quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Santo gênio



Leonardo Boff é um gênio, um gênio e um santo. O que não é um pecado contradizê-lo por ser gênio, é pecado porque é santo. É um santo para quem os pobres ainda hão de rezar - e nao há uma explicação justa porque já não o fazem!

Todo homem tem uma uma obsessão, e todo santo tem, para além de outras, uma obsessão santa. Fui atrás das obsessões do santo Boff e encontrei também uma anti obsessão. Uma anti obsessão seria um desapego exagerado.

Fui ver o que o Boff estava a dizer recentemente, o que estava preenchendo sua santa mente e qual a luz divina que sua genialidade tinha a compartilhar. Me saltou essa:

"Marina Silva não aprendeu nada da história" - começa.

De pronto: a aula é de história. É sempre uma aula quando ele fala. Não uma aula qualquer, uma aula de uma mente genial. Que expectativa!

"Quer o impeachment colocando-se de novo ao lado errado. Assim não se limpa o país" - diz em seguida.

Frustração perdoável. Mas ainda ele finaliza: "Não basta rezar".

Repito - "rezar"!, eis aí uma anti obsessão. 

A análise é política, do momento atual de impeachment, mas envolve Marina Silva, uma religiosa. Daí a sacada, que só uma grande mente, obsessiva, relacionaria - "rezar". 

O Boff quando pensa na posição política de Marina, pensa na reza. Coisa de Gênio. 

Mas Boff, gênio, engana: se o leitor se prende na construção lógica, ele vai dizer que Boff não está dizendo que não se deve rezar, apenas que não "basta" rezar. E quem creditaria má fé a um santo?

Mas é a mente dele que traz a imagem, como um menosprezo - ela só reza! 

Não era o assunto, mas ele queria desqualificá-la: e para tanto, o faz falando de sua religiosidade.

O que poderia diminuir mais uma pessoa do que a sua imagem, rezando?

Marina, religiosa praticante. Que ofensa! - imagina o Boff. 

Pois religião é coisa que se quer pode ser dita em público. 

E por mais que em público, não se diga ou pratique a religião, se a pessoa é religiosa, é suspeita. O erro não é "misturar" as esferas. O erro é ser religioso, e praticante! A mente genial e indecifrável do Boff, se mostra.

Vou atrás das recentes manifestações de Marina. Vejo opiniões políticas, agendas, posicionamentos. Mas não encontro nada da grandeza da "reza" que o Boff vê. Não sou gênio, óbvio.

E mais fundamentalmente: quem acompanha a sua agenda, jamais a descreveria com uma imagem estática, passiva... para Boff - "inútil".

Sua imagem política não tem nada da imagem da reza, mas o Boff insiste. 

O grande pecado de Marina não era "apenas" rezar. Não! Era rezar... "Ela reza", e isso ofende o Boff.

Grandeza é sutileza. 

Mas o Boff está obsessivo. E toda obsessão é, por definição, repetitiva. Vou no Google, no rastreio dessa obsessão, e digito: Santo Leonardo Boff + Marina Silva.

Achei toda uma entrevista dele sobre Marina Silva. Empolgado, suspiro: mais história!

"O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa" - diz o Boff. "O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus".

Minhas anotações crescem: "papa", "autoridade"... - é preciso grifar!

A entrevista diz que os pobres perderam uma aliada. Por que? Palavras dele: "quase não fala mais nos pobres...". "Fala" - anoto. O problema é a fala. Não pode deixar de falar. 

Mas algo me chama mais atenção: "...ela, fundamentalisticamente obedece". "Fundamentalisticamente"... Veja, a primeira vista, não é tão apropriado o termo. Não é comum aí, onde ele se encontra. E, tenho minhas dúvidas, na própria exposição das ideias, não me parece tão natural. Poderia ter dito - "ela, sem questionar, obedece...". Ou ainda: "ela, apressadamente...". Mas foi "fundamentalisticamente". 

Mas o que é fundamentalismo? Boff, que já escreveu um livro sobre isso, responde. É exterminar raças, é achar que é o único certo, etc. Mas Marina não chega a tanto, alivia. E ficamos querendo saber em que parte das descrições Marina se encontra. Ele deixa em aberto, de propósito. O importante é que ela é, ponto. 

Alguém lança a questão - "Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas".

Boff não se demora: "O que Marina pratica é o fundamentalismo".

É isso aí, a consulta a Bíblia!

"Reza", e, agora, "a consulta a Bíblia", isto é, a própria prática da religião é o que incomoda Boff.

E, em outro lugar, deixa mais claro onde quer chegar - e diz algo que resume toda a entrevista: "Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado  para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente". 

A equação da sua tática não poderia ser mais clara. A intenção do desmerecimento, e para isso o uso da palavra FUNDAMENTALISTA, é político. Mesmo que Marina não seja o que ele descreve como fundamentalista, ela precisa ter essa diminuição política. 

Uma vez que chegamos aqui, preciso trazer um diagnóstico. Não cito o autor para que inicialmente, o leitor se atenha as ideias unicamente:


"O uso que ela faz dos termos para descrever situações e personagens não corresponde nunca à realidade objetiva, mas a um enfoque pré-calculado para produzir determinadas reações públicas.

Processo análogo sofre o termo "fundamentalista". Essa palavra designava os adeptos de uma interpretação literalista e legalista da Bíblia. Pouco a pouco, a classe jornalística passou a empregá-lo para rotular qualquer pessoa que seja fiel a uma religião tradicional. Isto significa que a quota de fidelidade religiosa admitida na sociedade “decente” vai se estreitando cada vez mais. É um estrangulamento progressivo, lento e calculado.

Tudo isso é manipulação cínica, voluntária e consciente. Quem molda a linguagem popular domina a alma do povo.

Um dos mais notáveis mentores intelectuais da esquerda mundial, o filósofo americano Richard Rorty, teve até o cinismo de enunciar a regra que orienta essa gente: não devemos,dizia ele,tentar convencer as pessoas expondo nossa convicção com franqueza, mas ao contrário, “inculcar nelas gradualmente os nossos modos de falar”. É o maquiavelismo lingüístico em estado puro.

João Paulo II e Bento XVI nunca estiveram efetivamente entre os conservadores. Foram transformados nisso por essa obra de engenharia verbal que, deslocando o eixo da linguagem cada vez mais para a esquerda, deforma as proporções da realidade para ludibriar a opinião pública".*

O Ratzinger também foi certeiro:

"...os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas".

Boff, gênio e santo, cabe na exata definição que Nelson Rodrigues faz de D. Helder: "só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva". Se ele ajunta as mãos - é porque alguém faz aniversário.

* O autor é Olavo de Carvalho.


Texto: Eric Brito Cunha

Um comentário:

  1. Exato. Boff, o santo híbrido, pseudo-cristão, fundamentalisticamente marxista, maquiavélico, se revela: precisa detratar a reza de marina ou de qualquer um que ameace o poder de seu partido: o PT, precisa a falar da luta de classes, em pobres. Boff é uma farsa eloquente, de voz melíflua.

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