identificar-nos ou determinar a unidade e, portanto, estritamente, controlar ou legislar a diversidade é o pecado moderno contra o Espírito Santo.