quarta-feira, 5 de abril de 2017

ABISMO

Depravação depravada




"Perguntamos às vezes: “Você é salvo?”, “Sim”, “De Quê?”, “Do pecado”. Não, não meu amigo. O pecado não estava antes de ti. Quando um homem é salvo, ele é salvo de Deus, da Justiça de Deus que estava para vir sobre ti. Deus te salvou dEle mesmo, Ele se interpôs contra a Sua própria Justiça, que pairava sobre ti."
Paul Washer

Eu achei essa fala um ótimo link para demarcamos a diferença de C. S. Lewis da teologia que essa frase representa.

C. S. Lewis é um autor cristão para todos os públicos. Isto é, para todos os cristãos. Sem nenhuma espécie de barreira. Um dos motivos, além do enorme talento e criatividade, é que ele se propôs, em grande parte, a focar o "mero cristianismo" ou o Cristianismo SEM as questões de ordem secundária: sem as mil esquinas que o divide.

O ensino que o Washer reflete nessa frase é exatamente o que o Van Till diz estar ausente na teologia de C. S. Lewis. Ele diz:

"Em Lewis não vejo nenhuma percepção da minha necessidade de aceitar a expiação substitutiva". E mais: "segundo ele, não devemos nos preocupar sobre qual é a teoria correta sobre a morte de Cristo, nem como ela se deu... é interessante que em Crônicas de Nárnia vemos que realmente Lewis não se importava com o sentido bíblico da expiação, pois na história o resgate é pago ao diabo, e não a Deus".

O Van Till está correto quanto a esse dado? É discutível. Uma questão diferente: ele analisa corretamente esses dados? Aqui, creio que a resposta deva ser "não". Porque nem toda a fé cristã, genuinamente cristã, expressou sua fé nos benefícios da morte de Cristo nos termos desse calvinismo. As teorias concorreram, e conviveram. O problema é que essa expressão é a hegemônica e é monolitista (só ela quer estar certa, não aceita outras).

Nesse campo de debate, que é amplo, sublinho especialmente a ênfase do próprio Washer: no sentido PROPICIATÓRIO da morte de Cristo. Isto é, que ela apazígua a ira de Deus, cobra a conta do mal.

Embora isso possa parecer verdade, o ensino das Escrituras é "mais verdade", uma verdade maior - segundo as Escrituras, a morte de Cristo é o preço que o próprio amor de Deus quis investir. A morte de Cristo foi motivada pelo o amor de Deus. "Em Cristo", na vida, e também na morte, Deus mesmo estava amando. Em Cristo Deus nao se mostrou irado (se as Escrituras também se expressam assim, devemos buscar seu sentido). 

A MESMA história pode ser contada de uma forma mais completa, e com uma abordagem mais positiva: que penso ser o foco das Escrituras. Se há alguma tensão (Amor X Ira), independente dela, o preço da salvação é Deus quem paga, e o faz por Sua graça e amor. Deus estava assim provando Seu amor para com os pecadores.

Dito isso, até pela ênfase negativa, acredito que o Washer e toda a teologia que ele representa, está equivocada.

***
O cristianimo sustenta-se na afirmação de um paradoxo absoluto: Deus se fez homem, e sem deixar de ser Deus, continuará sendo homem. 

Antropologicamente também mantém tensões: o homem é a tragédia de sucesso da boa criação de Deus. O homem é uma mistura de pó e glória. Qualquer desmedida, o desumaniza. E se o humanismo o exalta despropocionalmente, a tentação do cristianismo é desprezá-lo. 

O homem nao pode esquecer de que é pecador, mas não pode fixar-se nesse aspecto da verdade sobre ele. 

Jonathan Edwards é famoso pelo seu sermão Pecadores  nas  mãos  de  um  Deus  irado. Conta-se que seu sermão deixou o gosto de inferno na boca dos ouvintes - pessoas em agonia agarravam-se onde podiam. Sentiam se, conduzidos pelo sermão, empendurados sobre a boca do inferno. 

Até o Packer tenta defender a finalidade evangelística desse sermão. 

Mas ali o inferno era tão ruim quanto as pessoas - era um espelho. O inferno era o que o homem é, e merece.

Aqui penso estar diante de uma desproporção. E ela é tao comum quanto o sermão de Edwards é elogiado e defendido. 

O homem-para-o-inferno é anti mensagem evangélica. 

Aqui, nesse sentido, o anti-cristo é o anti-homem. 


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"Sem dúvida o cristianismo afirmou que todo homem é concebido e gerado em pecado, e no insuportável cristianismo superlativo de Calderón essa idéia foi mais uma vez atada e entrançada, de modo que ele ousou o mais estapafúrdio paradoxo nestes versos conhecidos: 

a maior culpa do homem 
é a de ter nascido",  

escreve Nietzsche. 

E para quem acha que esse diagnóstico é exagerado ou localizado, Agostinho é quem contesta:

"Assim, são dignos de JUSTA condenação  os que por ela  (a graça) não são libertadas ... quando pela idade não poderia ouvir (as crianças). Isso porque levam consigo o pecadom o qual contraíram pela origem", Agostinho.

Para Agostinho, mandar uma criança pagã para o céu, é desprezar o evangelho. O evangelho até mesmo para Agostinho, acolhe crianças que merecem o inferno. Calvino repetiu isso. 

Para sustentar todo o edifício do evangelho, a graça imerecida, a justiicação pela fé, os méritos da obra de Cristo - defendiam, a criança precisa merecer o inferno. 

Tudo isso, faz de Nietzsche, gostemos ou não, um profeta:

"O cristianismo esmagou e despedaçou o homem por completo, e o mergulhou como num lodaçal profundo: então, nesse sentimento de total abjeção, de repente fez brilhar o esplendor de uma misericórdia divina, de modo que o homem surpreendido, aturdido pela graça, soltou um grito de êxtase e por um momento acreditou carregar o céu dentro de si. Sobre este excesso doentio do sentimento, sobre a profunda corrupção de mente e coração que lhe é necessária, 56 agem todas as invenções  psicológicas do cristianismo: ele quer negar, despedaçar, aturdir, embriagar...". 

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As pessoas não podiam suportar o peso das palavras do cristianismo de Edwards. Penso eu se a experiência foi tão traumática que moldou, pelo temor que impede a alegria e a paz, a vida daquelas pessoas para sempre. 

Li um texto do Nelson Rodrigues, e nao pude deixar de fazer a relação. Eis o que ele diz:

"Eu teria o que? Uns 17, 18 anos. Naquela época, conheci Osvaldinho. ... Coisa curiosa. Nao se conhecia um defeito ou virtude em Osvaldinho que o distinguisse dos demais. Nunca vi ninguém mais parecido com todo mundo. ... Osvaldinho era um homem comum até no diminutivo... um dia vou dobrando uma esquina e esbarro no Osvaldinho. 

Agarra-me e cochicha: - Seja bom, Nelson, seja bom". Instala-se em mim um sentimento de culpa. Pergunto: - "Mas como? Por que bom?" Olha para os lados e fala mais baixo: - "Só a bondade resolve." ... fiz, ali mesmo, em cima da calçada, um rápido exame de consciência. E conclui, para mim mesmo: - "Posso não ser dos melhores, mas também nao sou dos piores." E eu: - Mas escuta, Osvaldinho, o que é que houve? O que é que há?" Fez mistério, fez suspense: - "Não se esqueça, Nelson. A bondade é tudo". E partiu. 

Pela primeira vez Osvaldinho deixava de ser como todo mundo. ... A coisa foi numa progressão alarmante... O clínico da família, consultado, mandou levá-lo ao psiquiatra. Este o recebeu e começou: - "O que é que você está sentindo?" ... Osvaldinho responde: - "Doutor, eu não sou bom, o senhor não é bom, ninguém é bom."

... Durante toda a consulta, Osvaldinho repetiu: - "O senhor não é bom, doutor, o senhor não é bom". E, realmente, aquele psiquiatra famoso cometera uma açao que ainda o envergonhava e havia de envergonha-lo aé o fim de seus dias. Eis o episódio: - examinava uma louca, quando esta lhe cospe na cara. E o psiquiatra, furioso, agride a doente, a sapatadas. Ora, tal fato acontecera, por coincidência, na véspera. E o Osvaldinho com o estribilho crudelíssimo: - "O senhor nao é bom, doutor, nao é bom!" O psiquiatra já queria chorar". 

Penso até onde a culpa é uma marca que se pode curar, até onde a consciência cristã encontra paz, paz real, até onde o nosso mal não é uma fixação insalubre. 

***
Tais palavras foram escritas não para negar a ambiguidade humana. Mas para manter o homem tal qual ele é visto pelo evangelho. 

O Pascal já havia dito - “o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar”. 

Só se conhece o homem, quando ele visto a partir do evangelho. 

É nesse sentido que o Karl Barth vai dizer que "existe, por assim dizer, um conhecimento infrutífero do pecado, do mal, da morte e do demônio, que consegue tornar difícil para um ho­mem ter uma fé feliz e confidente no Pai Todo-Poderoso e Criador...".

E as palavras dele nos coloca diante da única perspectiva correta para olharmos para esse problema:

"Para olhar atentamente para dentro desse abismo, tão longe quanto for possível para nós o fazer por nós mesmos, amedrontador é este abismo! Quão amedrontador ele é que nenhum homem nunca pode compreende-lo com o profundidade de si mesmo.

Esta miséria é "precondiçào negativa desta reconciliação que tornou acessível precisa, enfática e seriamente quanto possível o abismo entre Deus e o homem que foi trans­posto por intermédio de Jesus Cristo com o reconciliador.

Jesus Cristo é o último plano a partir do qual a miséria e o desespero do homem recebem as suas luzes e não vice-versa."

A miséria e o desespero do homem... dá a luz através da qual está para ser reconhecida o que a graça é e Quem Jesus Cristo é".