quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Verbo abreviado, mas maior que aquilo que ele abrevia / A sua obra, a sua doutrina, a sua revelação: é Ele!





Em Jesus Cristo, que era a finalidade, a antiga Lei encontrou precedentemente a sua unidade. Século após século, tudo nessa Lei convergia para Ele. É Ele que, da totalidade das Escrituras, formava já a única Palavra de Deus.

Nele, os “verba multa” (as muitas palavras) dos escritores bíblicos tornam-se para sempre “Verbum unum” (Palavra única). Sem Ele, ao invés, o laço se dissolve: de novo a palavra de Deus se reduz a fragmentos de “palavras humanas; palavras múltiplas, não somente numerosas, mas múltiplas por essência e sem unidade possível, porque, como constata Hugo de São Vítor, “multi sunt sermones hominis, quia cor hominis unum non est” (Muitas são as palavras do homem, porque o coração do homem não é uno).

Ei-lo, portanto, este Verbo único. Ei-lo entre nós “que sai de Sião”. Que tomou carne no seio da Virgem. “Omnem Scripturae universitatem, omne verbum suum Deus in utero virginis coadunavit” (Todo o conjunto das Escrituras, cada sua palavra, Deus a reuniu no seio da Virgem).

Ei-lo agora, total, único, na sua unidade visível. Verbo abreviado, Verbo “concentrado”, não somente neste primeiro sentido que Ele, que é um si mesmo imenso e incompreensível, que é Aquele que é infinito no seio do Pai, se comprime no seio da Virgem ou se reduz às proporções de um menino na gruta de Belém ... Mas, [Verbo concentrado] também e ao mesmo tempo no sentido que o conteúdo múltiplo das Escrituras, espalhado ao longo dos séculos de expectativa vem todo inteiro comprimir-se para se cumprir, isto é unificar-se, completar-se, iluminar-se e transcender-se Nele. ... “Semel locutus est Deus, quando locutus in Filio est” (Deus pronunciou uma só palavra, quando falou no seu Filho): porque é Ele que dá o sentido a todas as palavras que o anunciavam, tudo se explica Nele e somente Nele: “Et audita sunt etiam illa quae ante audita non erant ab iis quibus locutus fuerat per prophetas” (E agora são compreendidas todas aquelas palavras que não foram entendidas antes por aqueles aos quais ele tinha falado por meio dos profetas).

Sim, Verbo abreviado, “abreviadíssimo”, “brevissimum”, mas substancial por excelência. Verbo abreviado, mas maior que aquilo que ele abrevia. Unidade de plenitude. Concentração de luz. A encarnação do Verbo equivale à abertura do Livro, cuja multiplicidade exterior deixa agora perceber a seiva única, esta seiva da qual os fiéis se nutrirão. Eis que com o “fiat” (faça-se) de Maria que responde ao anúncio do anjo, a Palavra, até então somente audível aos ouvidos, tornou-se visível aos olhos, palpável às mãos, portável aos ombros. Mais ainda: ela se tornou “comestível”. Nada das verdades antigas, nada dos antigos preceitos foi perdido, mas tudo passou a um estado melhor. Todas as Escrituras nas mãos: “Toda a Bíblia em substância, para que nós dela façamos um só bocado...” Várias vezes e de modos diversos Deus tinha distribuído aos homens, folha por folha, um livro escrito, no qual uma Palavra única estava escondida debaixo de numerosas palavras: hoje ele lhes abre este livro para mostrar-lhes todas essas palavras reunidas na Palavra única. Filius incarnatus, Verbum incarnatum, Liber maximus (Filho encarnado, Verbo encarnado, Livro por excelência): o pergaminho do Livro é agora a sua carne; aquilo que nele está escrito é a sua divindade... 

Toda a essência da revelação está contida no preceito do amor. Nesta única palavra, “toda a Lei e os Profetas”. Mas este Evangelho anunciado por Jesus, esta palavra pronunciada por Ele, se contém tudo, é porque outro não é que Jesus mesmo. A sua obra, a sua doutrina, a sua revelação: é Ele! A perfeição que ele ensina é a perfeição que ele traz. Christus, plenitudo legis (Cristo, plenitude da lei). É impossível separar a sua mensagem da sua pessoa, e aqueles que tentaram isso não demoraram muito a serem levados a trair a própria mensagem. Pessoa e mensagem, finalmente, não são mais que uma só coisa. Verbum abbreviatum, Verbum coadunatum: (Verbo abreviado, Verbo condensado), unificado, perfeito! Verbo vivo e vivificante. Contrariamente às leis da linguagem humana, que se torna clara quando é explicada, [esta Palavra] de obscura, torna-se manifesta apresentando-se sob a sua forma abreviada. Verbo pronunciado antes “in abscondito” (escondidamente) e, agora, “manifestum in carne” (manifestado na carne). Verbo abreviado, Verbo sempre inefável em si mesmo e que, todavia, explica tudo!

As duas formas, do Verbo abreviado e dilatado, são inseparáveis. Portanto, o Livro permanece, mas ao mesmo tempo passa todo inteiro em Jesus e, para o crente, a sua meditação consiste em contemplar esta passagem. Mane ou Maomé escreveram livros. Jesus, ao invés, nada escreveu. Moisés e os outros profetas “escreveram sobre Ele”. A relação entre o Livro e a sua Pessoa é, portanto, o oposto da relação que se observa em outras situações. Assim, a Lei evangélica não é uma “lex scripta” (lei escrita). O cristianismo, propriamente falando, não é uma “religião do Livro”: é a religião da Palavra – mas não única nem principalmente da Palavra sob a sua forma escrita. Ele é a religião do Verbo, “não de um verbo escrito e mudo, mas de um Verbo encarnado e vivo”. A Palavra de Deus agora está aqui entre nós, “de modo tal que se pode vê-la e tocá-la”: Palavra “viva e eficaz”, única e pessoal, que unifica e sublima todas as palavras que dela deram testemunho. O cristianismo não é “a religião bíblica”: é a religião de Jesus Cristo!


HENRI DE LUBAC, “Exegese Medieval. Os quatro sentidos da Escritura”, vol. III.