quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Calvinismo e o sentido da oferta universal





O Calvinismo e o sentido da oferta universal


O teólogo luterano Wolfhart Pannenberg, em sua Teologia Sistemática, diz o seguinte:

“Em uma compreensão “absoluta” do ato da predestinação, para a qual a eleição OU NÃO-ELEIÇÃO divina não é condicionada por nenhum fato previamente observado da parte dos envolvidos, a ABERTURA da vocação emitida na história por meio do evangelho tenha de se torna problemática: Será que então a promessa da salvação para os fiéis, EM VISTA DE TODOS A QUE SE DIRIGE a proclamação do evangelho, ainda pode ter uma intenção igualmente séria?”.

Vamos ver qual a resposta que Calvino deu, e, por ela, tirar algum posicionamento sobre o Calvinismo.


Ensino de Calvino [i]


A questão, antiga, tem formulação própria nas seguintes palavras de Calvino: “Deus seria contrário a si mesmo se a todos, universalmente, convide a si, porém admita a poucos”.

Em sua resposta, Calvino cria a distinção entre vocação exterior e interior (ou geral/universal e particular):

“...mediante a pregação exterior, são todos chamados ao arrependimento e à fé, entretanto, nem a todos é dado o espírito de arrependimento e fé”. E: “Deus destina as promessas de salvação especificamente aos eleitos”.

O que dizer quando Deus chama para si àqueles a quem sabe que não haverão de vir?” – pergunta-se Calvino. E responde citando Agostinho: Oh, profundidade!’.

Em outro momento, tem uma reação semelhante – onde também cita Agostinho:

“Deus poderia”, diz Agostinho, “converter para o bem a vontade dos maus, porque ele é onipotente. Obviamente que poderia. Então, por que não o faz? Porque não quis. Porque não quis, está nele.

Mais adiante ensaia sua própria resposta:

“...há a vocação universal, pela qual, mediante a pregação externa da Palavra, Deus convida a si a todos igualmente, ainda aqueles aos quais a propõe como aroma de morte e matéria da mais grave condenação. A outra é a vocação especial, da qual digna ordinária e somente aos fiéis, enquanto pela iluminação interior de seu Espírito faz com que a Palavra pregada se lhes assente no coração”.

Então, para Calvino, Deus estende o convite àqueles predestinados (ou, como ele se refere, “aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte”) à não aceita-lo não porque fosse falso o convite, mas para que, sendo recusado, aumentasse os motivos de sua condenação.

A lógica é tal que Calvino não deixa dúvidas de que Deus mesmo providencia de que neguem o convite e rejeitem a mensagem:

“aqueles a quem Deus criou para vileza de vida e ruína de morte, a fim de que venham a ser instrumentos de sua ira e exemplos de sua severidade, para que atinjam a seu fim, ora os priva da faculdade de ouvir sua palavra, ora mais os cega e os endurece por meio de sua pregação”.

E, finalmente: “Certamente não se pode pôr em dúvida que o Senhor envia sua Palavra a muitos cuja cegueira quer que aumente”.

Calvino ainda diz que Crisóstomo tergiversa ao situar a distinção entre salvos e condenados no arbítrio dos homens e não unicamente no juízo de Deus.

Calvino cita passagens como Ezequiel 33-11 - “Deus o quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva” - onde admite: “Deus parece negar que, por sua ordenação, aconteça que os iníquos pereçam, a o ser até onde, contra seu querer, eles pessoalmente engendram deliberadamente para si a morte”.

O que Calvino diz é que embora pareça o contrário, os iníquos perecem por ordenação de Deus!

Ele argumenta: “Se agrada a Deus estender isto a todo o gênero humano, por que o induz ao arrependimento os muitos cujo espírito é mais flexivel à obediência que o espírito daqueles que, ante seus convites diários, mais e mais se endurecem?”.

Por tudo o que diz, a conclusão óbvia, é que não é verdade que “Deus o quer a morte do pecador”. Deus só não quer a morte daqueles pecadores que ele predestinou à vida. Fora isso: Deus quer, sim, a morte dos pecadores. Algumas traduções trazem a palavra: prazer. Para Calvino, Deus tem prazer na morte do pecador.

Qual então, o sentido desse dizer de aparência enganosa? “Não se deve dizer que por isso ele age enganosamente” – escreve. “porquanto, visto que pela voz externa tornas sem desculpas os que a ouvem”.

Uma vez que o sentido real do texto é tão diferente do que parece, a ponto de ser o contrário do que sugere, fica a questão da confiabilidade das promessas:

“Ora, pois, dirás, se é assim, mui pouca certeza oferecem as promessas do evangelho, as quais, em testificando da vontade de Deus, asseveram que ele quer aquilo que contrapõe a seu inviolável decreto”.

Mais uma vez Calvino explica que “ovo não é ovo”:
“Embora, até onde vai nossa percepção, a vontade de Deus seja múltipla, contudo, em si ele não quer isto e aquilo; ao contrário”. E diz que talvez possa nos ser concedido compreender que “Deus, de uma forma admirável, quer o que agora parece ser contrário à sua vontade”.



Fórmula de Concórdia [ii]

O Pannenberg nos faz lembrar que “A Fórmula de Concórdia condenou aqueles que afirmam que Deus não deseja seriamente a salvação de todos aqueles aos quais ressoa a proclamação do evangelho por meio da igreja”.

Nas próprias palavras da Fórmula:

“Esse Cristo chama a si todos os pecadores e lhes promete refrigério. Seriamente quer que todos os homens venham a ele e permitam se lhes ajude. A eles se oferece na Palavra e quer que a ouçam e não fechem os ouvidos ou a desprezem”.

Ela ensina que a doutrina da graciosa eleição de Deus para a vida eterna é ensinada de modo tal que é tratada “em harmonia com a razão e o impulso do abominável Satã”.

E, assim, rejeita expressamente, dentre outros, os seguintes erros decorrentes das distorções da doutrina da eleição para Vida:

1. Quando se ensina que Deus não quer que todos os homens se arrependam e creiam no evangelho.

2. Também, que Deus, quando nos chama a si, não quer, seriamente, que todos os homens venham a ele.

Pontos abertamente contrapondo-se aos ensinos de Calvino.

A Fórmula conclui chamando-os de “blasfemas e terríveis doutrinas errôneas, com as quais se tira aos cristãos todo o conforto que têm no santo evangelho”.


Advertência

“Deveríamos levar em conta as advertências de Barth”, escreve Pannenberg, “diante de ressalvas teológicas QUE FAZEM COM QUE A VONTADE DA GRAÇA DIVINA PAREÇA DUVIDOSA. A ira de Deus sobre os ímpios e a concepção do JUÍZO FINAL não devem ser imaginadas ASSIM QUE DELAS RESULTE UM MALOGRO DA VONTADE SALVADORA UNIVERSAL DE DEUS em Cristo”.





[i] Em sua abordagem da ELEIÇÃO nas Institutas, ler especialmente os textos sob os seguintes títulos:


8. duas espécies distintas de vocação: geral ou particular ou especial

10. A universalidade do convite divino à salvação o impugna o particularismo da eleição

12. Deus priva da graça salvífica os réprobos e os deixa entregues à cegueira moral e espiritual

13. Instrumentos da ira justa de deus, os réprobos se fazem ainda mais endurecidos com a pregação da palavra

15. A doutrina da reprovação o contradiz, como alegam os opositores, a ezequiel 33.11

17. Considerações em refutação de outras objeções suscitadas contra a doutrina da reprovação e conclusão final da matéria


[ii] Ler XI - DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS.

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