quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A Lei, Jesus e Vontade de Deus - Hans Kung







Muita gente santa reduziu o fazer a vontade de Deus a uma fórmula piedosa, identificada com a Lei. Mas trata-se de palavra muito radical, o que só se percebe, quando se vê que a vontade de Deus não se identifica, sem mais sem menos, com a Lei estrita e, muito menos, com a tradição interpretativa da Lei. A Lei pode manifestar a vontade de Deus, mas pode, muito bem, ser o meio para erguer uma barricada e atrás dela entrincheirar-se contra essa vontade. A Lei facilmente conduz ao legalismo, atitude muito espalhada, a despeito de afirmações rabínicas sobre a Lei, como expressão da graça e vontade de Deus.

A Lei confere segurança, porque se fica sabendo exatamente até onde ir; isto é, nem fazer de menos, nem fazer demais. Devo cumprir só o que está prescrito. E o que não é proibido, é permitido. Quanta coisa se pode fazer ou omitir, em concreto, antes de entrar em conflito com a Lei!

Não existe Lei capaz de prever todas as possibilidades, de calcular todos os casos, de fechar todas as fendas. Sem dúvida, são contínuas as tentativas de adaptar antigas prescrições legais (em moral e doutrina), outrora razoáveis, às novas situações da vida, respectivamente, de deduzir delas algo de aproveitável para uma situação que não é mais a mesma de antes. Esse parece o único caminho, caso se queira identificar a letra da Lei com a vontade de Deus: acumulação de Leis, através de interpretação e explicação das mesmas. Na Lei do Antigo Testamento contam-se 613 prescrições (o Codez Iures Canonici romano tem 2414 cânones). Quanto mais fina a rede, tanto maior o número de buracos. Quanto mais ordens e proibições, tanto mais se encobre o que é essencial. Principalmente é possível que se respeite a Lei em geral, porque, afinal, ordem é ordem e, eventualmente, pelo receio de consequencias negativas. Não fora prescrito, não seria cumprido. E vice-versa, talvez se omita muita coisa que devia ser feita, só porque não foi mandada e ninguém pode obrigar a fazê-la. É o caso do sacerdote e levita da parábola: viu e passou. Destarte, autoridade e obediência formalizam-se: faz-se porque a Lei manda. Nesse sentido qualquer prescrição ou proibição são de importância igual. Não é necessário diferenciar entre o que é relevante e o que não é.

Quanta coisa que não é prescrita deveria ser feita. E quanta coisa que não é proibida deveria ser omitida. É preferível contas com determinações claras. Sempre ficar margem para a discussão em caso particular: houve realmente transgressão da lei? Foi, de fato, adultério? ... E, mesmo sendo proibido por lei o adultério, não o é tudo a que ele conduz.

Essa atitude legalista recebe o golpe de misericórdia por parte de Jesus. Ele assesta o golpe não contra a Lei, mas contra o legalismo do qual a lei deve conservar-se imune. Contra o compromisso característico desse tipo de piedade legal. Rompe o muro protetor do homem, em que um lado, é a Lei de Deus e o outro as obras legais do homem. Não permite que o homem se fortifique no legalismo atrás da Lei, derruba-lhe das mãos os méritos. Mede a letra da Lei na vontade de Deus e assim coloca o homem diretamente frente a Deus, liberto e feliz. O homem não está para Deus em uma relação jurídica codificada, podendo deixar de fora o seu próprio "eu". O homem há de por-se às ordens, não da Lei, mas do próprio Deus: daquilo que Deus deseja dele de maneira muito pessoal.

Por isso, Jesus recusa-se a falar eruditamente de Deus, a proclamar princípios morais, gerais a abrangerem tudo, a ensinar ao homem novo sistema. Não fornece indicações para todas as situações e áreas da vida. Jesus não é, nem pretende ser legislador. Não repudia a antiga ordem legal, nem ofere nova Lei a abranger todas as esferas da vida. Não compõe uma teologia moral, nem um código de comportamento. Não promulga prescrições éticas nem rituais, a respeito do modo de rezar, de jejuar, de respeitar os dias e lugares santificados. Até o Pai nosso não foi conservado com o mesmo texto único: a Jesus não interessa a repetição literal de preces. E o mandamento do amor não quer ser uma nova Lei.

Antes: atacando bem concretamente, longe de qualquer casuística ou legalismo, inconvencional e seguro Jesus concita cada um à obediência a Deus que deve abarcar a vida toda. Apelos simples, transparentes, libertadores, a abrirem mão de argumentos de autoridade e tradição, e oferecerem exemplos, sinais, sintomas para a vida modificada.

Indicações eficazes e grandes, por vezes exageradas, sem qualquer "se" nem "mas". Cada um que faça a aplicação à própria vida.

O sermão da montanha certamente não quer ser uma ética legalista rigorista. Erradamente deu-se-lhe muitas vezes o nome de "Lei de Cristo". Nele exprime-se precisamente o que não pode ser matéria de regulamentação legal. A "justiça melhor" e "perfeição" não significam um aumento quantitativo de exigências. ... Segui-lo não quer dizer cumprir um quantum de prescrições. Não sem motivo o sermão da montanha abre com a promessa de felicidade aos infelizes. A dádiva, o dom, a graça antecedem à norma, à exigência. À prescrição: cada um é chamado, a cada um oferece-se a salvação, sem qualquer esforço prévio. As mesmas prescrições são consequência de sua mensagem sobre o Reino de Deus.

Assume posição apenas exemplarmente, simbolicamente.

[A vontade de Deus] não aceita o compromisso casuístico... Os exemplos provocadores do sermão da montanha não tencionam traçar uma linha divisória legal: só a face esquerda, duas milhas, o manto - ai acaba o comodismo. A exigência de Deus apela à humana generosidade e tende a um mais.

Aliás, avança ao incondicional, ao ilimitado, ao total.

Deus quer não só bons frutos, mas uma boa árvore.


Esse é o sentido das estranhas antíteses do sermão da montanha onde a vontade de Deus se contrapõe à Lei: não primeiro adultério, perjúrio, morte, mas também aquilo que escapa à Lei: já a intenção adultera, o pensamento e a palavra inverdadeiros, a atitude hostil, são contra a vontade de Deus. 

Hans Kung, Vida Eterna

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